Concurso de Poemas

Por Vieira Vivo

                        Um pequeno grupo de vinte a trinta pessoas aguardava, entre burburinhos, o início do evento realizado em um auditório público ornamentado por extensas paredes e portas de vidro transparente. Aglomerados no saguão, em meio a cumprimentos e sorrisos, os concorrentes e convidados desfilavam ansiedades e observavam os organizadores afoitos a correrem esbaforidos no intuito de se amoldarem ao imperativo ditame dos horários. Segundo a chamada para o concurso, cada participante deveria trazer três cópias de seu poema e inscrever-se momentos antes da leitura. 

                        A normalidade do ambiente foi quebrada, de repente, por um alvoroço de vozes masculinas oriundas de um canto do hall de entrada onde dois seguranças tentavam barrar a passagem de um sujeito maltrapilho. O homem não aparentava embriaguez, porém os chinelos gastos, as calças puídas, as mãos sujas e um forte odor de urina e suor depunham contra a sua presença. Todos silenciaram imediatamente e o foco das atenções concentrou-se na retirada à força daquele intruso. Envolvido pelos braços dos vigilantes, enquanto se via arrastado para fora, o homem conseguiu a todo custo retirar um papel amassado do bolso, erguê-lo para o alto e berrar em meio às lágrimas: 

             – MAS, EU TROUXE UM POEMA!!!!!

                        Aquela senha suplicada em desespero, teve um efeito paralisante sobre todos. Os seguranças o soltaram imediatamente. O silêncio se impôs sobre os gestos e os olhos fixaram-se ávidos naquele homem rude enquanto ajeitava as roupas rasgadas. Então, levantou novamente o poema, respirou fundo e disse:

             – ANTES DE SER MENDIGO EU JÁ ERA POETA!

                        O coordenador do concurso, imediatamente, providenciou mais duas cópias manuscritas de seu único poema e recomendou-lhe aguardar a chamada. Ficou encolhido em um canto, cabisbaixo, enquanto era observado de soslaio pela plateia distante. Ao anunciarem seu nome, subiu ao palco e recitou agruras, sofrimentos, abandono… e suas palavras, juntamente com as dos outros, misturaram-se aos reflexos luminosos dos lustres. Foi concedido ao seu trabalho “Menção Honrosa” e por isso, foi merecedor de um grosso livro de poesias, o qual foi recebido com o mesmo respeito que devotamos aos objetos sagrados.

                        Ao término do evento, enquanto as pessoas despediam-se, festivamente, de uma corriqueira e monótona noite de atividade literária, um homem solitário atravessava a rua escura a passos lentos e apertava contra o peito aquela sua valiosa conquista. Por muitas noites, teria ao seu total dispor, como dileta companhia, o travesseiro mais precioso da marquise.

VIEIRA VIVO – Nascido em Santos, em 1954. Poeta da geração mimeógrafo. Participou do Grupo Picaré. Atualmente é editor da revista temática Cabeça Ativa e coeditor e encadernador da Ed. Costelas Felinas (livros artesanais). Doze livros publicados. Obteve com Centelha Insana o prêmio de melhor livro de poesia de 2014 pela IWA – International Writers Association. É também integrante do grupo musical Pau a Pique.

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