A pandemia dos lacaios

Por Benilson Toniolo

“poucos olham para dentro

já que dentro não tem nada.

Apenas um peso imenso:

a alma, esse conto de fadas” .

Paulo Leminski

Sejamos razoáveis: a crise provocada pela pandemia do coronavírus nos concedeu uma oportunidade de estarmos frente a frente com aquilo que mais temos medo de encarar: o que somos por dentro. As virtudes e os vícios, para dizer o mínimo e economizar nos adjetivos, de nossa humana condição.

De repente, nos demos conta de que, tudo somado e diante de um quadro até então inimaginável, somos isso mesmo, sem choro e nem direito a recurso: este mosaico, esta algaravia de sentimentos e sentidos, dúvidas e desacertos, esperanças e desejos que, afinal, nos configuram e tornam única a nossa espécie. Nada a fazer, portanto? Sim. Muito a fazer. E refazer, costurar, gestar e trazer à luz. Uma oportunidade e tanto.

Confusos e surpresos – alguns, aterrorizados – diante das notícias apocalípticas vindas de todos os lados e em todos os idiomas, em meio a gráficos e siglas de entidades das quais até então nunca tínhamos ouvido falar, ainda sem saber direito o que é que vinha pela proa, buscamos refúgio onde nos sentimos menos expostos: as redes sociais. E ali despejamos, a cada segundo, como estamos habituamos a fazer, todo o nosso inventário de credos, certezas e obviedades, criando uma quantidade inimaginável de baboseiras, confirmando e passando recibo no que disse Umberto Eco, pouco antes de sua morte: “as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”. Imbecis que não somos todos, claro, no sentido etimológico do termo, mas que representam um número considerável de exemplares a vagar pelo planeta. Não se sabe, aliás, se Eco poderia imaginar o estrago que as redes sociais seriam capazes de provocar em processos eleitorais, por exemplo.

É algo para se pensar. Mais do que um hábito, as redes sociais se transformaram em nosso deus e em nossa paixão – por isso, impedem a visão. Nós nos rendemos à “paixão da postagem” como quem, devotamente, segue as orientações do seu líder espiritual de reputação ilibada e contra quem nada há que desabone, ao mesmo tempo em que nos entregamos ao objeto de nossa idolatria como quem vive o último dos seus dias: patética e inconsequentemente. Nós nos tornamos subordinados de um grande sistema onde apenas postar já não é suficiente: é necessário curtir, comentar, editar, compartilhar e excluir o que não vai de encontro ao mosaico de que somos feitos. É disso que vive o sistema da rede social: da necessidade humana de expor suas vísceras e revelar suas medidas e contrastes. O que somos e o que gostaríamos de ser: o que sonhamos, um dia, ser. Sem recriminações: não gostou? Te excluo. É meu direito. Meu deus permite e me concede essa graça. E continuamos fiéis um ao outro.

Ao mesmo tempo em que como, de um dia para o outro, tornamo-nos especialistas em pandemias e suas formas de contágio, já fomos também mestres em segurança pública, em política internacional e em educação, críticos de arte, poetas, economistas e historiadores. Já resolvemos o problema da fome do mundo, temos a solução para a crise na Venezuela, conhecemos a fundo tudo o que há em torno da Revolução Cubana  e redividimos o mundo em direita e esquerda, ressuscitando um comunismo que, desde 1989, dormia seu merecido descanso (com um ou outro sobressalto, é bom que se diga).

Penso que talvez já tenhamos chegado ao ponto de excesso de tudo aquilo que a tecnologia presente nas redes nos trouxe. Passamos a medida do equilíbrio e do bom-senso. Nós nos tornamos discípulos e lacaios de um sistema que impõe obediência cega e que se alimenta de seus usuários para que continue vivendo: um pouco como deus, um pouco como a paixão.

A pandemia do coronavírus, como grave crise que é, e cuja origem e dimensão ainda desconhecemos, serve, nesse sentido, como mais um elemento a expor ao mundo estas fragilidades, medos e incertezas que, afinal, são parte de nossa constituição. Daí que a reclusão a que estamos todos remetidos é uma oportunidade, talvez única, de repensarmos nosso papel no mundo, e para isso são recomendáveis calma, capacidade de introspecção e reflexão, algum amor-próprio para manter a autoestima em níveis aceitáveis e uma boa quantidade de isolamento e silêncio. Não é pouca coisa, se ainda pretendermos sair desta crise um pouco melhores e mais humanos do que quando entramos.

Essa oportunidade de encontro com nós mesmos, aliás, foi bastante celebrada quando do começo do isolamento. Hoje, passados três meses, o máximo que muitos de nós conseguimos fazer foi passar os dias e grande parte das noites nas redes sociais, de onde saímos de tempos em tempos, angustiados e infelizes – até voltarmos mais tarde para novas postagens, servos que somos.

Temo que talvez sejam necessárias ainda muitas outras pandemias para que possamos, enfim, voltar a cuidar daquilo que existe por dentro de nós mesmos. Sozinhos e isolados com nossa própria essência.

Um comentário sobre “A pandemia dos lacaios

  1. Bonitas palavras, este dilema no início de fevereiro me fez tomar uma série de ações, não apenas olhar para dentro, mas para nosso passado e assumir compromissos. Comecei por rejeitar todas as ações coletivistas, já que como aprendemos no passado, como jordanenses, sabíamos que uma doença resultante de infecção microbiana de um vírus do tipo corona se transmite de uma pessoa para outra pessoa, sem a presença ou participação de vetores, mas sim através das secreções humanas produzidas na fala, tosse, espirro ou lacrimação.

    Como era no passado com a bactéria (Mycobacterium tuberculosis, ou bacilo de Koch) que tanto conhecíamos, temíamos e enfrentavámos com coragem, de um tempo em que acolhiamos doentes de todo o Brasil sabíamos que a transmissão se enfrenta evitando-se o contato físico e impondo barreiras físicas, que inclui as móveis presentes nos EPIs específicos, o aumento da distância e as melhores práticas de higiene e limpeza. Sabíamos da importância de se adotar as melhores práticas para assegurar a nossa imunocompetência: boa alimentação (colorida), hidratação, atividades físicas, exposição ao Sol, ar puro e boa ventilação. E o mais importante, pensarmos sempre nos mais vulneráveis, saber quem são eles e como protegê-los, que não são (só) os idosos, como se divulgou, mas sim os dependentes químicos, obesos, os pacientes imunodeprimidos e as pessoas sãs imunocomprometidas em função da ansiedade, stress e ao gradiente da idade.

    Deste compromisso resultou o entendimento das ações individuais e responsáveis e a importância de darmos aos mais vulneráveis a Triple Protection.

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