A cegueira moderna

Por Priscila Silva

Se os olhos são a “janela da alma”, capazes de refletir sentimentos, sensações, paisagens, sendo o órgão responsável pelo sentido mais expressivo e significativo dos seres humanos, por que são objeto de obras de cunho apocalíptico e de destruição da humanidade? O “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago, publicado em 1995, utiliza a condição da cegueira para mostrar um cenário caótico, em que o ser humano mostra o pior de si, seus medos, suas aflições e seu desespero, na falta deste sentido tão importante para a vida. Tornamo-nos fracos e desprotegidos sem a visão, desesperados aguçando os demais sentidos para tentar entender o mundo que nos cerca, os acontecimentos, percebendo onde há maldade e onde ainda resta bondade.

Em 2001, no filme “Janela da Alma” (lançado em 2004), Saramago participa com um depoimento em que, para ele, os olhos podem ser “seletivos”, pois há situações que vemos e muitas outras situações que “não vemos”, no sentido de que passam despercebidas, ou que fingimos não percebê-las porque nos convém. Saramago também fala sobre um coletivo que nos leva a “ver” em conjunto, lançando opiniões coletivas, reflexões coletivas.

Já em tempos mais atuais, em 2014, Josh Malerman lança “Bird Box”, que em 2018 fez sucesso ao ser filmado pela Netflix e trouxe a obra ao conhecimento popular. “Bird Box” também trata a cegueira em cenário apocalíptico, porém, as personagens não estão de fato cegas, mas sim não podem abrir os seus olhos, pois, do contrário, suicidam-se violentamente ao terem visões que variam de pessoa para pessoa, conforme seus medos, seus fantasmas passados e suas maiores aflições. São os olhos novamente os portadores do caos e da destruição humana.

Agora, em se tratando dos olhos, o seu significado gira em torno da percepção intelectual, compreensão, inclusive um elo entre o mundo exterior e o mundo interior. Isto explica as aparições dos olhos cegos com um viés apocalíptico e caótico: sem os olhos, não temos mais percepções, não entendemos o que se passa à nossa volta, instaura-se a desconfiança e o lado humano violento vem à tona. A falta da visão em Bird Box é opcional, já que não se pode abrir os olhos, mas a visão ainda está intacta, porém, também instaura-se o mesmo cenário de desconfiança e medo que afligem o ser humano incapaz de ver.

O que neste ensaio nomeamos como cegueira moderna nada mais é do que estes medos, aflições e o “não querer ver” da modernidade: fechamos os olhos para o que está “longe” e enxergamos apenas o que nos afeta diretamente. É uma cegueira seletiva, um arrastar-se pela multidão como nos diz Saramago, em uma cegueira talvez inconsciente. Percebemos isto no cenário político, no capitalismo avassalador e no consumismo desenfreado. A cegueira moderna é interna, causada por repulsa, indiferença, comodismo, ilusão. São estes anseios os tratados pelos escritores que utilizam os olhos como protagonistas de suas histórias: o medo de um futuro em que não poderemos mais “ver”, sentir e perceber o outro.  

No entanto, felizmente ainda percebemos um crescimento da empatia, uma solidariedade que cresce em prol da mulher, em prol das crianças vítimas de violência, em prol dos desfavorecidos. É um “querer ver” que se propaga de ser humano para ser humano, e os olhos passam a perceber a necessidade do outro, ou mesmo a perceber o outro antes invisível. Talvez em futuras terras apocalípticas de cegos, ter um olho significará a salvação do outro, a solidariedade e a bondade, e não o medo e o terror diante da dependência do desconhecido.

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