Intersensorialidade entre fotografia e música

Por Thais R. Dassi

Há um local em que todas as artes se encontram. Como um ser sensível, sinto a intensidade dos sons e das imagens e percebo a correlação entre as diferentes linguagens artísticas. Sinto que as diversas formas de arte são meios diferentes de concretizar o que vem de uma mesma fonte, de exteriorizar o que nasce no reino do perceber e do sentir.

Muitos artistas ao longo da História perceberam comunicações sinestésicas. Conforme registra Étienne Souriau (1983), Goethe é um dos mais antigos defensores das correspondências entre as sensações. Baudelaire também defendeu essa relação, sobretudo em seu soneto “Correspondências”, claramente nos versos “os perfumes, as cores e os sons respondem uns aos outros”.

Particularmente, a linguagem fotográfica me interfere e me toma de tal modo que me transporta. O mesmo ocorre com a música. E percebo que existe uma essência comum inerente a essas duas linguagens.

Ao encontro dessa percepção, Yara Borges Caznok (2015) relata que a maior parte das relações sensoriais envolve a visão e a audição e, consequentemente, as linguagens visual e sonora.

Conforme Caznok, a intersensorialidade entre luz e som se dá, principalmente, pela percepção da claridade e da escuridão tanto auditiva como visual (sons agudos e intensos sugerem claridade e luminosidade, enquanto sons graves proporcionam sensações mais sombrias e escuras). A autora também cita a espacialidade como característica do som que o inter-relaciona à percepção visual (sons fortes proporcionam maior preenchimento espacial do que sons menos intensos).

Quanto ao caráter expressivo, Rudolf Arnheim (1989) aponta características comuns entre cores e sons, como serem agradáveis ou repulsivos, transmitirem calma ou euforia, frieza ou calor. No campo da psicologia da Gestalt, Wolfgang Köhler (1968) identificou que sons podem sugerir, também, efeitos sensoriais que os fazem serem associados a formas (podem parecer mais estreitos ou largos, grandes ou pequenos, arredondados ou quadrados e, até mesmo, pontiagudos). E, no que se refere à harmonia musical, Robert Jourdain (1998) assinala que ela é correlativa ao espaço na pintura.

Ademais, Caznok documenta que, no século XX, a correspondência entre as artes ficou bastante em foco, tendo a pintura e a música uma aproximação marcante. Artistas como Wassily Kandinsky, Paul Klee e Piet Mondrian dedicaram-se a identificar na arte pictórica elementos considerados característicos da música.

Em consequência da integração sensorial de tais linguagens artísticas, a música assimilou, ao longo dos tempos, termos considerados próprios das artes visuais, como textura, densidade, rugosidade, granulação, entre outros.

Como é possível perceber, a comunicação entre a música e as artes classificadas como “visuais”, a exemplo da fotografia, acontece em vários planos.

Entre os aspectos comuns à linguagem musical e à linguagem fotográfica, destacam-se: nitidez; claridade/obscuridade; luminosidade; brilho; intensidade; profundidade; harmonia; sonoridade; ressonância; movimento/ritmo; expressividade; textura, granulação, rugosidade; tonalidade, cromatismo; densidade; espacialidade; temporalidade.

Essa percepção sensorial me levou a dar vida ao ensaio fotográfico Êxtase musical, em que por meio de imagens fotográficas expresso a minha relação intersensorial com a música. Em tal ensaio, música e fotografia se enlaçam na ressonância das cores de formas e sons, na luminosidade visual e auditiva, na textura do timbre e da imagem, na harmonia sonora e visual. Sobretudo, há um ritmo inerente ao ensaio fotográfico no encadeamento das imagens que irmana música e fotografia.

Fotografia 1 do ensaio
Êxtase musical.
Arquivo da fotógrafa.

A comunicação entre a linguagem sonora e a linguagem visual de fato acontece, no entanto, conforme documenta Souriau (1983), as especificidades das relações que envolvem esse processo são variáveis entre os indivíduos.

Segundo Merleau-Ponty, no pensamento fenomenológico a experiência sinestésica é naturalmente possível a todas as pessoas: “[…] se não percebemos isso é porque o saber científico desloca a experiência e porque desaprendemos a ver, a ouvir e, em geral, a sentir […]. (2006, p. 308.)

Então, gostaria de, gentilmente, fazer-lhe um convite… De parar por alguns instantes para se conectar consigo mesmo(a) e com a imagem abaixo, e se perguntar como essa imagem ressoa em você.


Fotografia 2 do ensaio
Êxtase musical.
Arquivo da fotógrafa.

Seja qual tenha sido a sua resposta, há uma música acontecendo entre você e essa imagem. E, quanto mais você exercitar essa percepção, mais fácil será de percebê-la e de encontrá-la bem no local em que todas as artes se encontram, numa razão primeira e essencial de existir…

Referências bibliográficas:

ARNHEIM, Rudolf. Intuição e intelecto na arte. São Paulo: Martins Fontes, 1989.; CAZNOK, Yara Borges. Música: entre o audível e o visível. 3. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2015.;

JOURDAIN, Robert. Música, cérebro e êxtase. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998.;

KÖHLER, Wolfgang. Psicologia da Gestalt. 2. ed. Belo Horizonte: Editora
Itatiaia, 1968.;

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.; SOURIAU, Étienne. A correspondência das artes: elementos da estética comparada. São Paulo: Cultrix, 1983.

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