Ação cultural contemporânea como a estética da transformação

Por Thiago Camacho

A Modernidade não morreu. O período moderno, crítico e vanguardista, não está morto. Ou pelo menos podemos dizer que ele não se esvaiu totalmente, e nem teria como essa finitude acontecer, dado que a expressão do artista ou mesmo a expressão humana tem a sua temporalidade, o seu espaço contextual, e é, dessa forma, percurso comum para os seus próprios desdobramentos, sem os quais o presente não existiria, ou não seria o que é.

O mesmo poderíamos dizer sobre performance, já que esta está composta pela essência do que foi entendido por moderno pelas referências aqui presentes. Na minha perspectiva e na dos autores de base a que me remeto, desde Renato Cohen em Performance como linguagem (2011), Marvin Carlson em Introdução a Performance (2007), Maria Elvina Pereira Caetano em Tessituras Polifônicas da cena contemporânea mineira (2011), Eleonora Fabião em seu texto Teatro e Ensino: Poéticas e políticas da cena contemporânea (2011), Richard Schechner em O que é performance (2006) e ainda remontando o movimento contracultural Fluxus, em nomes como John Cage e Alan Kaprow com o advento dos Happenings, entre outros, a performance – como desdobramento e construção dialógica junto ao happening e a Body Art, tem uma estética comum que transgride, que explana outras versões além das mais tradicionais e aceitas, a subversão, em seu sentido simples e literal. Quando a ação em performance subverte espaços e tempos sociais e culturais assume, em nossa visão, um movimento de intervenção, discurso ou até mesmo ruptura políticos. Ainda quando a performance subverte os seus próprios sistemas artísticos diríamos que essa investida ainda é política. Por se envolver com a conscientização ética e estética no ato criativo, criar canais de diálogo com o  espectador, uma postura interventiva na realidade e de constante problematização do presente, desestabilização de lugares estáveis, locus e temporalidades que não satisfazem mais nem o artista, nem os professores, e nem o cidadão de um modo geral, desprogramando corpos programados, os corpos dóceis – em uma perspectiva também foucaultiana (Foucault, 1976) – a do questionamento das tradições sociais, especialmente dos corpos acomodados com a realidade política vigente, a performance trará, assim, a eminência do ato politicamente engajado, ativista – com semas e neologismos criados inclusive acerca do termo artivismo (Alexandre Gomes Vilas Boas, 2015) – e se confundirá frequentemente com estudos dos campos sociais e filosóficos, dada a transversalidade dos mesmos, como por exemplo o que ocorre atualmente sob direção de Richard Schechner na New York University (Schechner, 2006), onde fala-se em performance como ação social e cultural.

Ainda segundo a perspectiva destes autores, a performance é como um último suspiro da Modernidade crítica, quando as obras são posteriormente absorvidas pelo mercado, e antes deste fim definitivo das vanguardas, esta linguagem herda delas a natureza transgressora de que eu falava. Ainda que estejamos em solos do fim da História, do fim da arte, e portanto, de amplo questionamento acerca da virulência transformadora das artes, sobre a sua crítica, infiltração política e movimentação eficaz da realidade, a linguagem em voga preservou a subversão como seu componente sistêmico próprio e imanente. Talvez por ter nascido ainda vanguardista, ela vive e se comporta muitas vezes revelando suas bases e atmosfera de origem: a partir do confronto e desmantelamento do modus operandi e do status quo. Mas o porquê de estarmos submersos em realidades tão desterritorializadas de compreensão crítica do que se diz artefato artístico, e em situações tão conflituosas acerca da performance como linguagem e sua natureza, que diante do cenário contemporâneo e de sua consolidação e globalização, tornam-se impassíveis de enigma? Fredric Jameson (2001) poderá nos dar pistas.

A deflagração da arte como uma mercadoria já é decorrência apontada por Jameson como um fim compulsório dos artistas. Decerto este fim já era um projeto da própria Modernidade ou de alguns modernistas, quando a arte se transformou em produto. Mas falamos de sentidos diferentes do termo. Devemos nos ater com atenção ao sentido de artista que em Jameson aparece na ideia da anti-arte, assim como na maior parte do que se entende por Modernidade da contracultura, daquela contingência que rompe as barreiras entre arte e vida, e remonta a historicidade como um processo. O processo histórico como espaço de disputas, como luta de classes, como o ponto relevante da consciência crítica nas artes, o que torna a expressão do indivíduo ligada à sua própria emancipação, à denúncia da injustiça e do horror do mundo, da exploração do homem pelo próprio homem, na chave da morte da convenção e das regras burguesas dos artefatos, acentuando a contradição, no plano do materialismo dialético e do marxismo. Então dizer que o artista morreu e falar em fim da arte e fim da história é falar em fim da crítica e do potencial revolucionário e vanguardista de outrora. A enxergar arte como resistência e ruptura, transgressão e subversão de sistemas e passado o clímax dessa vertente com o fim das vanguardas históricas, a arte criticada de então circula com o peso da imagem no marketing, a fim da compra e da venda, da persuasão ligada agora à movimentação da economia, e do capital financeiro, industrial e globalizado, nas prateleiras do novo “museu contemporâneo”: o mercado. Superar os limites entre o denotado sentido de arte e a mercadoria cultural é perder a consciência potencialmente histórica de sua divisão social e disputa, de modo a engessá-la no aqui, no agora, no imediatismo, no carpe diem de um hedonismo estético extravagante feito para envolver e distrair o olhar, impedir que se aprofunde. Essa distração que é cada vez mais adestrada a captar o ícone reluzente, isto é, o que tem brilho e chama atenção apenas pela superfície, a inflação de signos, e não poder escapar mais de sua consequente deflação de sentidos4. (Baudrillard, 1990), nos aponta para esse caminho de aparente finalização da consciência crítica e para sua causa, a capitalização do produto que apenas entrete e que dispensa o pensamento mais aprofundado.

Os conceitos da imagem na sociedade do consumo, regida pela nova ordem econômica dominante, chamada com eufemismo de modernização pelo senso comum, desloca a memória e a consciência em direção à objetificação, à pasta “nuvem”, ao encapamento visual do produto, desabitando corpos. Nesse sentido de perda da realidade, quando frente ao reluzir incessante de signos e de experiências sensoriais intensíssimas, distraídas do mundo ao redor, sequestradas de consciência ética sensível em atos criativos, decorre do declínio também automático e consecutivo da subjetividade – o corpo sem história. Ele vale pelo que pode vender. A experiência e a memória valem pelo que podem ser úteis, e a chave do utilitarismo impera sobre as dimensões transversais da ética, da estética e da política. O corpo a histórico, a obra a histórica, e a descontinuidade da expressão, sem passado, sem presente e sem futuro implicam na impossibilidade de reconhecimento da própria identidade, do próprio eu em relação a sua realidade contextual, na instância dos seres vendidos, desprovidos de narrativa, viventes da hiper definição, da hiper-realidade, a hipermodernidade, e da intensa sensorialidade.

No imaginário do presente perpétuo, a modernização do consumo e a sofisticação da produção, colaboram com o sentimento de urgência atomizada, sob estresse permanente e sob o caos do capitalismo neoliberal global. Para retomar a percepção do corpo de sua própria dimensão histórica, necessitaríamos remontar a consciência da temporalidade, isto é, o elemento central é a historicidade. Historicidade é desvio da norma atual, é escapismo, o reencontro com a história, e o Retorno do real 5(FOSTER, 1996).

Alguns diagnósticos dessa nova sociedade e de sua produção expressiva posta com código de barras. (BAUDRILLARD, 1990)

  • Descompressão social cool, e o pensamento menos crítico ou menos interventivo.
  • Mergulho na sociedade de mercado – na qual os países devem se inserir politicamente se não quiserem ficar à margem do funcionamento econômico estrutural, em condições de relativa indignidade.
  • Dissuasão das tensões, do antagonismo, e declínio da percepção dialética. Não há atrito no interior das lógicas do turbocapitalismo automático, ele está isento de forças reativas consideráveis. “Um coroamento da história da Humanidade, e já é tarde demais6”. (B, 1990)
  • A generalização do esteticismo: a marca da neosofística contemporânea na filosofia, na chave do pós-estruturalismo francês e a sua estetização inclusive do pensamento, como na concepção de produtos capitalizados.
  • Substituição da obra de arte por sua redução à mercadoria cultural.
  • Urgência dos prazeres, da realização no consumo sem medidas, sem espera.
  • Ausência de renúncias.
  • Autopromoção, e florescimento pessoal como se o indivíduo fosse uma empresa de si mesmo, um investimento. (JAMESON, 2001)

Frente aos impactos do fim da arte, como esse projeto da própria Modernidade consumista, que levou junto embora parte da crítica, e do Sublime, as formas de resistência se dão nos planos políticos de devolver à Estética a ética, na chave da transformação social e do engajamento, com a reflexão acerca da perda da imagem-enigma, na tentativa de subtração dos elementos de poder que regem essa ordem. O combate e a alteridade nesses grupos de resistência aparecem então como gatilhos à ordem de enxugamento do Estado, de encolhimento do espaço público e de supressão dos direitos sociais e culturais e ao alargamento do espaço privado, do império arbitrário das vontades, da tirania individual e particular. A arte como resistência aparece em algumas dessas instâncias, assim como tem aparecido em performances prontas a denunciar e mover o horror do mundo, as mazelas que massacram os seres, e que a sociedade estruturada tal como é foi programada para não perceber.

Para além de estarmos arruinados subjetivamente como seres expressivos pelo capital, valendo como moeda de troca, como potencial mercadoria disposta a mais-valia, ao lucro proveniente do trabalho não pago, o valor dos seres está em seu potencial hipnótico das massas que são levadas a se realizarem no consumo. O indivíduo vale pela força de trabalho que possa vender ou pela propriedade que possua. Não é difícil pressupor onde começa e onde termina o valor do que se considera arte neste contexto.


Desenho da estudante, minha aluna, Brunna Dias da Cunha. Escola Estadual Professor Renato Braga, São Paulo/ SP, 2016. Foto: Thiago Camacho.

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