Memorial artístico da obra “ela quis ser criança de novo”

Por Thelma Oliveira

Escrever sobre equilíbrio é  muito difícil pra mim. Não me julgo artista, nem sei se nasci com esse dom, mas parece impossível dar uma explicação sobre algo que é totalmente intuitivo. Julgo necessário citar Ostrower (2007) que diz que a intuição está relacionada à forma, ou seja, uma linguagem não-verbal, e não linear, mas formal. A autora também diz que “A intuição caracteriza todos os processos criadores. Ao ordenar, intuímos. As opções, as comparações, as avaliações, as decisões, nós a intuímos. Intuímos as visões de coerência”.

Por isso, é muito difícil explicar o porquê de ter colocado tal objeto em determinado lugar. Para mim, parecia impossível dar explicação a algo inexplicável, então, li e reli o capítulo do livro do Arheim inúmeras vezes para tentar relacionar algo teórico ao que está dentro do ser humano e acabei compreendendo a importância visual que a obra tem que ter. Depois disso, ficou claro a questão da intuição, da forma pronta a qual eu visualizava a obra. A seguir algumas palavras sobre equilíbrio baseadas no livro Arte e percepção visual de Rudolf Arnheim.

Mesmo sem realizarmos qualquer tipo de medida com um instrumento como uma régua, por exemplo, conseguimos identificar objetos ou imagens que não estão em equilíbrio com o todo.  Quando nossa visão julga que algo no conjunto encontra-se instável, rapidamente reorganiza os padrões visuais aos quais julga ser o mais correto, ou equilibrado. É como se fosse um jogo de atração e repulsão.  Essas tensões podem ser chamadas de “forças” psicológicas, “uma vez que possuem magnitude e direção”, como li em ARHEIM. É como se algo que fosse invisível aos nossos olhos exercesse uma força sobre o que está em desarmonia e ordenasse que tal elemento voltasse para o lugar onde deveria estar.

Para qualquer relação espacial entre objetos há uma distância “correta” que o olho estabelece, intuitivamente. Os artistas são sensíveis a esta exigência quando organizam os objetos pictóricos numa pintura ou elementos numa peça escultórica ainda me revela ARNHEIM.

Essa busca pelo que é correto é chamada de equilíbrio psicológico, que fica mais fácil de ser compreendido se comparado ao equilíbrio físico. Na física, para atingir o equilíbrio, que aparentemente é estável, é necessário que sejam aplicadas “duas forças de igual resistência que puxam direções opostas”, ARNHEIM. É o que ocorre, psicologicamente, quando observamos, por exemplo, uma obra de arte.

Nosso intelecto atribui forças psicológicas na imagem que está sendo captada, analisando se aquelas forças estão bem distribuídas e se aquilo o agrada ou não. O artista, munido dessa sensibilidade, distribui as figuras, ou objetos, pela obra de maneira a equilibrar as forças exercidas por esses elementos. Arnheim diz que esse equilíbrio é indispensável:

(…) tanto visual como fisicamente, o equilíbrio é o estado de distribuição no qual toda a ação chegou a uma pausa. (…)

Deste modo, numa composição equilibrada, todos os fatores como configuração, direção e localização determinam-se mutuamente de tal modo que nenhuma alteração parece possível, e o todo assume o caráter de “necessidade” de todas as partes. (2000, p. 13)

Se uma obra está em desequilíbrio, fica difícil de ser vista, avaliada e reestruturada, ela torna-se incompreensível e talvez até desagradável – característica que pode ser usada de forma positiva por um artista, por exemplo, que queira dar essa intenção à obra.

Para exemplificar o equilíbrio físico – e o visual – reproduzo uma das obras que vi na exposição de Calder. Como mencionado acima, na exposição não era permitido fotografar, então essa foto foi extraída do site oficial do artista.

Fig. 1 – Exemplo de equilíbrio físico e visual – Standing Mobile de Alexander Calder

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Podemos observar nesta imagem, como Calder joga com a questão do equilíbrio, fazendo uso de materiais pesados como ferro, além disto aproveita o espaço “em branco” para trazer leveza ao móbile, num jogo de equilíbrio físico e psicológico.

As peças parecem flutuar no espaço, enquanto tentamos entender a lógica da assimetria e reorganização do espaço que ela ocupa. A obra é o estado de repouso, que causa o equilíbrio, e por isso se torna agradável admirar. Ao mesmo tempo, trava-se uma batalha interessantíssima na nossa mente, onde o raciocínio e a poesia da obra duelam sem cessar.  É assim que me senti ao visitar a exposição. O olhar compulsivo sobre as obras, o cérebro lutando para achar o equilíbrio e se perguntando “como ele fez isso?”, ao mesmo tempo em que sentia o êxtase de contemplar tamanha beleza.

Podemos verificar também no objeto estético tridimensional que eu articulei essa noção do equilíbrio, o jogo de ação e reação no qual não se tem noção de qual lado “venceu”. A impressão que se tem é de que um dos lados não aguentou e cedeu, trazendo para a obra a sensação de estabilidade e equilíbrio. Outra observação é a de que não se consegue sentir o peso do metal que está na parte de cima da obra por ele ter sido exposto por fios de nylon transparente. A forma que se apresenta é a de que a obra está flutuando no espaço, independentemente de ser de ferro ou não. Também os fios irregulares pendurados fazendo o contraponto da obra acabam de trazer a leveza e o ar fantasmagórico esperado.

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Fig. 2 – Obra exposta

Obra exposta no L.O.T.E. 2016 / Acervo: da artista /Fotografia: Celestino Neto

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Fig. 3 – Obra exposta

Obra exposta no L.O.T.E. 2016 / Acervo: da artista / Fotografia: Celestino Neto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

[1] Imagem disponível em: http://www.calder.org/work/by-category/standing-mobile acessado em 22/11/2016

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