Golpe do Destino

Por Débora Duarte
Foto: Evandro Teixeira

“No céu azul as últimas arribações tinham desaparecido. Pouco a pouco os bichos se finavam, devorados pelo carrapato”.

Vidas Secas, Graciliano Ramos 

era meados de março quando o calor que arrasava o chão de terra batida apresentava-se mais tímida e esporadicamente, brincava com o vento forte do sertão. as folhas secas [escassas], e ainda pouco engruvinhadas, começavam a compor o céu de seus passos. o sorriso embriagante de Berta, retomava o lugar usual: usurpado [desde a infância]. a casa era todo silêncio. a cadeira de balanço – de Joaquina, sua avó –, a única coisa que realmente rangia todo fim de tarde um sinfonia perversa, também estava contida na opressão plácida do terreiro: “Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores”. 11 meses e alguns dias rasgavam os 4 cantos da casa, mas era como se Berta estivesse à espera do pôr-do-sol, exigindo com isso a presença de sua avó. com ela havia estado durante sua infância e juventude. a rotina, árdua, escondia a aridez da paisagem. lembrava-se Berta que, mesmo com dificuldade, Joaquina acordava religiosamente todos os dias às 5 da manhã. no forno descansava um punhado de lenha, a chaleira, o pó de café. cumpria a primeira tarefa do dia, não sem antes se ajoelhar: agradecia ao dia que insinuava as outras vinte horas que experimentaria. agradecia o pão, escasso; suplicava pela chuva: a paisagem era alva, de uma alvura doída. quando saíam para a roça levavam na pequena trouxa: cuscuz com galinha de capoeira. Um verdadeiro banquete naqueles anos [difíceis]. no fim do dia, quando do regresso, Berta corria esperançosa pela estrada de terra. o dueto lhe trazia segurança: “só faz milagres, quem crê que faz milagres”. os dela, certamente, não eram como o dos pombos no asfalto: “não insistia[m] nas migalhas do chão”. não esperava, contudo, o golpe do destino.
toda vez que refrescava a memória brindava alguma alegriazinha encabulada. em todas estava Joaquina da Silva, dona Joca como era conhecida pelos mais íntimos. sem ela a vida tinha se transformado numa cínica e melancólica agonia.
faltava a lenha no forno; o colorido do fogo; o cheiro quase sempre nostálgico que embaçava a casa. faltava o café, o cuscuz, a galinha de capoeira. sobravam ausências. a vida soçobrava. cotidianamente.
naquele fim de tarde, assistindo às folhas que se precipitavam no horizonte da estrada: vazia, vazia,  Berta fechou as janelas, com certa dificuldade. as dobradiças – emugrecidas – cheias de pó, emperravam no movimento de suas mãos. foi ao quarto. guardou o quanto pode num pequeno bornal – herdado de seu bisavô, Manoel. dirigiu-se à cozinha. despediu-se das memórias. do armário extraviou uma pequena colher: peça de família. presente que sua avó lhe deu, quando comungou pela primeira vez. guardou a lembrança num pedaço de pano, amarelado, encontrado no canto de uma gaveta. colocou-o no bornal. e, caminhando em direção à porta, retrocedeu por mais alguns instantes, observou todos os cantos da casa: as alpercatas de dona Joca permaneciam congeladas junto à cabeceira da cama. sentia uma mescla de arrependimento e covardia. a vida já não existia ali. no povoado tudo minguava. inclusive, a vida.

pegou a chave. colocando-a na fechadura, abriu os ouvidos, atenta: percebeu um doce acorde: “só faz milagres, quem crê que faz milagres”, pensou. parou diante da cadeira de balanço. despediu-se. continuou caminhando.

Debora Duarte dos Santos é educadora e doutoranda em Literaturas de Língua Espanhola pela FFLCH/ USP.  Atualmente desenvolve pesquisa sobre a poética e ensaística do argentino Néstor Perlongher.

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