Sobre como corpos negros se mantêm vivos

Por Alison Borges de Oliveira, Breno Andreata, Gabriela Barboza da Silva, Rebecca Gomes, Talita Correa e Camila Cintia

 

 

“Àquelas de nós cuja existência social é matizada pelo terror; àquelas de nós para quem a paz nunca foi uma opção; àquelas de nós que fomos feitas entre apocalipses, filhas do fim do mundo, herdeiras malditas de uma guerra forjada contra e à revelia de nós; àquelas de nós cujas dores confluem como rios a esconder-se na terra; àquelas de nós que olhamos de perto a rachadura do mundo, e que nos recusamos a existir como se ele não tivesse quebrado: eles virão para nos matar, porque não sabem que somos imorríveis. Não sabem que nossas vidas impossíveis se manifestam umas nas outras. Sim, eles nos despedaçarão, porque não sabem que, uma vez aos pedaços, nós nos espalharemos. Não como povo, mas como peste: no cerne mesmo do mundo, e contra ele. ” – Jota Mombaça

   

Em um mundo branco, o processo de reconhecimento do corpo preto, da cultura preta, da arte preta, é unicamente uma atividade de negação. Além dos órgãos do poder – o governo, as leis, o capital, as forças armadas, a polícia – as classes dominantes brancas têm à sua disposição poderosos implementos de controle social e cultural: o sistema educativo, as várias formas de comunicação de massas – a imprensa, o rádio, a televisão – a produção literária. Todos esses instrumentos estão a serviço das classes no poder e são usados para destruir o negro como pessoa e como criador e condutor de uma cultura própria. A ferida colonial está aberta e ela sangra a cada 23 minutos, quando um jovem negro é morto.

Ela dói, quando a cada 11 minutos uma mulher é violentada e a maioria é negra…nossos mortos morrem mas não chegam a falecer, morri e morro junto todos os dias com todxs esses jovens que se foram. Nunca tivemos a paz como opção. Já entendemos que o padrão de mundo que vivemos (branco-CisHéteroPatriarcal) não tem espaço para nós. A máquina do Estado está aí a produzir corpos criminalizados e matáveis, seres socialmente racializados e jogados violentamente no espaço urbano.

 Primeiro queremos reparação histórica, para depois começarmos a falar de igualdade.  Exigimos alternância de poder! Exigimos redistribuição de poder. Queremos redistribuição das violências que estão costuradas em nossos corpos como condição de vida. Quilombos urbanos, favelas, pretos e pretas de todos os cantos, precisamos nos unir e nos amar! Todo poder ao povo preto! Ukuthanda (amor em zulu)

publicação

foto registrada pelo educador Rafael Andrade

 

Esta performance é o que resultou de encontros artísticos que alunxs negrxs da E.E Anhanguera do 1° ao 3° ano se articularam para desenvolver, partindo de histórias e vivências particulares de cada um, pois dividem questões em comum: “ o Racismo”. Com o intuito de denunciar o genocídio da população negra, o embranquecimento em massa, as estruturas do racismo estrutural e institucional em que estão submetidos como corpos negros e negras – não isentando a escola desse fato – e aproximar corpos pretxs, criaram esta performance que não tem nome, mas gostam de dizer que é um reencontro com o povo preto, um olhar sensível para o outro, uma (re)aproximação de nossos corpos que a muitos anos são separados, um punho cerrado, um cabelo armado, um sorriso negro e um incômodo branco.

            A apresentação aconteceu no aniversário de 150 anos da E.E Anhanguera, que apesar de acolher pessoas de regiões periféricas, continuam sendo hegemonicamente e historicamente branco. Antes de começar a ação, é feito a contagem de quantos corpos negros estão naquele espaço. De mais ou menos 250 pessoas, 13 eram negras, três delas estavam servindo ou limpando (todas mulheres), 4 delas éramos nós que apresentávamos. Por que não estamos nestes espaços e quando estamos, sempre estamos servindo, limpando ou cuidando de alguém?

Após o término da apresentação, cada corpo negro é abraçado junto com a frase: “ Que bom que você está aqui, estamos juntos e nossas vidas são importantes”, a apresentação e esta ação gerou uma enorme onda de ataques contra nós, pois priorizávamos abraços negros. Todas as pessoas negras presentes naquele lugar, disseram qual a importância de estarmos naquele espaço, ressaltaram que estamos juntos, dividiram histórias conosco… a fala de uma mulher negra que foi a nosso encontro pulsa forte em nossos corpos:

“ Muito obrigado por isso, isto é muito importante. Queria dizer pra vocês que a gente nem devia estar discutindo sobre racismo, não foi nem a gente que criou. ELES criam, ELES reproduzem, ELES nos massacram…nós estamos correndo atrás dos nossos, buscando nossos antepassados, nossa ancestralidade. E ELES? Nem param pra discutir seus privilégios. Mas calma que tá mudando viu ?! (Abre um largo sorriso) a gente tá aqui junto, e vamos com tudo! ”

            Enquanto isso as pessoas brancas, estavam preocupadas em dizer o quanto se sentiram incomodadas por não terem sido abraçadas, que aquilo tinha sido “ racismo reverso’’, que perante a Deus somos todos iguais, e que isso não se faz. Se quer (re) pensaram em seus privilégios. Dizem que não tem culpa de pagar pelo que outros brancos fizeram no passado, mas não se lembram que estes mesmos homens brancos, te deram todos os privilégios que hoje você disfruta. Quando denunciamos o racismo, não odiamos você leitor/pessoa branca, ninguém nasce racista, mas repudiamos esse sistema que todos nós reproduzimos, uns com muita frequência conscientemente ou inconscientemente, e outros com menos frequência. O racismo é estrutural.

            A máquina do Estado está aí, a produzir corpos matáveis, a polícia e governo estão aí com suas políticas higienizadoras e segregadoras que nos matam a cada 23 minutos… mas nós seguimos fortes, juntos com o punho cerrado e de cabeça erguida. Vivemos em uma sociedade que implanta o auto-ódio em nós e destrói nossa confiança e auto-estima, por isso precisamos nos conhecer e nos amar, conhecer nossa história (e isso serve para todos: brancos, pretos, indígenas…). Ubuntu.

 

Texto dos alunos da E.E. e.e Anhanguera foi orientado pelo educador de História, Sociologia, Filosofia Rafael Silva Andrade formado em História pela PUC-SP 

 

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