Projeto internacional Brazilian Spring e a participação dos estudantes como performers

Por Thiago Camacho

No início de 2017, trabalhei em conjunto com Gustavo Chams, em seu projeto artivista orientado pelo Instrutor Trevor Van den Eijnden, que fez parte de sua produção acadêmica para a faculdade VCAD – Visual College of Art and Design em Vancouver, no Canadá, dentro do qual a coordenação e atuação em uma performance – intervenção urbana – foi articulada por mim com os estudantes de 2014 e algumas pessoas da comunidade de onde estes eram provenientes, como por exemplo o bairro do Capão Redondo, além de alguns colaboradores universitários, que também estiveram presentes agindo, interagindo ou assistindo. O projeto traz ainda reflexões, participações nas redes sociais, exposições em galeria e outras produções.

Nas palavras do próprio autor do projeto:

         “A Primavera Brasileira”, idealizada por Gustavo Chams, fotógrafo de moda e designer gráfico, uma campanha visual não-lucrativa e voluntária, que tem o objetivo de trazer visibilidade internacional para os problemas sociopolíticos que ocorrem no Brasil. A campanha começou como um projeto visual e de Marketing que consistia em uma série de retratos e ilustrações feitas em Vancouver, Canadá, com a humilde ambição de trazer um pouco de luz, por meio do reconhecimento internacional, sobre este período sombrio pelo qual o Brasil atravessa. Assim que a mensagem começou a se espalhar, o projeto começou a crescer, ganhando suporte de incríveis artistas, como designers, artistas performáticos e fotógrafos, que abraçaram a causa e ajudaram a levantar o projeto para o tamanho atual.”
“O conceito por trás do projeto é que cada grande mudança social no mundo começou a partir de novas ideias que foram divulgadas por meio de manifestos artísticos. Além disso, é por meio da arte que planejamos semear essas ideias e disseminar essas sementes, para que possamos plantar a Primavera Brasileira.”
“O nome, Primavera Brasileira, é uma referência à “Primavera dos Povos de 1848”, na qual vários povos de países europeus começaram um processo revolucionário que levou a uma onda de liberdade e direitos civis. Este projeto também alude ao período ditatorial de 1964-1985 e o mais recente Golpe Palaciano de 2016.”

 

                Chams, G. Disponível em: http://brazilianspring.com/about/. 2017.

 

A minha coordenação de núcleo em performance e intervenção urbana relacionada ao projeto se deu com uma gênese de ação que ocorreu em Dezembro de 2016 na Avenida Paulista, em um domingo.

Para a convocatória de participantes ou mesmo espectadores, foi produzido o seguinte texto de minha autoria e um vídeo de autoria do cinegrafista e fotógrafo Bruno Melero:

VOCÊ PASSOU POR CIMA DE ALGUÉM HOJE?

Somos educadores, ou pensamos educação.

Quando o Estado nos disse que a democracia era a consolidação de direitos, nós acreditamos. Acreditamos na justiça de que todos teríamos garantias de dignidade, bem estar e uma educação pública-gratuita e de qualidade.

Mas o que vimos foi que esta relação com o Estado era negligente, desproporcional nas partes que mais necessitávamos.

Perguntamos: Qual a procedência desses direitos?
O Estado nos respondeu: Teus próprios bolsos.

Nós não desistimos. Começamos a pagar por aquilo que antes haviam dito que já era nosso e por aquilo que entendemos por direito.

Fomos extorquidos pelos mais altos impostos.

E neste cenário já sombrio, o Estado nos devolveu a anulação do voto democrático.

Devolveu-nos também os piores índices de carência na educação – alguns dos piores do Ocidente.

Quando resolvemos reivindicar pelos nossos direitos básicos, pelo direito de ESTUDARMOS, criticaram-nos como desordeiros. Os poderosos, donos desse mesmo Estado que nos extorquiu, estão blindados.

Estes, são vistos como criadores de ordem. Nós, lutando por um futuro melhor: Desordeiros.

Fomos brutalmente oprimidos pela polícia, fomos tratados como a escória causadora dos problemas da sociedade.

A grande mídia nisso tudo tira o próprio rabo da reta para defender seus próprios interesses.

Estamos deitados no chão, porque lá fomos colocados por eles e por alguns de vocês.
Fomos pisados diariamente pelos que ignoraram o que se passou e deram suporte aos opressores.

Passaram por cima de nossos rostos, de nossos corpos, de nossa história, de nossas memórias, e de nossos valores.

E você? Passou por cima?

Queremos sair daqui, mas não podemos sem a sua ajuda.
Um por um, faça a diferença.

Ação – performance para o projeto BrazilianSpring, aconteceu na Avenida Paulista, coordenada pelo professor Thiago Camacho, mestrando em artes cênicas pela USP –, junto aos seus estudantes parceiros – um grupo de secundaristas de escolas públicas da periferia da cidade de São Paulo – pertencentes ao grupo A ESCOLA PÚBLICA É NOSSA, e junto aos artistas parceiros da Universidade Estadual Paulista – a Unesp.

O vídeo da ação com os estudantes compondo este núcleo do projeto Brazilian Spring pode ser encontrado em:

 

Sem título

Brazilian Spring, Avenida Paulista. São Paulo/ SP, 2016. Foto: Gustavo Chams. Concepção: Thiago Camacho e Gustavo Chams.

No site, as informações completas sobre a ação, traduzidas para vários idiomas, outras imagens e a ficha de participantes completa pode ser encontradas e experienciadas por pessoas de várias regiões do mundo. Sobre a parte brasileira, o núcleo de ação performativa coordenado por mim, no projeto, como ação cultural, e como artivismo, relacionado ao texto produzido e decorrente de Nossos anseios coletivos

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Brazilian Spring, Avenida Paulista. São Paulo/ SP, 2016. Foto: Gustavo Chams. Concepção: Thiago Camacho e Gustavo Chams.

Novas ações performativas ligadas ao projeto Brazilian Spring estão sendo planejadas, de acordo com as nossas observações subjetivas e também sociológicas sobre os momentos e instâncias políticos, a ser executada pelo menos uma por ano no Brasil sob minha condução.

As experiências com a Estética ao tratar questões de gênero e sexualidade na escola, por exemplo, a partir da ação transgressora do professor-performer, confirma a importância deste debate em uma esfera de discussão e conhecimento acerca de princípios e costumes culturais simples como a vestimenta, quando o professor ou estudante do sexo masculino vai ao trabalho ou estudo, isto é, também a escola, de vestido, uma roupa identificada com o gênero e sexo oposto ou vice-versa. Esta potencialidade de discussão por meio do simbólico é um pensamento em desenvolvimento que por meio desses específicos enunciados da forma e dos conteúdos podem ser trazidos à tona. Estamos falando das linguagens visuais e de seus códigos.

No registro ao final deste relato veremos na imagem um homem – estudante cisgênero que foi de vestido para a escola em uma confraternização de final de ano, junto a mim e aos seus outros colegas, sempre com ênfase às vestes femininas.

As reações foram parecidas com os eventos carnavalescos em que homens se travestem: riso, bom humor, folia.

Porém, embora o evento tenha tido uma atmosfera de estereótipo, teve também no seu decorrer um experimento gerador de debate, e de uma sensação peculiar frente às reações que promoviam o riso: “como devem sentir-se as pessoas transgêneras cotidianamente? ” – perguntou uma estudante.

O exemplo dado pode figurar, por exemplo, a partir de uma simples ação do professor, que pode ser então chamada performativa, uma área de conhecimento disposta para discussão e pesquisa como a Psicologia, com indagações entre as quais: como um professor que se veste com uma roupa identificada com o sexo oposto interage em seu meio sociocultural? E como as determinações destes tempos e espaços nos afetam? O que esta ação de caráter tanto subjetivo e psicológico, quanto da esfera do inconsciente coletivo, corrobora com as percepções, debates e práticas dos estudantes neste e em outros campos de troca, interatividade e de conhecimento, a partir do aguçamento de suas curiosidades epistemológicas? – termo utilizado por Paulo Freire (2011) em Pedagogia da Autonomia para designar o estímulo da vontade de aprender em estudantes.

Esta experiência também nos faz pensar e resgatar as reflexões anteriores a esta pesquisa sobre os sentidos da transgressão. Quando dividimos estes sentidos entre os poéticos delicados e os poéticos impactantes, devemos levar em consideração que esta interpretação somente o espectador poderá fazer.

Isto quer dizer e é importante salientar que um professor ou um estudante homem vestido com um vestido, como atitude performativa ou de sua vida particular cotidiana, a partir desta escolha ou possibilidade semiológica, causou em nossa experiência na escola, uma repercussão diversa: o riso como castigo de costumes, a admiração e orgulho de quem acha uma atitude corajosa em meio a uma sociedade com preconceitos arraigados, a indiferença de quem já encara tal opção com naturalidade, isto é, a concepção do ato como transgressor poético sensível ou transgressor agressivo e combativo será do espectador, sem que se possam definir previamente, de que formas este espectador o receberá.

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A Escola pública é Nossa. Escola Estadual Professor Renato Braga. São Paulo/ SP, 2014. Foto: Jared Mehmetof.

Thiago Camacho é educador e mestrando na ECA/USP na área de Teoria e Prática do Teatro. Este texto foi orientado pelo professor Marcelo Denny  de Toledo Leite

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