Eu também sou mulher

Por Raquel Nascimento Gomes 

 

20729236_308782659585139_7645225846118050857_n

Eu também sou negra

O feminismo transgrediu organizações sociais elaboradas segundo os valores e visões de mundo patriarcal o qual regrou a vida de muitas mulheres ao lugar de subalternidade.

Nas sociedades ocidentais construiu-se um aprisionamento do ser feminino a partir da linguagem fincada na figura masculina como superior à figura do feminino criando disparidades sociais e, consequentemente, econômicas entre ambos os gêneros.

Legado do passado que permanece até à contemporaneidade, já que se constrói o ser feminino, nas diversas mídias presentes em nossa sociedade, restringindo o nosso universo ao confinamento dos cárceres presentes na concepção patriarcal a qual concebe de forma ilegítima as multifaces culturais, sociais e de gênero; há estudos em antropologia que demonstram etnias que se organizaram para além de estruturas do patriarcado.

Durante o percurso histórico, fomos submetidas a sermos desvendadas pela visão da linguagem machista que não munia a mulher de poder, mas algemava nossa existência ao confinamento do “ser feminino”.

Regras, religião, moral, ética costuravam as identidades das “filhas de Eva”. Bruxas, amorais, desvirtuosas, vadias são os nomes daquelas que não estavam ou não estão emolduradas no quadro de ser mulher.

Moldura rígida. Retrato encarcerador. Sinônimo de servidão, o ser mulher perpassou por criações na literatura, artes plásticas e filosofia que foi designando o portar, o vestir, a moral, até a essência do que é ser mulher.

Fomos enjauladas pelas concepções da fé e da razão que fundamentam uma cultura falocêntrica a qual só reconhece a nossa existência a partir do existir masculino, logo participamos da segunda esfera da existência humana, ou seja: somos mulheres.

Absorvidas pelo desejo de revolucionar e produzir um lugar social de plena liberdade à mulher surgiu o movimento feminista, esse que engajou a sociedade a refletir a importância da emancipação da mulher nas sociedades ocidentais.

Logo, a luta pelo direito ao voto foi determinante para que ocorressem significativas mudanças ao novo expoente da realidade feminina diante da luta pela liberdade. Atitudes emancipatórias foram emblemáticas neste percurso de libertação do ser feminino perante a linguagem machista e opressora.

Este movimento de emancipação da mulher provou que nem todo conhecimento liberta, pois as produções científicas, comunicacionais e artísticas por muito tempo não foram questionadas no sentido de prover versões paradigmáticas da história do feminino a qual foi alicerçada na linguagem do falo – este termo retirei mesmo das ideias e contribuições do Lacan em suas produções científicas – foram contestados no sentido de subverter os conhecimentos que causam opressão a todos os seres humanos.

Perante estas constatações, o movimento feminista obteve profundas transformações na participação da mulher na vida pública, porém não atendeu a complexidade histórica da existência de todas as mulheres, pois as mulheres negras eram duplamente escravizadas, pois as nossas reivindicações pairavam sobre outras necessidades emancipatórias.

Ser negra e ser mulher não foram semânticas as quais partiam do mesmo significado social para conceber as mesmas existências. Uma literatura inteira foi destinada a pensar no corpo-mulher-negra como objeto puramente sexual. Subalternas e marcadas pelo símbolo da escravidão, as mulheres afrodescendentes são enxergadas aos olhos sociais por estereótipos que marcam a vida da mulher afrodescendente.

Se não eram mais açoitadas, ocupavam cargos cujo trabalho era análogo ao escravo. Lavradoras. Amas de leite que nutriam a existência dos filhos de seus opressores, sustentando vidas ainda que em situação quase escravocrata, as mulheres negras participavam do mundo do trabalho análogo ao escravo. Louças; chãos limpos.

O cheiro da lavanda nas roupas estendidas no varal. Capinagem no jardim verdejando o solo fértil da casa grande com suas muralhas que confinavam solidões extensas de mulheres cujas vidas pertenciam a alguém, como coisas misturadas aos utensílios da cozinha, ou, como um açoite arremessado no estômago da noite.

Sem direitos civis, a força motriz do nosso trabalho estava sobre os pilares da escravidão. Fico atônita em pensar no conhecimento que foi construído fundamentado nas ciências modernas alicerçadas na visão subalterna em ser uma mulher carregando o adjetivo “negra”. Fico espantada com a construção científica e da fé que confinou-nos à subalternidade.

Ao constatar isto, a emancipação do espartilho e publicidades “du cigarrette de la femme libertée” parece-me firulas diante da complexa teia de escravidão que ocorreu com as mulheres afrodescendentes na América escravocrata.

Deste modo, ser mulher libertée, ao meu ver, negligenciou as atrocidades cometidas as mulheres que pertenciam a outras culturas ou outras situações econômicas. Ser mulher, logo, era vestir um terno, fumar “du cigarrette de la femme libertée”, fetiche burguês o qual alimentou muito o imaginário feminino por meio da difusão midiática em que propagou um movimento emancipatório como algo, estritamente, vinculado a um determinado estereótipo do feminino.

Às margens das reivindicações das mulheres burguesas, as mulheres açoitadas, violentadas, mutiladas viviam sobre as semânticas sociais em ser negra. Na situação da mulher negra, a meeira já era recrutada no mercado de trabalho, as suas mãos já estavam marcadas pelos calos dos trabalhos exploratórios de “Sinhá” e “Sinhô”.

Logo, não podíamos ser comparadas a um objeto, porque não tínhamos valor assalariado. Inferiorizadas e enxergadas como seres anormais, éramos mais subalternas que as mulheres de biótipo europeu, essas que sofreram restrições na vida social enquanto mulheres, porém não podemos equiparar como mesmo processo sócio histórico.

No transcorrer da história, a persona das capas de revistas, publicidades colocava-se representante dos direitos das mulheres como uma generalização que pretendia ou pretende retratar–nos como iguais sem atentar que na “civilité” e a “politesse” pertenciam aos nomes que não acompanhavam o adjetivo “negra”. Civilidade foi um conceito que não era propenso à inserção de colonizadas ou escravas.

De Kant à Montabert, a invenção do ser negra perpassou pela necessidade “em explicar a existência de seres anormais”, estou neste momento dialogando com o livro A Invenção do ser negro da tão admirada Gislene Aparecida dos Santos. Há um contexto social que nos tornou ou podemos dizer tornou-me uma mulher negra destinada à prontidão dos serviços análogos ao escravo. O filósofo Kant colocou como trivial os sentimentos dos negros. Ou, a associação da minha feição e minha forma estética à feiura lembro-me que certa vez deparei-me, em meus estudos sobre estética, com as regras de Montabert que segundo seu escrito: “O branco significa a beleza suprema.

O negro, a feiúra”. Quando me reporto as revistas femininas ou comerciais publicitários ainda vejo os rastros desta visão de mundo eurocêntrica e impregnada por estas construções que fundamentaram as sociedades modernas, perdurando a contemporaneidade. Em torno do adjetivo negra que são preponderantes na construção social das identidades das mulheres que ao longo da luta pela emancipação buscaram refletir e lutar para que ocorressem mudanças de significado, associando a este adjetivo o conceito de luta pela liberdade das mulheres “negras”. Meu coração preenche-se no lirismo e nas indagações de Sojourner Truth:

 

E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para meus braços! Eu arei e plantei, e juntei a colheita nos celeiros, e homem algum poderia estar à minha frente. E não sou uma mulher?

 

 Intriga-me pensar que enquanto as mulheres americanas e europeias lutavam para participar do mundo do trabalho, as mulheres negras “libertas” após um quarto de século labutavam em regimes que se não análogos ao escravo, permanentemente, funcionavam como aparelho opressor das mulheres escravizadas.

Na pergunta de Truth sinto em suas palavras significados que arrancaram açoites de muitas mãos as quais foram substituídas por aplausos. A sua indagação, torna presente a questão do ser feminino negro enquanto pertencente da raça humana que parece um presságio de diálogo com Simone de Beauvoir que parece inserir uma amplitude, no seu livro O Segundo Sexo – segundo volume -, a existência feminina como pertencente à vida humana.

A mulher negra nem pertencia aos diálogos de ser mulher como ser humano, já que não tinham alma não havia como manter algum direito garantido, o suor de sua labuta escorria em sua pele. Ser mulher era uma construção de um gênero propenso às articulações do universo burguês. Ser mulher era participar das eleições, adentrar o mundo do mercado de trabalho, e obter poder aquisitivo para ser consumidora.

Não é incomum encontrarmos estas visões de mundo em um programa de humor, ou, na construção de personagens midiáticos que estão vinculados a estas visões escravocratas de mundo. Fica, então, visível os significados sociais construídos em torno do adjetivo negras que são preponderantes na construção social das identidades das mulheres que ao longo da luta pela emancipação buscaram refletir e lutar para que ocorressem mudanças significativas, associando a este adjetivo o conceito de luta pela liberdade das mulheres “negras”.

 

Texto apresentado no Congresso CECAFRO

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s