O Legado

Por Dani Damma

O legado de um homem é quase sempre o desejo narcisista de contemplar sua imortalidade . Mas e se esse legado for um DNA impregnado de loucura ? Um conjunto de livros de poemas de amor ou um Romance Folhetinesco falido e muito sem-vergonha? Uma partitura ?Roupas que depois irão parar no brechó, junto com cacarecos e poeira do tempo ?

Memórias… E se o que restar forem só memórias ?
Mas e se o que sobrar for só silêncio e ausência das memórias que se perderam dentro de uma mente insana , onde não se sabe o que é realidade e ficção ? Mas e se realmente não restar nada , devastado pelo Alzheimer ?
A memória mais triste que guardo é a memória de um homem alto e de olhos acinzentados: meu avô materno .
Meu avô era um homem de outro tempo, mas sempre soube da importância do conhecimento. Nunca frequentou uma escola na vida, mas sabia ler e escrever.

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Colagem de Marcelo Monreal

Era esperto, inteligente, bem informado,correto e foi o melhor contador de histórias que eu já conheci. Vestia ternos de linho,plantava hortênsias, fumava cigarros com filtros e usava chapéu panamá por mera vaidade.
E, eu me orgulho de dizer que essa minha esquisitice toda é herança do meu avô…
Eu sempre tive uma conexão muito grande com ele. A gente conversava coisas que transcendiam a idade. Ele sempre me falava de solidão, saudade,..e das ausências.
Esse avô assim, tão solitário, acho que só eu conheci.
Quando falavam que ele não tinha estudo, ninguém acreditava. Ele nunca pareceu pertencer a lugar nenhum, quanto mais a um lugar tão simples , uma vida de homem do campo.

Viveu coexistindo dentro dessa dualidade, desse não pertencimento…às vezes também me sinto assim .
E, às vezes penso que talvez… Só talvez essas sejam realmente só memórias de criança que de fato nunca existiram. Mas, meu avô era meu ídolo.
E eu contemplei a sua queda. Desde os inúmeros AVC `S ( ao todo foram 7 , o que me leva a crer porque nunca gostei desse número) que aos poucos foram-no debilitando e levando toda a sua essência até os últimos fragmentos de memórias que no fim brotavam de forma desordenada.

As memórias iam aos poucos esmaecendo: uma lembrança aqui e acolá de um amigo de infância. Da primeira vez que viu a minha avó.
Esquecia das coisas mais simples: dos contos e causos de assombração, do gosto do café recém torrado provindo ali do quintal mesmo ou até do seu apreço pelos programas da Rádio Nacional.
Acordava imerso em neblina densa da memória que os ataques lhe roubavam sem saber ao certo onde ou quando estava .
Às vezes acordava menino , outras já um velho à procura do cigarro de palha.

E, na maioria das vezes, acordava numa situação aterradora sem realmente saber quem era ou onde estava enquanto seu corpo era tomado por tremores, terror noturno ou medo de esquecer quem era ou daqueles que amava.

Eu não penso muito sobre a minha própria morte ou sobre quais memórias deixarei , ela já deixou de ser um dos meus principais temores. Penso que dói muito mais viver em meio a tanta ausência , de mortes metafóricas e biológicas.
O meu avô materno morreu quando eu tinha 9 anos. Alguns anos atrás faleceram a minha avô materna e também o meu avô paterno. Parece que fica pior quando a gente é adulto. A gente lida com a morte de forma diferente.

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Gabriel Isak/Série: The Blue Journey

Eu ainda não aprendi a lidar com isso.
A ausência é: um não estar, ao mesmo tempo é um lugar ocupado, uma gaveta vazia, um foto guardada, uma dor que passa, que corrói,  que dói.  Pudera eu esquecer todas as ausências que eu guardo em mim… Mas isso, é claro ,não é uma coisa minha, todo mundo sofre com estes sentimentos.
Um estalo, aquele chiado quando o disco acaba e a agulha fica ali deslizando só reproduzindo estática… sabe ?

 

Viver dói.

 

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