A menina e o Salgueiro

Por Fernando S. Trevisan

 

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Jimmy Lawlor

Morena, pequena, sonhadora, Alícia desliza por entre as folhagens de seu jardim. Poderia falar com essas flores? Poderia tocá-las e o fez: eram macias, como aveludadas, assim como a grama onde caminhava, descalça. Tocar a natureza era como acariciar um gato, ela pensou e feliz caminhou pelo jardim.

Alícia não reparava nos pássaros que, alegres, cantavam, nem nos sons rasteiros, fugidios de coelhos e outros pequenos animais que se escondiam com sua movimentação: nem tudo no jardim é bom e como saber se Alícia era boa? Pensavam os bichinhos, que então se escondiam ao ouvir a barulhenta Alícia saltitar pelos caminhos do jardim.

Mas todos se tranquilizavam ao vê-la: era óbvio que aquela menina, olhos felizes e largo sorriso no rosto de grandes bochechas, não poderia e não queria causar mal algum. Alícia passava horas no jardim, estava há horas ali, perdida em sonhos e brincadeiras infantis com os bichinhos, quando deu-se conta de um caminho um pouco mais nevoento e escuro.

Curiosa, Alícia queria seguir por ali, mas os bichinhos não a acompanharam. Mesmo assim, Alícia foi adiante, mesmo quando não mais ouvia os pássaros, mesmo quando os sons do jardim tornaram-se assustadores, tenebrosos: eram uivos, pios, pequenos momentos de ranger de dentes, rosnados. Não era noite, mas Alícia não enxergava muito longe pois uma estranha névoa atrapalhava a visão.

A natureza, embora ainda macia, aqui parecia a maciez de coisas velhas e usadas, algo pegajosa, e Alícia caminhava evitando as flores e folhas do caminho, quando chegou enfim a uma clareira. Ela não tinha visão de muitas coisas ao longe, mas podia ver um rio, correndo forte e vigoroso, que separava o jardim. O rio a assustava, o rio rugia e reclamava – era quase como se exigisse que ela o atravessasse, era mais que um desafio.

Do outro lado, Alícia viu todos os bichinhos que eram seus amigos e com quem havia brincado tanto há tanto tempo. Todos olhavam tristes, como se Alícia não mais pudesse brincar com eles, como se estivesse perdida. De certo notavam que Alícia, sozinha, não poderia atravessar o rio. Por sua vez, Alícia olhava aos bichinhos como se o tempo que passara no jardim com eles fosse algo remoto, acontecido há muito tempo, em outra vida talvez. Todos eram sentimentos extremamente novos e inquietantes para a alma ingênua de Alícia.

Olhando ao redor, desconsolada e assustada, Alícia viu o Salgueiro. Brilhava, entre as árvores, matas e arbustos ao redor. Não havia névoa quando olhava para ele, era como se um raio de sol, quente, aconchegante, a envolvesse. Quase soluçando, Alícia aproximou-se e reparou que havia na árvore, como para acolhê-la, um bojo. Ergueu-se e sentou-se ali, sabendo que seu corpo caberia perfeitamente e que ali sentiria-se segura e feliz.

Ao deitar-se, o Salgueiro farfalhou e sussurrou em seu ouvido. Falou palavras de carinho e de ninar, falou sobre reinos distantes, sobre um mundo onde a vida era difícil, onde todos tinham que, todo dia, “comprar” a sobrevivência. Embora Alícia não entendesse perfeitamente, escutava com atenção, pois o Salgueiro falava com doçura e ternura. Ouvir a voz do Salgueiro fazia com que ela se sentisse quente e um sono começou a dominá-la.

Mas o Salgueiro não a deixou dormir, avisando que esperavam por ela. “Seus amigos do outro lado do rio e, depois, papai e mamãe, estão esperando por você, Alícia” – disse ele. Lembrou-se então de papai e mamãe e de que deveriam estar preocupados! Ela saíra para um passeio e ali estava, deitada perdida ouvindo o Salgueiro contar histórias, depois de passar horas brincando com seus novos amigos.Mas como poderia abandonar o Salgueiro? Como poderia deixá-lo? Recusou-se e o Salgueiro farfalhou forte perante a recusa infantil – e irresistível – que apoderou-se da pequena Alícia. Então o Salgueiro disse: “Ainda é dia e o jardim é bom, apesar de tudo. Mas a noite não é assim”. E suas palavras deixaram Alícia com medo.

“Existem bichos que são o oposto dos seus amigos: eles não conversam e não brincam, eles apenas querem saber de rituais ruins e de coisas que não fazem bem, que você não entenderia e ainda ia te fazer mal. Você tem que ir, Alícia, tem que ir agora!” Alícia protestou, então “Só se você vier comigo! Pois não vou conseguir atravessar o rio sozinha e não lembro o caminho que fiz para vir para cá.”

E no mesmo momento Alícia viu-se nos braços de um homem alto, de cabelos morenos e rosto quadrado, olhos negros muito vivos e bondosos. Era um homem bonito que inspirava confiança, e Alícia aninhou-se em seu colo, feliz pois poderia voltar segura para casa e para os seus pais. Mas neste momento, ouviu-se um rosnado, e logo depois vários outros que a assustaram.

Sem saber o que fazer, Alícia olhou para o seu protetor e viu que também ele estava assustado e, misteriosamente, triste. Alícia sabia que para salvá-la ele poderia atravessar o rio, que sua vida era mais importante que a maldição que havia ali e estava feliz pois aquele homem tão bom poderia voltar para sua família e sua filhinha. Imaginou como seria ficar sem o papai e quase chorou, ouviu novamente os sons dos bichos e então chorou realmente: estavam ao redor, visíveis apenas parcialmente na noite enevoada.

Eram horríveis, paródias hediondas de seus amigos na outra margem. Com uma pequena lágrima despontando em seu rosto, o homem atravessou o rio com Alícia no colo e os bichos imediatamente a cercaram, quando ele a deixou no chão. “E você?” perguntou ela. “Eu tenho que voltar e defender a passagem do rio contra as criaturas. Volte com seus amigos, Alícia.”

E, enquanto era levada – sem poder resistir, embora tentasse – pelos bichos que eram seus amigos, de volta à casa de seus pais e ao fim do jardim, ela assistiu por cima dos ombros ao homem lutando contra as criaturas, uma imagem difusa e enevoada que perdeu-se conforme ganharam distância.

 

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