O Mal-estar de ser líquido

Por Reinaldo Dias      

                               

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imagem retirada do pinterest  

Sociólogo polonês, nascido em 1925, Zygmunt Bauman foi professor da universidade de Leeds, Inglaterra. No livro Modernidade Líquida,  lançado em 2001; de uma forma lúcida, Bauman constrói o conceito de uma sociedade em que a relações sociais são efêmeras, ou seja, nada se consolida, tudo é líquido. Ele ainda lança mão, do conceito liquidez para explicar a volatilidade das relações sociais as quais nos entrelaça, atualmente.

O professor faz um contra ponto entre o mundo líquido e ao mundo sólido, esse é mundo antigo, em que as relações sociais eram rígidas e duradouras, já aquele é o atual, construído em condição social fluída, padrões culturais são desfeitos no ar como: família, religião, sexualidade: esses conceitos são reformulados de maneira corriqueira, agora, tudo é maleável, casamentos acabam em uma semana, a igreja perde influência, e as pessoas mudam de sexo ao longo da vida, assim como a água ganha o contorno do objeto que ocupa, as pessoas adaptam-se ao contexto do momentos.

De uma maneira didática, o professor de Leeds, divide seu livro em cinco capítulos: emancipação, individualidade, tempo/espaço, trabalho e comunidade, no primeiro capítulo o autor polonês trabalha a questão da liberdade do indivíduo, questionando se o sujeito possui uma liberdade real ou vive uma liberdade consentida, já no segundo capítulo ela entrelaça a existência do sujeito ao ato de comprar, ou seja, existimos porque compramos; na terceira parte do livro questiona o conceito de espaço/tempo em relação ao trabalho, vivemos em um mundo do “trabalho sem corpo da era do software não mais amarra o capital” BAUMAN, mas o homem permanece ligado a terra. Diante de uma volatilidade das relações, o trabalho, é tema do quarto capítulo, e por fim no quinto capítulo, a comunidade, o sociólogo polonês expõe de maneira dicotômica como o homem solitário vive no coletivo.

Sob o discurso de “liberdade” a ideologia constrói os alicerces de uma sociedade ordeira e pacata. No primeiro capítulo, o autor apresenta ao leitor o conceito de liberdade objetiva e subjetiva, aquela é quando o sujeito manifesta seus

desejos de forma irrestrita, esta é quanto o sujeito imagina que está livre para realizar suas vontades, mas vive uma realidade consentida. Viver em uma polis, significa conviver com o outro de maneira amistosa, entretanto, essa tranquilidade tem um preço, o não hedonismo. O indivíduo não manifesta e nem concretiza seus desejos, segundo Bauman um dos sintomas dessa situação é a depressão, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, até 2020 ela será a doença mais incapacitante do mundo, as pessoas não estão satisfeitas com os empregos, com a vida que leva. Eis o mal-estar da civilização FREUD. Margaret Thatcher elucida bem, os novos tempos: “Não existe essa coisa de sociedade. Existem indivíduos, homens e mulheres, e existem as famílias”, hoje, as relações sociais são fluídas. Os homens não se identificam mais como ser social, mas sim como um indivíduo pertencente a uma sociedade, essa individualidade, segundo Bauman, tem sua gênesis no consumismo, “se consumo, logo existo”, o desejo é o estopim que desencadeia todo o processo de individualização, uma vez que, o sujeito quer ganhar mais para ter mais, essa engrenagem, consumo/individualismo, tem como resultado a alienação coletiva, pois o sujeito perde a visão dialética, da parte pelo todo, tornando-se preza fácil de um capitalismo selvagem, tornando-se escravo de si.

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imagem retirada do pinterest

Na modernidade sólida o mundo do trabalho alicerçava-se em um tripé, operário, meio de produção e empregador, o empregado começa a jornada em uma empresa e terminava essa jornada na mesma indústria, hoje um jovem “americano com nível médio de educação espera mudar de emprego 11 vezes” BAUMAN, isso cria no sujeito uma sensação de impossibilidade de futuro, pois não há certezas para o amanhã. Esse clima de incerteza sobre o futuro é uma poderosa força “individualizadora”, segundo o sociólogo polonês, pois é uma fissura que o poder atual provoca no sujeito, assim fica mais fácil para “dividir e conquista”, dessa maneira qualquer migalha que o capital oferecer o sujeito, ele aceitará.

A sociedade perdeu a noção de coletivo, as relações pessoas, esvai-se entre as brechas do consumo e do trabalho, o tempo também perde a sua simbologia, não pensamos mais no passado como o formador do presente e o futuro se esconde na muralha do presenteísmo, o indivíduo vive apenas o hoje, o tempo torna-se valoroso quando convertido em capital.

Nesse mundo o homem sofre sozinho; os medos e angústias não contribuem para uma causa comum, o trabalhador está isolado em suas idiossincrasias “as formas tradicionais de ação sindical são consideradas inadequadas” BOURDIEU Miséria do mundo, 2012. Portanto, o trabalhador está à mercê das intempéries do mercado de trabalho, e assim o estado caminha para o fim da comunidade e do bem-estar social.

As estruturas de unidades sociais foram ceifadas do conceito de comunidade, no estado líquido o caráter mobilizador, de unidade, perdeu-se como água entre os dedos de uma mão, as relações sociais tornam-se voláteis elas ficaram dependentes das forças mercenárias do capital global. Com o fim do estado e da comunidade, as unidades entre os sujeitos deixaram de existir. Os sonhos de segurança e de uma vida feliz são tolhidos diariamente, deixando o sujeito órfão de perspectiva, na ânsia de encontrar um abrigo sob a asa de um estado nação, mas isso não ocorre, o homem vive o desamparo social, isso fomenta a roda da vida da individualidade, esse ciclo vicioso transforma o cidadão em um servo que vive em busca de uma sobrevivência.

                             

2 comentários sobre “O Mal-estar de ser líquido

  1. Penso que o que torna as relações líquidas é muito mais uma questão de como lidamos, atualmente, com o tempo do que o consumismo.
    Queremos tudo rápido, tudo para hoje, não sabemos mais o que é conquistar algo, desaprendemos a investir nosso tempo nas nossas conquistas, fomos corrompidos pela praticidade da vida.
    Além disso não mergulhamos profundamente em nada, não corremos riscos, não nos envolvemos.

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