Mire e veja, fotografia não contábil

Por Antonia Sousa e Raquel Gomes

  Nenhuma sociedade que esquece a arte de questionar pode esperar encontrar respostas para os problemas que a afligem.

 

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Foto: Antonia Sousa

Os sonhos são atividades de todos os seres humanos, porém no mundo contemporâneo existem sujeitos que o asfalto acomoda o descanso e imagens impenetráveis versam as ruas. Inalcançáveis alguns registros, indago-me enquanto meus olhos percorrem os registros fotográficos de Antonia  Sousa.

Dissociada do academicismo e permeada por um trabalho de contemplação, a alteridade da câmera de Antonia retrata um mundo que os transeuntes ignoram em ver.  O seu trabalho trata-se em mirar as existências daqueles que habitam a rua.

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Foto: Antonia Sousa

O mundo cujo capital acentua as nossas relações afetivo amorosas valoriza as interações que nos possibilitam qualquer vantagem sobre o outro. Não é raro, encontrarmos muitos fotógrafos os quais fazem dos moradores de rua um palco para a sua guinada de sucessos. Mas, a empatia que esta fotógrafa tem perante o sujeito na qual ela se propõe a fotografar deixa que a poesia nos toque, logo o transeunte que anda pelas ruas sem perceber as misérias e as disparidades econômicas existentes em nosso cotidiano, mira uma realidade mais sensível permeada pela presença do outro.

Por uma fração de minutos, deixamos as relações indivíduo-coletivo e vivenciamos afetividades gélidas. Em lugar de impessoalidade, vemos um universo de imagens transpassadas, atravessadas por pessoas em situação de rua. O ponto de fuga, ou, o foco pode assumir que são àqueles desvalidos pela pós-modernidade, ou, ao universo de relações as quais nos falta o rumo para uma sociedade igualitária.

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Foto: Antonia Sousa

A arte pela arte, ou a arte engajada é uma discussão que existe desde os filósofos da antiguidade; são poucos os artistas que conseguem transformar está relação em um paradigma, fazendo surgir uma estética que vai para muito além de uma discussão tola, consagrando a memória da história da arte ocidental em seus registros fotográficos concomitantemente “toca um fodasse” aos cânones da arte vigente na contemporaneidade.

 

Retrato fiel da realidade e o abstrato compõem os limites da borda da imagem, movimento fílmico em pausa, registro da cruel solidão e das vidas entrelaçadas pelos descasos da urbis. Viver em situação de rua significa estar à margem da sociedade. Conceber existir sem a possibilidade de consumir: sapatos.  Desejos. Comidas.

– Dinheiro?!

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         Foto: Antonia Sousa

Mundo contábil. Mundo veloz, vasto mundo atroz. Tudo que é consumível desfalece-se no ar, o objeto que um dia foi meu luxo, hoje é nosso lixo.  O homem que um dia foi ser humano, hoje é um pobre mendigo. E, os meus olhos sentem a vida que não é liquida, mas sim derramada quando vejo a arte desta fotógrafa:

–   Evoé Antonia Sousa, jovem artista!

 

Este ensaio foi escrito diante de reflexões, conclusões advindas  a partir das minhas leituras da obra de Zygmunt Bauman.

 

 

 

 

 

 

                                 

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