Pulso é o corpo, pulsante é a mente

Por Raquel  Nascimento Gomes 

 

Raquel Gomes

 

Corpo brando, leve e forte que se ergue andarilho não a própria sorte, mas donos do destino da urbis SP. Corpo político que se lança entre multidões para ser um só, um mil, porém distintos trazendo a marca da indignação no rosto. Corpo escrita que penetra no campo cósmico das semânticas. Corpo sintaxe que encontra na  fala cosmopolita, a poesia da vida com seus remendos de cobertores sujos, panos dignos, pãos doados.

Pães e pãos é questão de opiniães!

Como Guimarães, licença mestre, os corações invisíveis estão costurados ao parágrafo para sermos ser-tão, agreste textual para conceber matérias, conteúdo em artes visuais e literatura junto às fomes e às sedes do mundo.

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imagem retirada do pinterest

Revista que é um café mirrado, migalhas de um pão duro. Não comemos do mesmo prato que Pondé, esse é nosso pulso. A mente pulsante não se esquiva em sentir o estômago do mundo que ronca à mingua.

Pousados nas asas das palavras, fugimos dos holofotes promíscuos da mídia hegemônica. Guy Debord em verso-prosa resguardando as entrelinhas das nossas publicações. Entre esquinas, avenidas e ruas não somos os vigias. Somos o silêncio dos olhos, as redes de pesca estendidas ao ar. Somos os olhos atentos à calada da noite do verso do poeta. Denúncia à injusta batida militar.

Um retrato pessoal do mundo, repartindo informações, visões, fragilidades.  A cidade é um verso que cabe invisibilidades, porque adentrar o invisível das vidas citadinas faz-nos aprofundar nas existências e transformá-las em arte, jornalismo, conteúdo visual.

Tornamo-nos a memória de João, que depois de três meses da publicação de sua história na Revista Escrita Pulsante, faleceu em um gramado na Universidade de São Paulo – USP.

Matéria que começou com a fome por um café da tarde na USP; conversa vai conversa vem e de repente João resoluto diz: “quero contar minha história a vocês” – Raquel e Priscila. Será que era um adeus? Será que foi seu último fôlego de luta? Professor, o João. Subversivo: João.

Antes teve a câmera, papel e páginas de um diário em branco, sendo preenchido:

“(…) caminhei durante duas horas pelas ruas próximas a estação República, conheci um senhor que não quis registrar nenhuma entrevista, mas me falou das atrocidades que a polícia militar comete com os moradores de rua, principalmente, os homossexuais. Eu disse que a pauta da matéria era sobre o feio e belo na visão dos moradores de rua, ele sorriu e perguntou se eu estava “variando da cabeça””.

(Trecho do diário de Raquel Nascimento Gomes)

Escrever esta matéria foi enxergar a produção das desigualdades sociais, abrir o peito para partilhar as multifacetadas existências de pessoas que habitam o centro da cidade. Entre diálogos, anotações e conversas, eu e a Priscila saímos do mundo das vitrines para compreender vidas em situação de rua. Escrita una, a minha e a dela. As calçadas da Roosevelt tornaram-se nosso escritório de entrevistas, logo entre sorrisos e tristezas nasceu a primeira postagem da revista.

Nesta época, o envolvimento com o jazz já traduzia uma paixão pela música cultivada na infância. Enquanto, a primeira matéria se concebia, outra pauta já sussurrava em nossos ouvidos: jazz e rua.

“O Antonioni escreveu certa vez que de uma criação nasce outra”.
(notas do diário Raquel Nascimento Gomes)

Fascinada pelos escritos do Deleuze, rua, alegria e jazz foi o mais bonito desafio experimentado e vivido. Era jazz, rua, luta. Alegria e artistas que mudavam e mudam o cenário cultural das ruas da cidade de São Paulo.

A Revista não coube mais em si e explodiu para outras paragens: surgiu um programa de rádio na Rádio Cidadã, um webdoc inédito com os artistas de rua e edições especiais temáticas, sempre em evolução e movimento. A Revista Escrita Pulsante ainda almeja muito, e caminha conforme o movimento das estações, das ruas, das pessoas, pulsando rumo ao desconhecido, ao intocável, ao indizível, e principalmente rumo ao que acreditamos enquanto seres humanos e cidadãos de um mundo sem fronteiras.

Ainda há muito o que escrever, mas também há tinta e papel em branco. Assim sendo, seguiremos.

 

 

 

 

Capa desenvolvida pela design e editora Renata Fagundes, o fôlder da Revista Escrita Pulsante também foi desenvolvido por esta maravilhosa pessoinha! 

4 comentários sobre “Pulso é o corpo, pulsante é a mente

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