Sororidade

Por Joice Aziza

poema-joice

Depois de ter sentido o gosto amargo do racismo institucional, em meio a um grupo dito feminista e escutar Nina Simone, me despi.
Não tenho bons modos,
Não tenho classe,
Não tenho postura,
Não tenho a tua cultura,
Não passei pela ditadura,
Não provei da tua comida,
Não mexi em sua ferida,
Não bebi de tua pinga,
Não relembrei do teu passado,
Não fumei do teu cigarro.
Falo alto
Me irrito fácil
E mesmo sem beber
Me embriago
Depois de tantos não’s,
Me despi do involuntário
Do concreto
Do bom senso
Do teu pensamento.
Pois tenho
Meus cabelos crespos,
Tenho meus lábios grossos,
Tenho meu quadril largo,
Tenho minha bunda grande
Tenho a pele da noite,
Que sentiu a dor do açoite.
Tenho a coragem dos antigos,
Dos que sobreviveram
Nos conflitos dos quilombos
Sem pensar em que vai falar,
Sem querer saber o que tens a dizer,
Sem me incomodar com o que vão pensar,
Saio desse lugar sem ter que gritar,
Mas sem deixar de lutar.
Sem deixar de me posicionar.
Me fazendo estar
E não querendo ficar
Não querendo compartilhar
Dessa tal sororidade.

 

Joice Aziza de Mendonça. Mulher Negra Periférica, militante nos diversos Movimentos Negrx de Sampa.Professora de História da Rede Estadual. Pós Graduada em Gestão Escolar. Especialista em História e Cultura Afro-Brasileira.  Mantenedora do Blog Nós da Diáspora. Escritora de escrevivências: Fanzine Revoart.

 

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