Pelas entrelinhas: o racismo do dia a dia

Por Priscila Silva

pri-1Eu sou uma moça branca de cabelos lisos – editora da Revista Escrita Pulsante. Para mim, o racismo era algo que estava se extinguindo com o passar dos anos, com o “avanço” da mentalidade humana e “progresso” da sociedade moderna. Até que um dia, uma amiga negra, enfermeira, contou-me um caso que acontecera há pouco com ela, e que a magoara de forma profunda. Um senhor havia recusado seu atendimento, dentro de uma ambulância, já prestes a ser encaminhado de sua casa para o hospital. Um senhor debilitado e que necessitava de cuidados urgentes, utilizava suas últimas forças para diminuir a capacidade profissional de minha amiga, duvidando de suas habilidades enquanto enfermeira, profissão para a qual havia estudado durante anos e com êxito, porque negras não podem ser boas enfermeiras. Somente então estive cara a cara com a realidade atual: um racismo enrustido e disfarçado, silencioso, que vistoria a mala do negro atrás de você, na fila do aeroporto, e libera a sua, de branco, cheia de muamba sem nota fiscal; o racismo disfarçado do segurança de loja que segue com os olhos a mulatinha que acabara de entrar na loja de roupas, e dos olhares desconfiados dentro do ônibus.

O tema, em constante debate nos dias de hoje, foi proposto para a segunda aplicação do ENEM 2016, abrindo mais portas para a discussão com os jovens e futuros universitários do país.

Em números na economia, pesquisas do IBGE apontavam, em 2011, que 73% das pessoas cadastradas em programas sociais do Governo Federal eram pretos ou pardos declarados (Carta Capital, 04/01/2014). O que nos mostra que a segregação é social e econômica.

pri-2No mundo acadêmico, em relação ao acesso ao ensino superior, a UnB foi a primeira universidade a instaurar o sistema de cotas para afrodescendentes em 2004. Alguns anos depois, em 2010, o Estatuto da Igualdade Racial é aprovado e aumenta o acesso às universidades e cargos públicos (HTTP://sistema-de-cotas.info), com a Lei de Cotas de 2012. Porém, a discussão e as lutas continuam, haja vista que o sistema é falho (vide o caso das Faculdades de Medicina na Bahia, que tinham estudantes brancos inscritos indevidamente como quotistas), e o caminho ainda é árduo para os que necessitam de apoio para seguir em frente.

Enquanto isso, as batalhas continuam em atos, decretos, manifestos em redes sociais e grupos de discussão, estudos e apoio. Cabe a todos nós discutirmos e combatermos toda forma de intolerância e o preconceito, principalmente o racial, para somente assim conseguirmos finalmente descrever esta nossa Era como “Modernidade”.

Priscila Silva é editora da Revista Escrita Pulsante.

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