A literatura afrobrasileira de Lima Barreto

Por Reinaldo Dias

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Foto: Pierre Verger

Imagine nascer no final do século XIX, viver o fim da escravidão no Brasil e ver o início da Primeira Guerra Mundial, morar em um país subdesenvolvido o qual possui uma ideologia escravagista, ser pardo e ter nascido em uma família de ex-escravo; eis o perfil de Lima Barreto, escritor brasileiro que ganhou notoriedade, postumamente, e que viveu à margem em uma sociedade preconceituosa e excludente.

Lima Barreto viveu em uma sociedade recém-liberta, constituída por senhores de engenho e negros livres, seres humanos sem formação, sem profissão. Este autor, não teve acesso a um ensino básico regular, mas por ser apadrinhado por Visconde de Ouro Preto adentrou o universo do mundo letrado, enquanto seu pai garantia o sustento da família, trabalhando na tipografia.

O autor de O triste fim de Policarpo Quaresmo consolidou os estudos no tradicional Colégio Dom Pedro II, chegando a ser admitido na Escola Politécnica, porém, como nem tudo são flores, foi forçado a abandonar o curso devido a uma enfermidade que acometeu seu pai: a loucura.

O projeto educacional de Lima Barreto fracassou, então ele teve que buscar outras  alternativas para sobreviver. Tal como muitos escritores brasileiros, Lima Barreto começou a escrever na secretaria de guerra, no entanto, o salário de escriturário não pagava as suas contas, foi quando tornou-se jornalista nos jornais cariocas.

A essência contestadora e crítica começou a aparecer em suas crônicas, vivenciando todas as injustiças sociais e presenciando o racismo vigente no Brasil do final do século XIX, Lima Barreto criou um tipo de romance manifesto entrelaçado na realidade de um país ainda escravocrata, mesmo após abolição.

O escritor negro sentiu na pele as críticas vexatórias, o racismo escancarado, já que em vida não conheceu o reconhecimento merecido por livros como Clara dos Anjos, Recordações do Escrivão, Triste fim de Policarpo Quaresma, Os Bruzundungas.  Foi somente um tempo depois que as obras de Lima Barreto encontrou prestígio na crítica de Nicolau Sevcenko, por exemplo, em seu importante livro Literatura como Missão, que reconhece a literatura de Lima Barreto como literatura importante para a sociedade brasileira.

Foi considerado como um dos precursores do pré-modernismo brasileiro, uma vez que Lima Barreto acreditava que por meio de uma linguagem mais próxima da fala das ruas dos guetos suburbanos se poderia produzir uma literatura manifesto, pois só a arte poderia iluminar a ignorância que pairava na população.

 No livro Os Bruzundungas, o autor neto de escravo, evidencia as idiossincrasias da sociedade tupiniquim, com uma linguagem metafórica que apresenta as mazelas da elite preconceituosa e escravocrata do início do século XX.

Seus livros são verdadeiras manifestações de repúdio a uma sociedade injusta e excludente. Em Triste Fim de Policarpo Quaresma, fica evidente a visão pessimista do autor, porque a personagem Policarpo é um personagem nacionalista que defende o tupi guarani como língua materna, pensando no nacionalismo como forma de redenção nacional, mas percebe que toda a sua luta pela pátria foi inútil quando é exilado e condenado ao fuzilamento, sob a alegação de ter compaixão pelo próximo.

O pessimismo dado ao pensamento do filósofo Schopenhauer registra uma     urbanidade carioca que se forma alicerçada nos pilares da desigualdade social, ou da segregação de homens pobres e pretos. A literatura de Lima Barreto consagra-se por inserir o discurso de personagens rebaixadas que não encontravam ressonância, se não fosse a literatura afrobrasileira de Lima Barreto.

O crítico Eduardo de Assis Duarte afirma que esta literatura – afro-brasileira – nasce da “existência de vazios e omissões que apontam para a recusa de muitas vozes, hoje esquecidas ou desqualificadas, quase todas oriundas das margens do tecido social”. Assim, poderíamos pensar no romance de Clara dos Anjos como um tecido social que adentra o universo dos excluídos e demonstra as atrocidades aos herdeiros da escravidão, vivendo todo estigma por conta da cor da nossa pele.

Reinaldo Dias é colaborador da Revista Escrita Pulsante e mantém a coluna Tecidos Livrescos.

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