Uma semente e a ordem mundial

Por Carla Diacov

carla

Antonio Henrique Amaral(1935-2015). A morte no sábado -Tributo à Vladimir Herzog ,1975. Óleo sobre tela,c.i.d.123.00 x165.00 cm

 

o homem do desespero central
planta uma árvore fêmea
bem no centro de sua sala de estar
e se ri
trinta anos se passam
e a cerejeira está linda forte
o homem do desespero
calmo que só
atualiza os ossos ergue-se da poltrona
abre todas as janelas e portas
a essa altura da vida
pensa
já o tempo de mal criar o filho que fiz
com a senhora cerejeira
engrossa a voz
lino
que é o nome que a cerejeira escolheu
sabes bem
durante o crescimento da ideia filho
lino
coloca-te diante da tua mãe
vês
estou bem atrás de ti
tua mãe adiante
é a ordem mundial
a casa está aberta e cheia de folhas
cheia do ar que também é o ar
que encheu os pulmões do inventor do avião
de martin luther king de napoleão bonaparte
ar poeira cósmica e o ralado grã-fino dos ossos pervertidos
asas e uma ideia no meio
vês
lino
de frente para a porta
enfileirados
tua mãe lino cheio de vida teu pai
revela depressa ao teu velho
de que lado do olho da miséria estamos agora?

 

Carla Diacov é uma poeta brasileira nascida em São Bernardo do Campo em 1975. É formada em Teatro e possui poemas publicados em diversas revistas no Brasil e em Portugal. “Amanhã alguém morre no samba”, seu livro de estreia, foi publicado em Portugal, em 2015, pela Douda Correria. Ainda esse ano lançará “Ninguém vai dizer que eu não disse”, pela mesma editora. Recentemente lançou em Juiz de Fora, pelas Edições Macondo, o livro A METÁFORA MAIS GENTIL DO MUNDO GENTIL.