Milton Santos: uma catarse esclarecedora

Por Reinaldo Dias

A cada momento em que o celular toca, em um bolso, é um exemplo perfeito de um produto globalizado, afinal, esse aparelho foi construído sob a luz de um sistema que é extremamente eficaz, quando o assunto é mercantilizar um produto.

Arte: Rapha Baggas

Arte: Rapha Baggas

Perceba que esse telefone toca em uma calça “Diesel”, marca italiana, que vende calças em terras tupiniquins. O celular que toca teve o processador fabricado na China, foi montado na Califórnia e é vendido aqui no Brasil.

Ficou confuso, fique tranquilo!

O geógrafo Milton Santos, em seu livro Por uma outra globalização: do pensamento único consciência universal, analisa o processo de internacionalização do mundo capitalista de maneira didática, dividindo a globalização em três formas discursivas.

A primeira entende-se a globalização como fábula, ou seja, aquilo que parece ser, mas não é; em suma, um faz de conta. Logo depois, descreve a globalização como perversidade, o que ela é realmente, mas não parece, portanto, o sistema ilude para depois extrair do povo a essência humana, por fim, a globalização como poderia ser, mas não é. A última ideia está no campo da utopia, um não lugar.

Neste livro, Milton Santos aborda a globalização como um sistema em que esfacela as fronteiras, encurta as distâncias entre os continentes, mas, no mundo empírico, as coisas não são tão fabulares assim, afinal, o que ocorre é um fortalecimento das barreiras nacionais. Muros são construídos para separar países ricos de países pobres, impedindo a circulação de pessoas, mas a mercadoria continua a circular sem restrições.reinaldo-2

Essa dialética discursiva é essencial para legitimar o sistema comercial, pois as mercadorias circulam livremente. Entretanto, o ser humano não pode ultrapassar as barreiras geográficas para os países desenvolvidos. Logo, não foi o mundo que ficou pequeno para o homem, tal como dizem.

As mercadorias rodam o planeta sem barreiras, acompanhadas de um sólido sistema de publicidade do produto que o divulga antes dele existir. Desta maneira, o marketing cria uma condição de necessidade extremamente eficiente que transforma um objeto em um elemento essencial para existência humana.

 Assim, por meio de uma retórica atraente, a globalização mercantiliza tudo, até mesmo nossas relações sociais. É muito comum ouvir enunciados como: “Investi muito em uma relação amorosa, mas não me gerou nenhum lucro”, com isso, perde-se a percepção do que é uma relação humana regada ao afeto e ternura.

A globalização tem o lado obscuro que não é mencionado e que amplia as diferenças sociais entre ricos e pobres, e é por meio desses (pobres) que o capitalismo se consolida como sistema hegemônico no mundo, infelizmente.

No livro, Milton Santos, afirma ainda que “vivemos num mundo de exclusões, agravadas pela desproteção social, apanágio do modelo neoliberal”, um dos alicerces da globalização é a capacidade de gerar crises as quais suscitam nos indivíduos, um temor, a insegurança.

 É por meio deste afeto que o sistema mantém-se vivo, mutável e inabalável, pois o medo de perder o emprego transforma o proletário em uma ovelha facilmente de se conduzir à sessão de tosa, portanto a base econômica desse sistema global é forjada no medo e na insegurança do “povão”.

Desta forma, o sistema alimenta-se de insegurança popular, provocada por sucessivas crises econômicas; a “globalização mata a noção de solidariedade, devolve o homem à condição primitiva do cada um por si, e, como se voltássemos a ser animais da selva”, devido a essa manipulação ideológica, o humano perde-se, passando a agir de maneira instintiva apenas para sobreviver. Logo, o indivíduo torna-se presa fácil para qualquer das manipulações mercantis.

Para Milton Santos, há uma possibilidade de fuga deste sistema que corroí o sujeito pelas entranhas, que é a conscientização deste, pois é através dela que a libertação surgirá, porque, afinal, será neste momento que o homem se apropriará de filosofia epifânica que conduzirá o sujeito a uma catarse esclarecedora e se conscientizará “da nossa própria situação ante a comunidade, a nação, o planeta, com uma nova apreciação de nosso próprio papel como pessoa”.

Reinaldo Dias é beletrista, Professor e colaborador da Revista Escrita Pulsante.

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