A juventude grita: “a escola é nossa”

Por Priscila Silva

Foto publicada no blogviramundos.wordpress.com

Foto publicada no blogviramundos.wordpress.com

O Estado de São Paulo sofre, há anos, com um processo de degradação do ensino público em suas esferas de base: o ensino fundamental e o ensino médio. Os alicerces para a aprendizagem dos jovens paulistas estão, aos poucos, sendo destruídos por reformas que pouco contribuem para o processo de ensino, como a tão criticada progressão continuada, e hoje a polêmica reorganização escolar.

A reorganização escolar consiste no agrupamento de alunos nas escolas conforme suas faixas etárias e ciclos, basicamente separando os períodos de ensino fundamental 1, ensino fundamental 2, e ensino médio em escolas diferentes. Em razão desta reorganização, escolas que tinham poucos alunos e escolas ociosas serão reestruturadas, sofrendo reformas para serem transformadas em ETECs. Estas medidas, anunciadas há pouco tempo pelo Secretário de Educação do Estado de São Paulo, Herman Voorwald, geraram polêmica, uma vez que pouco contribuem pedagogicamente para a evolução destes jovens e crianças que serão realocados, e também por não terem sido discutidas em conjunto com as comunidades. O resultado foi de mais de 100 escolas ocupadas por alunos cujo lema é “A escola é nossa”.

O fato é que as medidas de reorganização escolar afetarão alunos, funcionários das escolas e comunidade. Embora tenha sido feito um estudo prévio sobre a quantidade de alunos por bairro e considerada a distância média para a locomoção destes até a escola, a reorganização afetará famílias cujos filhos estudavam na mesma escola, e agora serão separados; deficientes que dependerão do transporte para se locomover até a escola de transferência, etc. Em questões administrativas, as escolas a serem fechadas deixarão desempregados professores contratados, coordenadores serão realocados e funcionários transferidos.

É por esta e outras razões que os alunos tomaram suas escolas e se organizaram em ocupações, reivindicando o direito de permanecerem estudando em escolas nas quais estiveram durante toda a sua trajetória escolar, com as quais criaram afeto, ou ainda por questões de distância, já que a reorganização não os favoreceria.

Em entrevista à Revista Escrita Pulsante, o ex Secretário Adjunto, João Palma Filho, comentou sobre a reorganização e sobre suas expectativas futuras sobre o ensino público paulista.

Foto: A2 Fotografia / Milton Michida

Foto: A2 Fotografia / Milton Michida

– Revista Escrita Pulsante: Nós gostaríamos de saber a sua opinião sobre a reestruturação das escolas paulistas, sobre sua visão deste planejamento.

– João Palma: Há escolas, na rede estadual, com um número muito baixo de alunos. Isto já vinha ocorrendo desde 1995, pois já houve uma reorganização nesta época, não tão grande, mas houve municipalizações. Outro fator foi a queda da natalidade. E um terceiro fator seria a melhora na qualidade de vida das famílias que tinham filhos em escolas públicas: quando houve uma melhora na situação financeira, estes crianças migraram para o ensino particular. Somando-se tudo, temos aproximadamente 2 milhões a menos de alunos matriculados em escolas públicas, e hoje temos pouco mais de 3 milhões de alunos, sendo que em 1995 eram 6 milhões. A municipalização foi muito forte no interior, e isto fez com que muitos prédios ficassem ociosos, e esta é a ideia do governo: utilizar estes prédios para creches, escolas e ensino técnico, fazendo as adequações necessárias (este é o argumento da secretaria, inclusive). Porém, o Governo incluiu outro argumento que não tem a ver com ociosidade, que seria o planejamento de um ciclo por prédio. Teoricamente não há nenhuma razão pedagógica ou psicológica, ou qualquer que seja, que justifique separar os ciclos em edifícios diferentes. Estes alunos convivem normalmente, sem problemas. Do meu ponto de vista, isto é meramente uma questão administrativa. O Governo ignorou o fato de que há envolvimento dos alunos com a escola. Alunos estudaram uma vida inteira na mesma escola, e isto não foi considerado: o apego. Além do problema das famílias que possuem filhos de ciclos distintos, que antes iam para a mesma escola, e agora serão separados.

– REP: O Sr. sabe quais medidas serão tomadas em relação às ocupações? Estes alunos serão ouvidos?

– João Palma: Bom, o Governo diz que quer dialogar, mas manda a polícia, quer dizer, há um diálogo meio esquisito. Reintegração de posse é uma medida descabida, pois eles não tomaram posse da escola, eles ocuparam a escola que é deles. Inclusive os alunos mantêm as aulas programadas. Quanto ao transporte, por exemplo, o Governo diz que vai garantir o transporte, mas o aluno deverá se deslocar 7 quilômetros, em alguns casos. Se a Secretaria deixar de pagar o transporte, não haverá. Isto poderá causar, inclusive, evasão. Os alunos do ensino médio, por exemplo, deveriam ter o direito de escolher a escola em que querem estudar, pois a maioria trabalha, e deveria ter o direito de estudar próximo ao trabalho. Também me contaram um caso interessante, de duas escolas da periferia que são rivais. Uma delas vai fechar e vão unir as duas escolas, ou seja, será uma guerra dentro da escola. A escola da região da Luz será reativada, em meio à Cracolândia, uma região que é difícil para os alunos e as famílias frequentarem, facilitando a evasão destes alunos. Alguns prédios que serão entregues ao “Paula Souza” são prédios ótimos, eu acredito que já havia esta intenção prévia, para expandir o ensino técnico sem gastos com novos edifícios. O maior problema em todo este caso é a falta de diálogo com a comunidade escolar. A propaganda da reorganização deveria ter sido feita há tempos, para permitir este diálogo.

– REP: E como será a realocação dos professores, coordenadores e demais profissionais da educação?

– João Palma: O Governo diz, na propaganda, que os professores não vão perder o cargo, mas ele não diz que o professor não ficará na escola que escolheu EM CONCURSO. O cargo é do professor, e não do Governo. Ele só poderia sair dali que assim quisesse. Também não garante a carga horária dos professores, apenas a carga mínima, que talvez na outra escola fosse muito maior, garantindo um salário maior. Também não há discussão quanto aos professores que não são efetivos. Os contratados, aproximadamente 30 mil, vão para rua, terão seus contratos rescindidos. Por que não houve uma discussão com os sindicatos dos professores? O povo não é mais tão “carneiro”. Após as manifestações de 2013, o povo está reagindo. E digo mais, esta ocupação foi muito bem organizada pelos alunos. Não há sindicatos nem partidos políticos. Houve um caso em que alunos se organizaram para conversar com o Secretário de Educação, e a representante do Sindicato queria participar, e foi proibida pelos alunos.

 – REP: qual a sua perspectiva em relação a todo este cenário, a reorganização e uma melhora no ensino público?

– João Palma: Isto por si só não melhora o ensino público. Hoje a qualidade do ensino público passa por outras variáveis, por exemplo, valorização da carreira, qualificação do professor. Hoje você tem professores que passam no concurso e depois pedem demissão; há muito afastamento e não há substitutos. A reorganização melhoraria a gestão, mas não melhoraria a sala de aula. Inclusive poderá aumentar ainda mais o número de alunos por sala.

O Governo do Estado de São Paulo pouco negociou com os estudantes e a comunidade, tomando atitudes truculentas de repressão às ocupações, lideradas pela Polícia Militar de São Paulo. Mais uma vez, a polícia foi utilizada como uma ferramenta movida à violência, sob o comando de um Governo que se mostra antidemocrático e repressor. Os alunos, no entanto, seguiram organizados e resistiram, ganhando a comunidade em seu favor. Seguiram organizados até que o Governo do Estado cedeu “parcialmente”, camuflando a reorganização e adiando-a. Hoje a reorganização ocorre em algumas escolas, e outras estão em risco de fechamento.

Agora, com o país sob a presidência de Michel Temer, as ocupações voltaram a ocorrer, envolvendo inclusive Universidades e centros estudantis em todo o país. O motivo é a PEC 241 (Proposta de Emenda Constitucional) que reduzirá os investimentos em educação pelos próximos 20 anos, e a reforma do currículo do Ensino Médio, que prevê a retirada de algumas disciplinas.

A situação da educação no país segue em decadência. Em relação ao ensino superior, benefícios são cortados e atrasados, e estudantes não têm como pagar as Universidades, perdendo o curso ou envolvendo-se em dívidas gigantescas para tentar completá-los. A sensação da população, que nos últimos anos alcançou outros patamares no quesito educação e formação, e até ontem almejava seguir em crescimento, hoje se vê diante de uma batalha contra o retrocesso, contra a destruição do ensino e a segregação social que isto ocasiona. “Se não tem dinheiro, não faz faculdade. Vai estudar na USP”, disse o deputado Nelson Marquezelli (do PTB-SP). Talvez este seja o intuito da PEC 241 e dos que ainda protestam em seu favor.

Vários protestos ocorrerão nos próximos dias em todo o país contra a “PEC do Fim do Mundo”, na tentativa de salvar os avanços e conquistas alcançados nos últimos anos. Esta será também uma tentativa de barrar a falta de bom senso (para não dizer aqui “cara de pau”) de nossos governantes, que aumentam salários e cargos de assessores, e reduzem gastos com educação e saúde para equilibrar as contas públicas. Enquanto reinar a falta de caráter e senso de bem comum público em nossos governos, o povo seguirá em batalhas constantes, pelas ruas, escolas, hospitais, em busca de qualidade de vida e manutenção de seus direitos básicos, pagos por seus impostos.

Confira o áudio completo da entrevista!

Priscila Silva é Editora da Revista Escrita Pulsante, Tradutora e Escritora.

2 comentários sobre “A juventude grita: “a escola é nossa”

  1. Bom penso que o artigo só considerou o lado da população e dos estudantes, e tratou o Estado como o grande vilão.
    O problema que vejo é que estamos em uma crise com aumento de desemprego e queda acentuada de consumo, ora diferente do governo federal os estados vivem com o imposto que é cobrado sobre o consumo, se o consumo cai como caiu e está caindo também cai a arrecadação do Estado, é então necessário que o Estado diminua seus gastos, se a ocupação das escolas diminuiu, em quantidade de alunos e existe outra escola na mesma situação perto então nada mais inteligente, do ponto de vista econômico.
    Acontece que estamos falando de pessoas, e é preciso considerar, também, o que foi exposto na reportagem.
    Penso que é uma situação muito difícil de resolver e penso também que a melhor saída é a comunidade intervir nessa escola, mas não como adversária do Estado e sim como parte também interessada na construção de uma escola melhor.
    O que não dá para continuar é de um lado professores e alunos exigindo que se aplique cada vez mais e mais recursos sem se preocupar se há viabilidade para tal e de outro o Estado impondo decisões arbitrárias.

    • Olá, Ana!
      Primeiramente, obrigada pela participação.
      Sim, a autora considerou particularmente a reivindicação de professores, alunos e sociedade. A questão principal é a manutenção de um direito básico, que é a educação, e como este direito vem sendo tratado por nossa política no decorrer dos anos. Temos avanços e retrocessos, e, em meio à crise (que exige sim uma revisão nos custos e repasse de recursos), parece-nos sem sentido alterar exatamente este direito básico (sem tirar, obviamente, a importância da saúde, moradia e outros direitos do cidadão). Precisamos debater estes impasses com nossos governantes, para melhor uso do dinheiro público e juntos encontrarmos uma saída para a crise que assola nosso país. Estamos na torcida por um país melhor! ❤
      Abraços,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s