Uma beletrista em Paraty

Por Priscila Silva

Arte: Gerson Vieira

Arte: Gerson Vieira

No ano de 2012, a FLIP, Festa Literária Internacional de Paraty, homenageou o poeta itabirano Carlos Drummond de Andrade, espalhando poesia por toda a charmosa cidade litorânea. Versos enfeitavam as paredes das instalações e o clima de poesia se instaurava por toda a orla.

Em tempos de FLIP, Paraty se torna o espaço da literatura, por onde transitam escritores, aspirantes, professores, críticos e amantes de literatura pelas ruas e pequenas pousadas que hospedam os visitantes da famosa feira. Este ainda é o espaço para os pequenos escritores independentes, que produzem suas próprias obras com impressões de baixo custo e as vendem durante a feira.

Em tempos de FLIP, tudo vira literatura. Respira-se literatura pelos ares das ruas de pedra. Bebe-se literatura nos cafés requintados ou nos botecos beira-mar. As construções coloniais do centro histórico formam o cenário ideal para todo tipo de arte: fotografia, manifestações musicais, artesanato. Paraty vira cenário artístico, palco e inspiração, tudo ao mesmo tempo.

Este foi o cenário que encontrei em minha visita naquele ano, e acredito que este seja o clima de sempre, uma vez que, anualmente, Paraty vira a cidade da literatura e das artes.

Porém, este ano, a FLIP 2016 demonstrou queda nos índices de visitantes. Pousadas com vagas sobrando, restaurantes vazios e ingressos disponíveis por muito tempo. Talvez este seja o resultado da atual situação do país, em que as pessoas economizam mais e pensam duas vezes antes de programar uma viagem, mesmo que seja para a cidade ao lado. Ou talvez isto seja consequência de uma “elitização” da feira, que cobra pacotes absurdos para reservas em pousadas que oferecem uma cama simples, chuveiro e café da manhã por cada noite da feira. Isto ocorreu em 2012, quando duas amigas e eu procurávamos pousadas em Paraty na época da FLIP. Os “pacotes” cobravam preços entre 3.000 e 5.000 reais por 4 ou 5 dias de hospedagem. Encontramos uma pousada mais “acessível”, e, mesmo assim, lembro-me de termos dividido mais de 2.000 pelo quarto apertado com 3 camas e café da manhã (que pelo menos era farto).

Ademais, o clima fora da FLIP é simples e cotidiano. A vida segue para os moradores dos arredores, que aproveitam a feira para ganhar um dinheiro extra com vendas de artesanato, comes e bebes, e arte.

Os intelectuais que movem a popularidade da FLIP movimentam também a economia da cidade. Os resultados da FLIP de 2016 devem ser aplicados para se pensar na continuidade do sucesso da feira como um meio de propagação de literatura e arte, e não apenas mais um evento elitista para que intelectuais tirem fotos com autores e comprem livros autografados, enquanto pagam fortunas por uma noite de hospedagem e uma taça de vinho num restaurante a beira mar.

A FLIP em si é muito mais que isto. Em 2012, ali, em meio à plateia atenta à palestra de abertura em homenagem a Drummond, ou em cada canto da cidade, em cada cordel vendido marginalmente, em cada livreto de poesia mal impresso e declamado pelo poeta sob pouca luz, Paraty era a cidade da literatura. O que nós, beletristas de hoje, esperamos, é que a FLIP continue nos proporcionando estes momentos únicos, e que outras feiras tomem as suas proporções, enquanto grande evento mundialmente conhecido e enquanto ponto de encontro e reconhecimento nesta nossa área, afinal, o fantástico e inesgotável mundo da literatura não cabe na FLIP, não cabe em prateleiras, e não pode caber em estereótipos e imposições de necessidades capitalistas menores. A literatura não tem fronteiras.

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