Reconciliação

Por Giovanna Ramalho

Foto: Sebastian Lucre

Foto: Sebastian Lucre

Era outono. Folheando a edição de junho da Revista Piauí, minha atenção foi atraída por um ensaio de Jonathan Franzen, escritor norte-americano que já ganhara diversos prêmios com seus romances Liberdade e As Correções. O título não podia ser mais estranho: “O cérebro do meu pai”. Era sobre o mal de Alzheimer de seu pai.

Foi assim, com a dor de Franzen, que entrei em sua literatura. O ensaio deixou uma inquietação mesclada à melancolia daquela narrativa sobre a decadência do pai. Admirada, senti que precisava ler mais. Um tempo depois, surpresa! O aclamado autor viria ao Brasil para participar de uma das mesas da deliciosa Festa Literária de Paraty.

Reserva feita, curiosidade alta, fui com duas amigas. Deixei para comprar seu livro na festa e conseguir um autógrafo. Aliás, quem já participou da Flip, provavelmente, sofreu da comum ilusão de achar que conseguirá ler algo nos dias da Festa. É quase impossível. A causa, no entanto, não podia ser mais nobre: é irresistível passear pelas ruas de pedra de Paraty procurando os autores, na busca por um autógrafo. Com um pouco de sorte, dá até para bater um papo.

Conhecer um escritor pessoalmente é como ir pela primeira vez ao show de um artista que você ama. Você pode descobrir que a banda (ou o autor) é incrível “em ação”, mas há o risco de chegar ao estádio e se perguntar por que raios pagou tão caro para ver pessoas sem carisma nenhum tocando de um jeito que você podia ouvir no conforto de sua casa. Por isso, conhecer um autor simpático e interessado em seus fãs é um alívio – e um incentivo adicional para se apaixonar ainda mais por sua obra.

Capas de livros de Franzen - imagens do Google

Capas de livros de Franzen – imagens do Google

E o que aconteceu naquela tarde ensolarada em Paraty é que Franzen não tocava bem ao vivo. Quando lhe perguntaram como era o seu processo criativo, meu coração de amante de leitura e tão impressionado com o ensaio foi ao pé. Ele parecia um pouco perdido, tímido demais, e extremamente simplista. Tudo parecia tão superficial. Como aquele homem de óculos, que parecia falar com descrença sobre sua própria literatura, podia ser o escritor do ensaio que eu lera? Senti-me ingênua – como pude definir uma pessoa por um único texto? Havia, no entanto, uma salvação: comprara uma edição de Como Ficar Sozinho, livro de ensaios com o texto que parecia ter-me iludido. Podia tentar falar com ele e pedir um autógrafo.

franzen_2.2Senti que precisava puxar papo, desvendar aquele homem que me enganara tão miseravelmente. E, não sei como cheguei a esse assunto, falamos sobre observação de pássaros, naqueles curtos minutos. Para minha infelicidade, ele tinha um tom arrogante ao falar e me disse que eu deveria aprender a observar pássaros. Em vez de falarmos de literatura, restou a trivialidade. E acabou meu tempo. Desperdiçado. Sai com a assinatura no livro e o coração desapontado. De volta após a viagem, Como Ficar Sozinho foi exilado a um espaço na estante, enquanto outras obras que trouxe, como Open City, do talentoso Teju Cole, foram lidas vorazmente.

Quatro anos depois, acidentalmente, meus olhos reencontraram Franzen na prateleira. Antes que mudasse de ideia, minha mão o alcançou e espanou o pó. Precisava buscar uma reconciliação, ou pelo menos superar aquele mal-estar deixado há alguns anos.

Ensaio após ensaio, o Franzen que se desnudava perante meus olhos era outra pessoa. Alguém preocupado com a escrita, com a literatura, mas igualmente com gosto pela reportagem e pela reflexão sobre sua sociedade. E em crise por causa do romance norte-americano contemporâneo! Sobre esse tema, o texto “Qual é a importância?” apresenta um autor atormentado por questões como o mercado editorial e o processo criativo. Não parecia o mesmo Franzen que eu conhecera. E, depois de ler aquele ensaio, fiz as pazes com ele. A surpresa, no entanto, viria com “O fradinho chinês”, em que ele revela a sua paixão por observar pássaros. Agora entendia a insistência, que me soou como arrogância, sobre o tema…

franzen_3O que acontecera de errado? A memória humana reconhecidamente nos trai, mas só tenho as lembranças que o encontro deixara em mim, pois não criei nenhuma entrada em meu diário na época. Se tive contatos inesquecíveis com Adonis, Alejandro Zambra e Teju Cole, foi porque não levei nenhuma expectativa sobre eles na mala? Provavelmente. Reconciliei-me com Franzen, enfim, anos depois, apagando o incômodo que ficara. E seu livro agora tem lugar cativo em meu criado-mudo.

Giovanna Ramalho é formada em Letras pela USP, tradutora e gerenciadora de redes sociais.

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