Campos do Jordão: a literatura vence a tuberculose

Por Benilson Toniolo

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Não é segredo para ninguém que Campos do Jordão, encravada no alto da Serra da Mantiqueira, nasceu com clara e rara destinação: salvar pessoas da morte. Literal e literariamente. Senão, vejamos: fundada em 1874 por um empreiteiro português (de Pindamonhangaba, ó pá!) chamado Matheus da Costa Pinto, que sofria dos pulmões (era o que se chamava, à época, de ‘respirante’) e que, tendo adquirido parte das terras do Brigadeiro Manoel Rodrigues Jordão, para cá se transferiu tamanho o bem-estar que sentia quando por aqui aportava.

E o clima do alto da Serra da Mantiqueira fazia tão bem ao gajo que não titubeou em mandar construir, em suas terras (denominada Vila de São Mateus do Imbiri), um pouso para respirantes, uma escola e uma igreja em louvor a Nossa Senhora da Saúde, cuja imagem mandou vir do Rio de Janeiro. Assim começou, portanto, o povoamento daquela que no futuro seria chamada, entre outros epítetos heróicos, de ‘Altar da Solidariedade Humana’.

campos_2Com a construção da Estrada de Ferro em 1914 (iniciativa dos médicos sanitaristas Emilio Ribas e Victor Godinho), que tornou possível e menos penosa a subida da serra (cujo acesso até então se dava somente através de liteiras, bangüês e no lombo dos cavalos e mulas) a Cidade passou a ficar conhecida pela eficácia no tratamento de uma das grandes moléstias do final do século XIX e começo do XX: a tuberculose, cujo contágio direto, de pessoa para pessoa, aliado aos hábitos de tabagismo e alcoolismo, entre outros, dizimou muitos de nossos grandes valores intelectuais e artísticos.

Não é por outro motivo que a doença ganhou um apelido raro: ‘doença dos poetas’, tamanha a quantidade deles a perder a vida em razão do mal. Só pra ficar na esfera dos versejadores tupininquins, lá vai: Castro Alves, morto aos 24 anos; Cruz e Sousa (cuja qualidade literária dava engulhos em Anatole France pela indiferença que lhe dedicava a academia brasileira), aos 36 e Álvares de Azevedo, aos 20 – quase um púbere.

Vida desregrada, boemia, álcool e tabagismo: era – e é!- este o quadro perfeito para o desenvolvimento do ‘mal do século’ entre os escribas brasileiros antes, claro, da popularização da penicilina.

Com o passar do tempo, graças às características do clima (muito parecido com o da Suíça, mundialmente conhecido pela eficácia no tratamento) e dos hábitos da Cidade, aliadas aos recursos dos sanatórios que, ao longo do tempo, foram sendo construídos, Campos do Jordão ganhou notoriedade nacional pelo alto índice de recuperação de pacientes que, ao chegar, estavam desenganados e subiam a serra ‘para morrer’.

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Mapa da Estrada de Ferro

Entre eles, claro, muitos poetas e escritores. O pernambucarioca Nelson Rodrigues, por exemplo, narrou com terror e resignação o procedimento de pneumotórax (o mesmo de Manuel Bandeira, que aliás visitou a Cidade e detestou a calmaria) aplicado em um companheiro de quarto que acabou indo a óbito. Paulo Dantas, sergipano, autor regionalista e romancista de vulto, grande estudioso de Guimarães Rosa e que obteve de Monteiro Lobato carta de recomendação para poder se tratar em uma das pensões da Cidade.

“Não tinha roupa, ou só tinha um terno; não tinha meias, e só tinha um par de sapatos; trabalhava demais e quase não dormia; e, quantas vezes, almocei uma média e não jantei nada? Tudo isso era a minha fome, e tudo isso foi a minha tuberculose”. Nelson Rodrigues.

O próprio José Bento, que teve os filhos Guilherme (o caçula) e Edgard (o mais velho) internados na Cidade e perdeu-os para a doença, pouco tempo após terem obtido alta médica (o local onde existia o sobrado onde a família Lobato residiu durante esse período foi recentemente identificado com uma placa), Martins Fontes, Rui Ribeiro Couto (pra ficar só nos santistas), Guilherme de Almeida e, mais recentemente, a celebrada Orides Fontella, cujos despojos somente agora foram exumados e enviados para sua cidade natal, São João da Boa Vista, foram apenas alguns nomes de grandes autores brasileiros que buscaram os altos da Serra da Mantiqueira para tentar recuperar a saúde. Nem todos conseguiram, como a própria Orides.

campos_4O que pouca gente sabe, entretanto, é que a presença de doentes ‘ilustres’ durante a parte grande parte de sua História, e que antecedeu o Ciclo de Turismo, fez com que Campos do Jordão acabasse por se tornar um núcleo considerável de produção literária. É que durante o período de internação, quando a reclusão e o descanso absolutos eram fundamentais e a recuperação e o restabelecimento já se avizinhavam, os internos eram obrigados a enfrentar a tediosa rotina, a inescapável solidão e a vontade de voltar pra casa. Tudo isso, aliado à bucólica paisagem da montanha, se constituía no convite perfeito para os ‘formigamentos do espírito’ e à beletragem (como dizia José Bento), à qual invariavelmente se dedicavam. Daí para a organização de saraus foi um pequeno passo. Em pouquíssimo tempo, as pensões e os sanatórios passaram a se converter em palco para inesquecíveis encontros. A própria dona Purezinha Lobato tinha uma prima – de mesmo nome e apelido-  proprietária da Pensão Azul, em Abernéssia, para onde as pessoas se dirigiam para celebrar entre cantorias e declamações a amizade, a saúde e, claro, a Literatura, que acabava por atuar como elo indivisível entre a Vida –que esteve por um fio- e a Esperança que, renovada, trazia de volta à superfície alguns dos mais relevantes nome do pensamento brasileiro – que, graças ao clima e ao tratamento que receberam em Campos do Jordão, a morte não conseguiu levar.

Benilson Toledo é o atual secretário de educação da cultura de Campos do Jordão, além de escritor. Dentre suas produções literárias encontramos: Poemas Jordanenses, Sandálias Paternas, Mar de Amares, As Margens do Coxipó, Marés e Serranias, Canoeiro, produção de poemas. Publicou Contos, como Porró do Beco das Almas, Casos ao Acaso. Crônicas: 50 Artigos Publicados, Centenário Dr João Pedro Alem e mais uma porrada de artigos, conferências, etc. É Membro das Academias de Letras de Bauru e de Campos do Jordão.

Para saber mais:

Floradas da Serra(1949) ,escrito por Dinah Silveira de Queiroz .em 1949 .baseado no romance de Romance que descreveu o isolamento de adolescentes recolhidas em uma pensão para moças em Campos de Jordão. Em 1954, o italiano Luciano Salce dirigiu filme homônimo baseado nessa obra.

http://www.fundacaoataulphodepaiva.com.br/blog/tuberculose-do-suplicio-a-inspiracao-literaria-2/

Transcrição de Carta de Monteiro Lobato durante sua estadia em campos do Jordão para se tratar da tuberculose.

http://www.camposdojordaocultura.com.br/fotografias_hom_det.asp?Categoria=9&Subcategoria=113

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