A importância do papel da voz feminina na sociedade

Por Dani Damma

dani_1Ana Cristina César ou simplesmente Ana C. foi a escritora homenageada pela Flip 2016.

Dado o motivo das ruas um pouco mais vazias e tranquilas do que o normal durante o tão esperado festival, circulou por alguns jornais e na boca pequena que a Flip homenageava uma autora desconhecida até então do público médio.

Neste ano, a Flip reconhece fortemente o momento em que estamos vivendo, abrindo espaço para uma Flip voltada para as mulheres.

A Flip traz à luz a figura de uma escritora moderna e que marcou sua época. Que pena não ter dado tempo de conhecê-la melhor, não é mesmo?

A literatura tida como séria e escrita por mulheres é um divisor de águas, pois existe, ainda, uma cultura do patriarcado e a nossa linguagem vai se baseando nessas interações culturais e sociais, nesse imaginário coletivo que norteia nossa moral sobre certo e errado. E nós, mulheres, estamos em busca do empoderamento da figura e da importância da mulher não mais como coadjuvante na construção da sociedade, mas como parceira.

Ana Cristina Cesar, ou Ana C., como era conhecida, nasceu em 1952 no Rio de Janeiro. Sua biografia é entrecortada de idas e vindas do Brasil e sua escrita transitava do jornalismo à televisão. Formou-se em Letras (quanto orgulho!) em 1971, pela PUC RJ e mestre em Teoria e Prática da Tradução Literária em 1981 pela Universidade de Essex da Inglaterra. Lançou seus primeiros livros em edições independentes: “Cenas de Abril” e “Correspondência Completa”.

Ana C. foi uma mulher de múltiplas vozes: ensaísta, tradutora, escritora. Foi poeta atuante do movimento carioca da poesia marginal.

A chamada Poesia Marginal ou Geração Mimeógrafo foi um movimento literário brasileiro (entre os anos 1970 e 80) que nasceu devido à censura imposta pela ditadura civil-militar. Esse tipo de movimento foi assim chamado devido à circulação das obras por meios alternativos: as pequenas tiragens eram mimeografadas e comercializadas a baixo custo e vendidas de mão em mão.

Esta mulher era fantástica. O seu estilo em relação à escrita é um paralelo entre o ficcional e o autobiográfico.

Conhecida ou não, o fato é que penso na importância de escritoras como ela.

Em seu livro “A Teus Pés”, de 1982 são longos textos apresentando tom de conversa, em que questionam a sociedade conservadora e o lugar nela destinado à mulher.

A existência de uma literatura dita feminina é tema de seus ensaios: interessada em problemas teóricos como as relações entre literatura e história, invenção e confissão. Assim percebe-se a importância dessa ficcionalidade que permeia seus textos de cunho autobiográfico.

Ela questionava o papel da mulher na sociedade. E, hoje, quando pensei neste tempo que me dedicaria a escrever este texto, pensei em muitas outras mulheres, cada uma em seu tempo, e vieram a minha mente mulheres de referência de minha família e de outros círculos. Mas senti que deveria ressaltar algumas escritoras, afinal como não falar (que fosse uma linha sequer) sobre outras autoras importantes como Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector e Marina Colasanti?

dani_2Todas elas tiveram um papel de abertura de portas para a literatura escrita por mulheres.

Lygia Fagundes escreveu os maravilhosos romances “Ciranda de Pedra” e “As Meninas”. Já Marina Colasanti escreveu sobre a sexualidade da mulher, escreveu contos de fadas, e, inclusive, tem uma tríade que questionam lindamente as questões de moradia (física, teórica, literal e literária: leia-se também o outro como moradia), posicionamento e descoberta do eu, além de questionar a arte de relacionar-se com o outro.  Versam sobre estes temas os livros já inclusive reeditados e esgotados das prateleiras: “A morada do Ser”, “Zoológico” e “Contos de Amor Rasgados”.

 E, finalmente, Clarice, que me faltam quase sempre palavras para descrever esta mulher. Nem precisa dizer o quanto ela fala da situação dos que estão à margem: nordestinos e a mulher. Em seus escritos, esta escritora também fala, constantemente, da questão do lugar da mulher, ou, do lugar que lhe é imposto na sociedade.

Ainda sobre todos estes questionamentos lemos seus contos com o deslumbre de uma primeira vez, pois a cada releitura descobrimos coisas novas que não estavam ali antes. Clarice quase sempre nos descobre ao invés do contrário. São contos como Felicidade Clandestina, Restos do Carnaval, O Búfalo, Amor, A imitação da rosa, Devaneio e embriaguez duma rapariga entre tantos outros.

Também tivemos a oportunidade de conhecer o lado mãe da escritora, que, para atender ao desejo dos filhos, escreveu narrativas infantis como em: “O Mistério do Coelhinho Pensante”, “A mulher que matou os peixes”, “A vida íntima de Laura” e “Quase verdade”. Vemos em sua escrita um estilo muito pessoal, uma tentativa em alcançar e assim expressar sentimentos e anseios íntimos, próximo da poesia. Vemos seus personagens lidando com situações muitas vezes cotidianas, mas que em dado momento epifânico agem refletindo questões sobre vida e morte e essa continuidade da vida que transcorre como a imensidão do mar.

Lygia precisava ser vista como uma escritora de verdade e seria com o tempo, mas isso só aconteceu rapidamente quando a taxaram como “essa menina é estranha, escreve feito homem”.

“Eu era estudante de direito, uma jovem estudante de direito, de boina, com os livrinhos e tal. E completamente discriminada. Até parece que eu estou falando na idade da pedra lascada. Não (risos) eu tava na… quarenta e poucos, né? Eu lançando meu livrinho de contos Praia Viva na faculdade, eu sentia a discriminação. Esta discriminação fez com que quando eu publicasse o livro, eu ficasse felicíssima porque um cronista escreveu o seguinte: esta menina é estranha, ela escreve feito um homem, feito um homem barbado. Eu fiquei na maior felicidade (risos). Porque esta… este era o maior elogio – escrever como homem.”

A escrita feminina, quando se considera boa, é vista como masculina.

Acredita-se que a mulher e o homem têm escritas e pontos de vista ligados estritamente à concepção do seu próprio gênero biológico. Mas, o preconceito está em acreditar que está enraizado em nossa concepção e visão de mundo, porém isto tem mudado.

Logo, dialogamos a partir da oração “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”, que escreveu Simone de Beauvoir em seu livro O Segundo sexo. A escritora e feminista francesa procurou entender que lugares sociais pertenciam aos homens e que lugares pertenciam às mulheres, não aos seus destinos biológicos, mas percebendo as condições do ser, posições sociais que transitam a figura do homem e a figura da mulher na formação da sociedade ocidental.

A teórica também procurou entender estas diferenças alertando que a mulher era sempre tratada como o Outro, como secundário, daí o título “O Segundo sexo”. Obviamente essas diferenças são compreendidas na percepção em que eram produzidas e mantidas no âmbito social e cultural. Portanto, ser homem ou ser mulher estaria ligado a uma série de significados culturais a partir de uma definição de sexo: macho ou fêmea e seus papéis biológicos.

Mas, afinal, o que nos faz, nos diferencia e nos divide?

 A mulher é uma construção social, vista sempre como musas, endeusadas, perseguidas desde Adão e Eva como ser que tem o poder de enfeitiçar e levar o homem a verdadeiras insanidades. O homem não se vê como parte do problema, ele é sempre levado a cometer erros devidos e motivado pelo desejo provocado pela mulher, afinal quem nunca ouviu o errôneo termo “crime passional”, responsável em justificar os assassinatos cometidos por homens.

Clarice Lispector falava sobre ausência e estava em constante procura por um lugar que se encontrasse; sua poesia era uma filha dos horrores de uma guerra. Lemos uma culpa e uma necessidade de punição na maioria dos contos. Há esperança, mas ao mesmo tempo a realidade é tão cruel que a esperança chega a se tornar apenas uma ilusão.

Como dizer que esta mulher escrevia sobre a condição da mulher porque ela era mulher?

É uma boa problemática que versa a história desta mulher: ela escrevia por sentir  um anseio pessoal, ela buscava por respostas que marcaram a existência dos seres humanos, assim como Simone de Beauvoir no final do livro O segundo sexo afirma a necessidade de buscarmos a igualdade entre homem e mulher compreendendo-nos como humanos.

dani_3Clarice sentia-se excluída da família, da vida, da terra natal que não chegou a conhecer?

Clarice não se sentia presa a nada, é o que me parece sempre que a leio; sua produção literária está em busca da aceitação e acolhimento. Há uma triste busca por aceitação e respostas pela razão de sua existência.

Escrever transcende a delimitação de gêneros, no entanto cabe lembrar que o gênero é algo que existe em nossa sociedade.

Então, quando Lygia Fagundes Telles recebeu a crítica sobre seu livro em que foi reconhecida por “escrever como homem” este: “como um homem”, tende a uma comparação que sobrepõe uma forma de se expressar a outra.

Ana C, fruto da geração 70 – 80 inserida num contexto de Revolução sexual e pós-ditadura, procurava essa voz feminina e questionava seu papel como escritora, assim como as demais autoras que a anteciparam.

Nesta singela reflexão sobre a escrita feminina adentro o pensamento de Ana C. que penso ter tido uma produção poética mais silenciosa marcada por uma escrita competente, além de uma delicadeza e de uma solidão tocantes da chamada geração mimeógrafo.  Ao lado de Caio F. (sim! porque a grandiosidade pode ser sim abreviada) e Leminski. Silenciosa, a escrita de Ana C. vai entrando devagarinho, e quando vemos estamos encantados pela delicadeza pungente de sua escrita. Sua escrita é solitária, solidária, crítica e madura. Musa. Sereia. Mulher. Ana é um enigma, esfinge carioca que pousa inerte sob o céu da beleza da orla do Rio de Janeiro.

Soneto

Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu

Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida

Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina
E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor
Ou é um lapso sutil?

Ana C.

E nós, o que buscamos? Somos almas solitárias em busca de reconhecimento, ou apenas que o outro nos enxergue livre de filtros e gêneros?

Quem são as novas vozes desse tempo? O que te inspira? O que te instiga?

Cabem aí esses questionamentos também, não?

Aguardamos sugestões e, enquanto isso preparei, para vocês uma playlist e uma lista de autoras e obras que valem a pena conhecer!

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PLAYLIST

Filarmônica de Pasárgada – FIU FIU (CLIPE OFICIAL Com Laerte e Participação especial: Tom Zé e Tatá Aeroplano)

https://www.youtube.com/watch?v=Bsrq8qv8Uig

Mafalda – En Guerra  (https://www.facebook.com/mafalda.banda)

https://www.youtube.com/watch?v=NSHvI_nz71U

Ana Tijoux – Antipatriarca

https://www.youtube.com/watch?v=Jjfl_JuWy9s&list=PLQzPqlufRrwtL6q7Oc4stJU9yjSic1S5

Yzalú – Mulheres Negras

https://www.youtube.com/watch?v=122kwdWN-v0&list=RD122kwdWN-v0

Tábata Alves – Mundo Frio ( Prod. Indião) VÍDEO OFICIAL

https://www.youtube.com/watch?v=-npBEzWlu20&index=13&list=PLQzPqlufRrwtL6q7Oc4stJU9yjSic1S5H

Manuela Tecchio – A Louca

https://www.youtube.com/watch?v=VzIE8pHJQwo&index=10&list=PLQzPqlufRrwtL6q7Oc4stJU9yjSic1S5H

Camila Lopez. Basta.  Se trata de nosotras

https://www.youtube.com/watch?v=MgEsjTViLfE&index=43&list=PLQzPqlufRrwtL6q7Oc4stJU9yjSic1S5H

Clarice Falcão – Survivor https://www.youtube.com/watch?v=NlxFf40Lqx4

Vanessa Bumagny – O Segundo Sexo

https://www.youtube.com/watch?v=CIHraS098tM

BOOKLIST

Um útero é do tamanho de um punho. Autora: Angélica Freitas

Poética. Autora: Ana Cristina César

Sylvia não sabe dançar. Autora: Cristiane Lisboa.

Todos nós adorávamos cowboys. Autora: Carol Bensimon

A Vez de Morrer. Autora: Simone Campos 

Fugitiva. Autora: Alice Munro

Persépolis. Autora: Marjane Satrapi 

A Mulher Desiludida. Autora: Simone de Beauvoir

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