TRANSarau

Fotos de Michelle Mendonça e entrevista concedida à Revista Escrita Pulsante

A seguir, apresentamos uma breve entrevista com os responsáveis pelo projeto!

1­) Nós da Revista Escrita Pulsante estamos contentes em iniciar este bate papo sobre o cursinho pré­-vestibular que atende a um público específico o qual promove acesso de qualidade à transexuais. Como nasce este cursinho pré-­vestibular?

A iniciativa começou a ser planejada em janeiro de 2015, dentro do Curso de Formação Política LGBT promovido na cidade de São Paulo pela Frente LGBT da PUC-SP em conjunto com a Federação Nacional dos Estudantes de Direito (FENED). O Curso, realizado ao longo de quatro dias na unidade Consolação da PUC-SP, focou as questões da população e das identidades T. À época, os participantes identificaram a cultura e a educação como principal gargalo da inclusão social de pessoas T e, ao mesmo tempo, um dos principais espaços de reprodução da discriminação e marginalização deste grupo. Assim, um grupo de organizadores e participantes se uniu e formulou a proposta de um Cursinho Popular exclusivo para pessoas transexuais e travestis.

Entre janeiro e junho de 2015, foi realizado um processo de pesquisa e consulta com atores relevantes que pudessem, com seus pontos de vista, ajudar a direcionar e estruturar a atuação estratégica do futuro Cursinho. Conversamos com pessoas em locais de acolhimento da população LGBT, centros de referência, militantes do movimento LGBT e do movimento de pessoas transexuais e travestis, a Frente de Cursinhos Populares de São Paulo e pessoas da área de educação. Dentre os muitos pontos levantados, o mais frequente e significativo foi o dilema entre optar por um modelo tradicional de cursinho, com estudos focados na prova do ENEM, ou preferir uma formação crítica que privilegiasse o empoderamento e o fornecimento de condições para a emancipação das/dos estudantes. Diante deste questionamento, decidimos adotar um caráter experimental para o primeiro semestre do Cursinho, denominado semestre-piloto, para reunir os subsídios e experiências necessárias para um direcionamento estratégico duradouro.

Firmamos uma parceria com a ONG Pela Vidda, que nos cedeu uma sala no Centro de Referência e Defesa da Diversidade (CRD), equipamento da Prefeitura no bairro da República. Nos agradou o fato do local estar situado em uma região de alta circulação de pessoas transexuais e travestis e que, portanto, já estava envolvido nas relações de territorialidade que contribuiriam para o interesse e permanência da turma. Passamos para as últimas etapas de preparação do projeto: a busca por professores, a estruturação de um modelo de gestão do Cursinho e a atração e inscrição de estudantes.

Iniciamos o semestre-piloto em agosto de 2015 e dele extraímos uma série de aprendizados. O TRANSarau, realizado em dezembro como encerramento do período letivo, celebrou também nosso crescimento enquanto coletivo, que emergia mais ciente e consciente de seu papel enquanto aliado da população T. Em março de 2016 iniciamos nosso segundo semestre, mais confiantes dos caminhos que devemos trilhar e felizes com a ressonância que o projeto vem exibindo. Temos feito diálogos e parcerias extremamente frutíferas com outros grupos de militância, pesquisadoras/es e outros cursinhos populares.

transarau1

2­) Visto as relações desiguais de gênero que existem em nosso sistema educacional, qual seria o impacto social de uma educação voltada para suprimir as diferentes oportunidades existentes entre heterossexuais e transexuais em nosso país?

Vale esclarecer que a heterossexualidade (questão de orientação sexual) não se opõe à transexualidade (questão de identidade de gênero). As identidades de gênero não-normativas, como transexualidade, travestilidade e não-binariedade são opostas à cisgeneridade – que, a grosso modo, significa identificar-se com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer. Pessoas transexuais e travestis podem ser heterossexuais ou homossexuais.

De todo modo, independente de sua orientação sexual, fato é que as pessoas T estão sistematicamente excluídas dos espaços formais de educação, saúde e trabalho. Os números de evasão escolar (73%), trabalho informal (sendo 90% na prostituição) e transfeminicídio são assustadores. Vemos, portanto, que existe uma parcela da população que não está contemplada naquilo que chamamos de cidadania. Verificamos, ainda, que o Brasil tem falhado em cumprir com suas próprias garantias constitucionais e com a própria Lei de Diretrizes e Bases, que orienta toda a educação no país. Por isso, a implementação de uma educação que contemple a vivência destas pessoas, valorize a riqueza das diferenças e traga mecanismos para construção de relações de alteridade e diálogo, ao invés de relações de violência e exclusão, é um passo para a consolidação de um verdadeiro Estado Democrático de Direito.

Além disso, a criação de condições para a inclusão da população T na educação formal impulsionaria uma inclusão progressiva destas pessoas também no mercado de trabalho, na produção artística e na mídia – não como objeto de retratos e leituras alheias, mas sim como produtoras da própria voz. Só assim conseguiremos recolocar definitivamente a questão da transexualidade na sociedade e, de certa forma, deslocar a maneira como o sistema de gênero produz e reproduz determinadas formas de opressão.

transarau23­) O Cursinho Popular Transformações propõem discussões e atividades que vão para além das apostilas assertivamente voltadas ao vestibular, pois vejo que existem atividades engajadas em formar o cidadão. Em que medida vocês acreditam que estas ações causam impactos positivos nas Universidades, depois do vestibulando ingresso na graduação?

Quando falamos de direito à educação para pessoas sistematicamente excluídas dos espaços de ensino, estamos falando de três coisas: acesso, permanência e sucesso escolar. Estes três aspectos são interdependentes e uma abordagem responsável precisa pensar em todas elas. Quando uma pessoa transexual ou travesti consegue desafiar a lógica do sistema e ingressar na universidade, ela logo se depara com uma série de entraves à sua permanência ali – ausência de garantias de uso de nome social, uso de banheiros de acordo com sua identidade de gênero, preconceito ou desinformação de docentes e funcionários – o que acaba obstruindo também suas possibilidades de sucesso acadêmico.

Estamos em um momento de transição em relação a estas garantias: o ENEM vem gradualmente aprimorando seu mecanismo de utilização de nome social e, atualmente, quase 50 universidades brasileiras admitem o uso de nome social. No entanto, ainda perduram muitas lacunas nesses avanços. A única maneira de preencher estas lacunas é por meio da reivindicação e ação política. No plano coletivo, o ativismo organizado por meio de advocacy, mobilização e campanhas é e tem sido fundamental. No plano individual, as pessoas T precisam estar conscientes da importância de seus direitos e preparadas para fiscalizar seu cumprimento. O Cursinho, com seu foco no empoderamento e no fornecimento de instrumentos para a emancipação, procura apoiar suas/seus estudantes nesse processo.

Em suma, o ingresso de pessoas transexuais, travestis e não-binárias na universidade já é, por si só, um impacto positivo para o universo acadêmico. Mas isso de nada adianta se, logo após a matrícula, a universidade negligenciar a garantia de direitos e as necessidades específicas dessas/es estudantes. Ao promover uma formação crítica e empoderadora, o Cursinho busca estimular que as/os estudantes sejam uma força motriz para que este impacto seja consistente e duradouro..

transarau3

4) A poesia engajada em muitos momentos da história social do mundo apareceu como fomentadora de transformações. No Sarau Trans, fotografado pela colaboradora Michelle Mendonça, a palavra é um fator de transformação? Qual a ideia pulsante que inspira os organizadores a criar estes eventos culturais em um cursinho pré-vestibular?

Ao privilegiar uma educação empoderadora e emancipatória, uma questão e uma estratégia muito importante é a visibilidade. O Cursinho Transformação é um projeto de visibilidade trans. Não pode existir um projeto de justiça social que não opere na visibilidade de sujeitos e populações minorizadas. Acontece que há, no contemporâneo, toda uma ampliação da atenção e da escuta aos movimentos trans, aos corpos trans, aos discursos trans, queers, não-binários, por um lado uma visão/escuta que é fruto dos acúmulos das lutas dos movimentos sociais e, por outro, também hoje operada pelos interesse do capitalismo cognitivo em explorar as margens para extrair elementos inovadores para manter o centro, centro.

É importante comentar que o projeto do TRANSarau envolve Oficinas de Expressão (poesia, música, teatro, performance, desenho, cartazes) que são oferecidas para es estudantes do Cursinho Transformação, capacitando-es a produzir conteúdo poético. E o conteúdo dessa voz historicamente silenciada que encontra relevância no presente, é, necessariamente, inevitavelmente, engajado, político, revolucionário. Foi da proposta de uma educação que almeja o corpo e a expressão, de uma grade curricular que inclui poesia e todas artes quantas houverem educadores dispostos a criar com es alunes, que naturalmente, mais do que naturalmente, nasceu a ideia do TRANSarau.

Desde a primeira edição, que pusemos de pé em duas semanas, o TRANSarau foi um ímã de representatividade trans negra, periférica, de rua, LGBTQIA e reuniu mais de 150 pessoas com talentos apurados, cantoras, compositoras, performers, desenhistas, poetas, corpos que se expressam com requintes de profissionalismo e a ousadia que só há no amadorismo, capacidade de quem ama. O sucesso de público, de alegria, de empoderamento nos deu indicativos de que, com liberdade e respeito, a cultura T se revela entre as mais legítimas do cenário sociocultural.

TRANSarau é o que é, porque o Cursinho Transformação já nasceu com o entendimento prático do que disse Magô Tonhon, durante nossa segunda Formação Política para Professores, citando Clarice Lispector: “A palavra é o meu domínio sobre o mundo”.

transarau4 transarau5 transarau6

2 comentários sobre “TRANSarau

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s