Aula prazerosa viajando: aprender com prazer

Por Juliana Das Oliveiras

Diante das novas tecnologias da informação, as aulas estão a cada momento mais nas mãos dos alunos e menos nas mãos dos professores. Em segundo lugar, quero propor uma reflexão sobre a importância histórica, documental e cultural “das viagens de passeio” que, embora dissociada da aprendizagem formal, é um recurso importante para se passear pela História retratada nos monumentos. Aprender com prazer!

Quando eu era aluna do Ensino Fundamental e começaram as aulas de História, tinha muita dificuldade em memorizar as informações, as datas e os fatos históricos destacados pelas professoras. No final do Ensino Médio, na segunda tentativa do vestibular, pasme! Escolhi Licenciatura Plena em História.

Logo, me meti a fazer tudo o que a UFRPE me oferecia. E entrei num grupo de pesquisa sobre pinturas como recurso didático no ensino da História, porque entendi que o que podemos aprender com a História é muito mais importante e significativo do que até então me havia sido apresentado, faz parte de nossa formação cidadã e política. E, para mim, o mais importante era o meu papel na sociedade, a minha contribuição na História. Todos somos parte da História da Humanidade.

Na busca por recursos didáticos podemos encontrar o Turismo Pedagógico (TP) que tem influências datadas do século XVII, considerando os documentos encontrados até o momento. Neste pequeno texto vou apresentar a prática dos grand e petit tours que aconteceram na Europa e culminavam no fechamento da formação dos lords ingleses.

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James Grant of Grant, John Mytton, the Hon. Thomas Robinson, and Thomas Wynne by Dance, Nathaniel, c1760. © Yale Center for British Art, Paul Mellon Collection

A aristocracia inglesa – os gentry: a classe média urbana, burgueses prósperos e emergentes do setor industrial, artistas amadores­ –, completavam a formação escolar de seus filhos com um Petit ou Grand tour. Propunha-se aos alunos vivenciar in loco os conhecimentos adquiridos na escolarização, na cultura, no idioma, também uma oportunidade para aprender coisas novas, para desenvolver habilidades sociais, relacionar-se com os pares e com os professores/tutores.

Viajavam pelo mais puro prazer e interesse pela cultura, por aprender um ou mais idiomas, ganhar horizontes geográficos e culturais.

Edificar-se e distrair-se. Há relatos desses jovens, naturalmente, exagerando no experimento do desconhecido, das bebidas etílicas de culturas ainda não dominadas, enquanto apreciavam certa liberdade a considerar às pressões das famílias tradicionais e todo o peso das expectativas que fazem diante de si.

E por isto há alguns críticos contrários aos grand tours: oras, estes jovens dedicavam-se à esbórnia e não faziam jus aos investimentos. Mas será que o simples fato de sair de seu entorno controlado e protegido já não causariam aprendizagens? Será que apenas aprendemos sentados em cadeiras devorando livros nas bibliotecas? Precisamos estar sérios, com caras fechadas para demonstrar e garantir conhecimento?

viajando3Seguindo a tradição estabelecida pelos jovens romanos quando viajavam à Grécia para melhorar sua compreensão dos autores clássicos e completar satisfatoriamente sua educação. Nos séculos posteriores, os jovens da nobreza empreendiam o Grand Tour com um objetivo similar ao que atualmente entendemos por turismo cultural ou turismo pedagógico: viajar com certa veneração e um desejo de (re)conhecimento da cultura.

Estas viagens tinham por objetivo primordial ensinar aos jovens candidatos a diplomatas, políticos, advogados, cortesãos, guerreiros e militares, os sabores e os êxitos dos Estados europeus modernos. Sobretudo na parte italiana – o esplendor das antigas civilizações gregas e romanas tinha como principal finalidade formar o corpo de cidadãos bem capacitados. O grand tour em seu momento constituía uma ciência, muito mais que uma atividade de ócio, um componente curricular a mais entre os lord ingleses.

O grand tour exigia uma preparação, pois a viagem demoraria meses e poderia chegar a um par de anos. Despediam-se dos entes queridos, além de ler diários de viagens de outros grand tourists, relatos de viagens, coleções de visitas de lugares (estes três formavam o que podemos chamar hoje de guias turísticos impressos), prospectos, tratados e obras literárias renascentistas influentes nas artes e na arquitetura, livros de autores expertos na arte e história, e toda gama de informações que se conseguissem.

Precisavam providenciar: carta de recomendação, carta de apresentação, salvo condutos, bilhetes de amigos para que se pudesse ascender às coleções particulares, já que ainda não existiam os museus; bem como aos comerciantes referenciados, nomes e contatos de guias locais, banqueiros, diplomatas, estudiosos, artistas, desenhadores, hospedarias e acessos necessários para que ocorresse a viagem. Os que conseguiam fazer aulas de desenho podiam esboçar algo nos diários de viagem, e assim se enriquecia a informação e favoreceria o sucesso da publicação.

viajando4Um dos diários mais famosos é o escrito por Johann Wolfgang von Goethe e inspirou o livro de Cesare de Seta.  A principal rota está destacada por Alan Carroll num mapa antigo do continente europeu.

Durante a viagem, a produção do diário de viagem era um ponto importante para que outros grand tourists pudessem utilizar como referencial e como registros das viagens. As negociações também precisavam acontecer a todo o momento. O Grand tour era uma viagem insegura, de furtos de bagagens pelos carregadores, nas hospedarias comuns; assassinatos, cansaço, incomodidades, aventura, muitos gastos, muitos contratos, imensas bagagens, grandes períodos de deslocamentos, possíveis desalentos nas viagens; nas embarcações, náuseas e vômitos.

Todo este sacrifício para o deleite cultural e intelectual do corajoso grand tourist, que depois passaria a exibir seus conhecimentos e familiaridades com o antigo, com a arte, a arquitetura e a literatura clássica; publicaria seus diários de viagem e participaria de uma sociedade como a Society of Dilettanti: fundada em Londres entre o 1734 e 1736 para fomentar pesquisas e doações de bolsas de estudos, também publicavam e legitimavam os achados.

Ao observar, contemplar, representar ruínas, monumentos, paisagens naturais, pinturas, esculturas, havia prazer, mas também educava e oferecia desafios, especialmente, aos artistas que buscavam soluções para restaurar técnicas de ruínas, cores, texturas, ervas que brotavam. Ganhava-se, em troca, status social, admiração e solução para um desafio profissional.

Graças aos movimentos do grand tour houve o reconhecimento, localização e identificação de patrimônios através das descrições visuais dos monumentos. A conservação e preservação dos patrimônios históricos e pré-históricos foi desenvolvida; a Arqueologia, nasceu a História da Arte e, principalmente, o aprender com prazer fora dos convencionais centros educativos, reconhecendo outros espaços como uma “sala de aula”, como um espaço para aprender, educar, ensinar.

A necessidade de sair das circunstâncias comuns de estrutura escolar é percebida e promovida a partir do século XVII para ampliar os conhecimentos e habilidades a serem desenvolvidas pelos estudantes através dos grand e petit tours. Em muitos momentos, há relações com a natureza como fonte de investigação e aprendizagem ou bem de cuidados com a saúde.

De toda esta experiência somada às classes-passeios ou de descobertas – que promovia aos estudantes conhecer o meio ao arredor – de Célestin Freinet, na década de 1930, na França, vão fazer chegar ao Brasil e ser reinterpretada pelo Turismo Pedagógico.

Ou seja, a saída ao espaço fora da escola com a possibilidade de explorar o meio, ainda que num entorno escolar, motiva o alunado. Pois o TP é uma exploração do espaço e do ser humano, é uma atividade extraclasse ou metodologia de ensino, é uma alternativa para que a aprendizagem se produza fazendo uma ligação entre teoria e prática. “(…) a capacidade de promover o desenvolvimento humano, social e educacional, que baliza a utilização do turismo como atividade que serve ao ensino.” (Spíndola da Hora & Cavalcanti, 2003: 208).

O Grand Tour é uma “receita” para a utilização do TP na função de educação formal. Sua importância é reconhecida até hoje, como podemos verificar na imagem 3, na propaganda de um curso sobre o assunto no ano de 2013. O TP está atado ao prazer, à capacidade formativa de estudantes de todas as idades e modalidades, ao desenvolvimento integral da pessoa com favorecimento a uma experiência significativa e prazenteira, podendo conectar a matriz curricular às saídas, aos temas transversais, educação patrimonial, educação ambiental e especialmente à formação cidadã.

Sem embargo, é necessária a formação do olhar dos discentes, que necessitam de uma preparação prévia sobre o que buscar o que prestar mais atenção, permitindo-se como turista em sua própria cidade, o deleite e a valorização do patrimônio material e imaterial local.

Patrimônio pode ser enxergado como o legado, a herança deixada que é de valor identitário, que todo grupo social possui e manifesta por meio de bens patrimoniais e culturais.

Quanto existe de monumentos, hoje, ainda preservados e demonstrando muita riqueza e importância, que foi erguido por pura vaidade de algum rei, ou de algum outro tirano? Fazendo exercícios para sair do fantástico e chegar ao real, mantendo uma postura de visitante crítico, dialeticamente relacionando-se com o contexto e o ambiente. O corpo docente, ao pensar em vivenciar com seu alunado o TP, deve ter em mente, como parte da receita, atividades que preparem a conversão e reconversão da mirada dos estudantes ou, inclusive, a sua mesma.

Juliana Das Oliveiras é licenciada em História (UFRPE), Bacharel em Turismo e Doutoranda em Educação (Didática e orientação escolar), pela Universidad de Valladolid (UVa), Espanha.

Para conhecer mais: referências externas

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