A duração das paixões

Por Priscila Silva

Estudos dizem que as paixões duram de 18 a 48 meses, dentre os quais ocorrem estados de euforia, dependência emocional, saudades intensa, tudo ocasionado por hormônios que tomam conta do ser apaixonado. Mas existe um limite, e então se transforma em amor. Ou, não.

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Ilustração 1: Finders Keepers , da série: Has art ever stabbed you in the heart like a knife? (Tradução livre : A arte alguma vez já te esfaqueou com uma faca no coração? ).Artista: Chiara Bautista.

Por que seria tão difícil acreditar que haja amor eterno? O amor compartilhado, cultivado e alimentado pode crescer, se multiplicar, e durar. Nós, descrentes de paixão e confiança no outro, colocamos limites e barreiras em nosso caminho. Sem querer, criamos histórias paralelas para preencher o vazio que o outro nos deixa com a sua ausência, inclusive histórias destrutivas. E assim, destruímos o amor que havia e inutilizamos o solo para amores que viriam.

E as histórias paralelas não duram, ao contrário, retomam vestígios do amor antigo, buscando semelhanças para confortar a falta e tentar sobreviver. Histórias paralelas, no entanto, ainda repletas de vida e de plenitude, mas que não são o enredo principal. Somos heróis de um romance boicotado por nossa própria descrença e insatisfação com o mundo e com o outro.

Não aceitamos as diferenças, não compreendemos a diversidade e não discutimos mais a relação. Nossos heróis favoritos sofrem há séculos por amor, e assim seguimos, também sofrendo. No entanto, há uma imensa diferença entre nossa geração e a de nossos heróis: criamos nossas próprias barreiras e impedimentos; muros erguidos entre nosso coração e o mundo, na tentativa de nos protegermos da dor.

Tristão e Isolda, Romeu e Julieta, Iracema e Martin, Jack e Rose, obras literárias adaptadas para o cinema, amaram intensamente, e seus amores transcenderam a vida terrestre, encontrando a morte. E nós, seres modernos em pleno século XXI, reclamamos da toalha molhada sobre a cama ou da mania de limpeza do outro.

Cantamos canções tristes, cuja beleza e sentimento comovem e causam empatia, mas que no fundo não nos refletem mais, pois a nossa tristeza não é pura: é tristeza artificial, burocrática, registrada nos romances atuais com final feliz patético ou de desgraça imensurável. Tudo conforme o script do homem moderno.

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Ilustração 2: Loneliness Is Dangerous (Tradução livre : A Solidão é Perigosa). Artista: Ed Vebell

Em tempos de “amor líquido”, fazendo referência ao sociólogo mais citado em nossa atualidade, Zygmunt Bauman, a impressão que temos é que não existem mais bases sólidas para se construir um amor duradouro. E não há paciência, nem compreensão, nem mesmo vontade de compreender. Se paixões duravam três anos, em tempos de liquidez, duram três meses: às vezes intensos, por vezes marcantes, às vezes inesquecíveis e não vividos plenamente, deixando-se cair nas histórias tristes de amores não amados.

Nossas histórias se desfazem em prantos e poemas mal escritos de gaveta. São raras as histórias de amor em tempos de liquidez, mas são muitas as histórias de paixão avassaladora.

Somos apaixonados por histórias, por imagens, por acontecimentos, pela vida. Adoramos os clichês que ocorrem em nosso dia a dia, e ainda esperamos por um final feliz ao longo desta sofrida jornada. Porém, no final das contas, o que prevalece é a esperança no amor, mesmo que a gente o sinta por um dia, um mês, um ano, ou uma vida (se tivermos sorte). Em tempos de amores instantâneos e paixões sem alicerces, esta esperança é o que ainda nos faz seres humanos!

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