O Nordeste e suas crônicas fotográficas da Recife Imperial

Por Wanessa Teles

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Marc Ferrez, Arrecifes de corais, 1875

Recife, cidade portuária, uma alusão à barreira de corais, durante séculos serviu de ancoradouro natural para as embarcações que chegavam à cidade. Como o leitor pode observar na imagem acima, produzida pelo fotógrafo Marc Ferrez, o nome da capital pernambucana é tributária dos seus arrecifes de corais – e fora ela, nos fins da primeira e segunda metades do século XIX, palco de uma intensa e importante atividade de produção fotográfica.

Pela cidade, transitaram nomes proeminentes da fotografia oitocentista, muitos dos quais iniciaram suas atividades na cidade do Recife, sendo alguns deles condecorados com os títulos de fotógrafos da Casa Imperial, conferidos pelo então imperador D. Pedro II, um entusiasta das artes e grande incentivador da prática fotográfica no Brasil.

Todos os dias na sessão “Movimento do Porto”, no Diário de Pernambuco, os leitores eram informados sobre o intenso trânsito no porto da cidade. Eram paquetes, fragatas, vapores e navios, que atracavam cotidianamente na cidade. Através deles, chegavam pessoas, além dos produtos dos mais variados lugares, profissionais dos mais variados ramos, as invenções, as artes, as modas, os costumes e a cultura.

No ano de 1840, atracou no porto do Recife a expedição L’Oriental, vinda do porto de Paimboeuf, nas proximidades da cidade francesa de Nantes, responsável pela introdução da fotografia no Brasil.

Sabe-se que antes daquela expedição aportar na Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro, ela aportou na capital da província pernambucana. Se as primeiras imagens foram produzidas no Recife, assegurou-se que Pernambuco conhecesse a mais nova invenção.

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Roteiro da expedição L’Oriental responsável pela introdução da fotografia no Brasil. TURAZZI, Maria Inez. Máquina viajante. Revista de História da Biblioteca Nacional, nº 52, jan de 2010

Na década de 1840 foi anunciada a venda, no Diário de Pernambuco, de um aparelho daguerreotipo. Acredita-se que o mesmo aparelho tenha pertencido ao engenheiro francês Louis Vauthier, o qual integrava a missão artística francesa vinda ao Recife durante a gestão do conde da Boa Vista.

Naquele mesmo ano, Vauthier relata em seu diário de viagem, no dia 14 de outubro de 1840, ter ido fazer um passeio com um amigo e comentou: “(…) À noite, depois do jantar, fiz um segundo passeio à cavalo, com o senhor Boulitreau, nas proximidades de Olinda. Uma bonita vista para fazer daguerreotipos, quando tiver tempo”.

Faltava-lhe tempo, mas não máquina de registro fotográfico.

Ao folhear o velho diário, o leitor irá se deparar com uma variedade de anúncios de profissionais advindos dos mais diversos países europeus, muitos deles atraídos pela pulsante vida comercial da cidade. Eram eles franceses, alemães, italianos e norte- americano, que chegavam a todo instante na cidade, estabelecendo-se no Aterro da Boa Vista e, posteriormente, em 1860, na Rua Nova.

A história da fotografia em Pernambuco está intimamente ligada à história destes dois bairros, porque estes lugares compunham o núcleo central da cidade, onde os artistas fixavam seus estabelecimentos fotográficos, atraídos não só pela intensa atividade comercial de Recife.

Os artistas eram atraídos pela promissora clientela que abarcava não só a elite agrária – concentradora da imensa riqueza produzida pelo braço escravo nas plantações de cana de açúcar – mas também uma classe média urbana que crescia nas principais cidades da costa brasileira.

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Rua Nova, Bairro de Santo Antônio, João Ferreira Vilela, Recife 1870

Muitos profissionais que chegavam à cidade eram itinerantes, não se estabelecendo por muito tempo no mesmo lugar, percorrendo assim circuitos que lhes pareciam atrativos do ponto de vista comercial.

Foram muito comuns, neste período, anúncios de fotógrafos despedindo-se do público local, partindo para outra província como, por exemplo, a cidade do Rio de Janeiro, onde tinha a maior concentração do público consumidor de imagem.

Muitos deles fugiam da grande concorrência que havia em seus países de origem, os mercados no exterior estavam saturados, assim os fotógrafos aventuravam-se na América do Sul, pois esta se apresentava como um mercado promissor e ainda inexplorado.

A prática do mais novo ofício envolvia tanto aqueles que faziam dele uma fonte de renda, como também aqueles que o tinham por hobby, tal como o empresário Claudio Burle Dubeux, que praticou a nova arte por diletantismo.

Suas imagens são verdadeiras crônicas visuais do Recife oitocentista, que anunciavam as mudanças que a cidade estava vivenciando em seu perímetro urbano, com suas modernas obras de engenharia, estradas de ferro, companhia de abastecimento de água, estradas e pontes, e que não escaparam às lentes desse amador da mais nova arte.

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Ponte de ferro que liga os bairros de Santo Antônio e Boa Vista, à direita de branco em segundo plano, o fotógrafo e empresário pernambucano Claudio Dubeux, Recife 1870

Era o movimento, sinais de progresso que elevavam o Recife à categoria de umas das cidades mais modernas da época, sendo a própria arte fotográfica uma das modernas invenções que a invade por esses tempos. Afora todos os símbolos de progresso registrados pelas lentes de Augusto Stahl, Ferreira Villa e Claudio Dubeux, para citar os mais referenciados pela literatura da fotografia brasileira.

Porém, o fotógrafo alemão Albert Henschel foi quem fez seu nome no mercado pernambucano, desembarcando na cidade na década de 1860, legando-nos imagens indeléveis para a história social, documentos inestimáveis que retratam a escravidão urbana da cidade.

recife5A fotografia foi, sem sombras de dúvidas, um artefato de considerável presença na sociedade recifense, seu principal meio de expressão. A cidade passou a ser um tema constante nas fotografias de paisagens. Os seus ícones associavam-na ao progresso e à modernização, estabelecendo assim padrões estéticos que tencionavam diferenciá-la do passado e tradição, mas também da sociedade que buscava delimitar através de suas auto representações e representações sociais, clivagens e hierarquias de gênero, idade, social e étnica.

Wanessa Teles Historiadora e Mestre em História pela UFPE e professora na rede estadual de ensino.

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