Carnaval sem filtro

Por Nego Júnior

Após subir um longo escadão, fui muito bem recebido na casa da fundadora da Escola de Samba Unidos da Macieira, Rosana Aparecida dos Santos Neves, carinhosamente chamada de “Rosa” ou “Rosita” pelos moradores da comunidade. Sentei à mesa e conversamos sobre as dificuldades na condução de projetos sociais e culturais nas bordas da cidade. Papo vai e papo vem, comi uma deliciosa feijoada acompanhada de cambuci curtida na cachaça, e quase não tive mais pique para realizar o trabalho ao qual me propus, pois estava tudo bom demais!

Rosana conta que começou a fazer algumas reuniões há 15 anos, e dessas reuniões surgiram a escola de samba e também uma roda que acontece todo terceiro domingo do mês. Assim como diversos projetos sócioculturais, o sustento vem de almoços promovidos pela família dela e da venda de comes e bebes durante as atividades da escola e da roda. Vizinhos e amigos também ajudam nas vendas.

O poder público compareceu mais fortemente nos dois últimos anos, conta Sérgio, conhecido como “Neves”, marido de Rosana. Neste ano a subprefeitura, juntamente com a proposta da prefeitura de uma melhor organização dos blocos, cedeu ambulância, agentes de trânsito, GCM, Polícia Militar, agentes de saúde para distribuição de preservativos e um representante da subprefeitura para checar se a organização precisava de ajuda. Mesmo o trajeto sendo modificado de última hora, correu tudo da melhor maneira possível.

O que encanta nesse trabalho é o sentimento de “não importa o que aconteça, precisa ser feito!”. Precisa buscar os instrumentos que foram emprestados para outra comunidade de samba desfilar dias antes; precisa ligar para o cara do som várias vezes, e ver o porquê ele ainda não chegou; precisa maquiar as passistas e as crianças também participantes do desfile; precisa afinar os instrumentos e ressuscitar os surdos que tiveram seu couro danificado, e então pegar o couro de um maior para colocar no menor; precisa organizar as barracas para vender muito, pois é dessa economia que a escola se mantém viável financeiramente; precisa conversar com os vizinhos durante a passagem do bloco para tirar os carros das ruas estreitas da comunidade, senão o caminhão de som não passa; precisa saber conversar com as pessoas; precisa se virar com uma parte apenas da fantasia que sobrou do dia anterior quando a escola desfilou no Sambódromo com um atraso de 5 horas por conta da falta de energia; precisa cada um respeitar seu espaço, e só invadir o do outro se for pra dar um beijo e um abraço regados a muito samba, suor e vontade de ser feliz.

Tentei mostrar o envolvimento das pessoas na realização de um “carnaval sem filtros”, onde as coisas acontecem de maneira mais real, onde a maquiagem está apenas no rosto das mulheres mais vaidosas, pois assim como disse Paulinho da Viola, “o samba não acabou só porque o povo não deixou”.

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Fotos e texto: Nego Júnior

Agradecimentos especiais: Flávio Nascimento por ter me apresentado a família Macieira e Rosana, familiares e amigos por me receberem tão bem.

Serviço:
Escola de Samba Unidos da Macieira
Rua Macieira do Sul, 33 – Chácara Nani – São Paulo – SP
www.facebook.com/Unidos-DA-Macieira-601176709933887

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Nego Júnior é fotógrafo e designer. Confira mais de seu trabalho na página https://www.facebook.com/negojuniordf/?fref=ts

 

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