Alegria e pertencimento: a rua como o palco dos artistas da Pauliceia

Por Raquel Gomes e Priscila Silva

Pedregulhos, olhos respeitosos. Pinga tragado, cigarro compartilhado. “É repórter?”, pergunta um morador da Rua André Dias no Bairro Boa Vista no Butantã, zona oeste de São Paulo. Adentro uma viela e as palavras erguem versos labutados pelo punho de poetas que fazem das escadarias a geografia da inclusão. A noite chega expondo palavras demasiadamente poesia. E a poesia alumia os caminhos. A precariedade urbanística não impede que os moradores desçam e subam as escadarias da viela pouco iluminada.

Meninos que brincam na rua, talvez, apagam a lua com o seus sonos plenos de sonhos que acordam, com versos do poeta Giovanni Baffô, possibilidades de um outro amanhã. A favela virou ponto de cultura e o ponto de cultura já não mais segrega a profissão, ou, a instrução escolar, o endereço. Todos fazem parte da celebração de Baco diante das transgressões que a arte de rua traz: conhecimento alegre.

Em lugar dos carros e do medo, as ruas são habitadas por meninos que gingam na capoeira. Enquanto, o poeta Baffô desliza entre uma conversa aqui e outra acolá. Ele toma um gole de cerveja, um aceno ao companheiro, uma pose para a foto. Os olhos do poeta pausam em Chaiss na Mala. Instante dos improvisos da banda que toca junto à panela de pressão que chia, ao latido do cachorro, ao chamado do Faustão para o comercial, aos cochichos das mulheres da esquina e ao regozijo do poeta que entre um gole de cerveja e trago de cigarro; inspira-se na trilha sonora, criando, quem sabe, versos alforriados.

Janelas, portões, calçadas, botecos da rua André Dias participam do Festival de Jazz. Hora de música instrumental ecoar pelos becos bem arquitetados da viela.

As improvisações jazzísticas da banda leva o público à epifania. Companheiros do destino das notas das improvisações musicais, os instrumentistas tocam Oro – composição da própria banda. Bruxos; magos nagôs. Mantém a música em estado de essência. Jazzistas, evocam amor e beleza pelas ruas da pauliceia com seu álbum Afrodisia; existe amor em SP. Catárticos, são essências de Oro que na língua Iorubá dá nome à deusa da beleza e do amor: Oxum.

A viela ressoa jazz. A plateia aproxima-se garantindo a dança, e, a alegria. Alegria de Antonio Negri capaz de conduzir à transformação do real. Alegria que motiva o ser humano a inventar alternativas para a realidade, chegando a revolucionar o cotidiano com atitudes que vinculam a humanidade ao mundo, visceral e politicamente.

Com sorriso no rosto, a cidade planta no asfalto flores amarelas que irrompem nos moradores conhecimentos sobre diversas linguagens da arte. Hora de música instrumental ecoar pelos becos bem arquitetados da viela.

Em São Paulo, existe uma juventude de artistas que se organizam para promover festivais de cultura em lugares esquecidos pelo poder público; dão cor às novas visões sobre a ocupação de praças, ruas, vielas e, também, para conceber arte entendida como um bem comum a todos os habitantes da cidade.

Em entrevista para a Revista Escrita Pulsante, os artistas da Banda Cabaré Três Vinténs afirmam que o Movimento Caravana, organização de festival de Rua na Praça Roosevelt em 2014, foi criado com o intuito de propiciar acesso às expressões artísticas. A arte é livre, afirma a Banda. O transeunte que passa pode parar, assistir a uma intervenção, escutar um show sem precisar pagar um ingresso. Henrique – vocalista da banda – toca em diversos lugares públicos, metrô, e ruas de São Paulo, levando aos passantes a alegria do swing jazz. Com palhaços, dançarinas, malabaristas, cantores, atores, Cabaré Três Vinténs movimenta a cidade ao ritmo do jazz. Existe utopia em SP. A visão cinzenta do asfalto toma cores de tons multicolor.

A suavidade dos sons e o embalo e ritmos produzidos causam o pertencimento. Quem embala seu corpo no ritmo dos músicos parece estar em êxtase, e a música se torna, então, parte deste corpo que baila. Mas se unirmos, ainda, o “desenho sonoro” do Jazz na Kombi ao “quebrar o cinza da rua”, como nos disse a banda Emblues Beer Band, teremos então a imagem perfeita: é o desenho sonoro feito pelas mãos destes artistas que trabalham pelas ruas cinzentas da grande metrópole que quebram a monotonia das cores da cidade.

O cinza dá lugar às cores da saia rodada, da flor no cabelo ou do sapato do rapaz. Público e artistas se unem para pintar estas ruas com novas cores, já que o cinza perdeu sua utilidade e só nos remete ao entristecimento. E quem quer ser triste? Nestes tempos de busca incessante pela felicidade, mesmo que instantânea, “o jazz encanta por seu estilo, pelo seu som diferente”, nos diz o baixista Rob Ashtoffen. A beleza e a sofisticação dos sons é o atrativo ao público, que se mistura sem quaisquer expectativas, apenas pelo prazer da contemplação e do pertencimento.

O grupo Cabaré das Martas afirma que o público permite-se à alegria ao parar para ver o espetáculo na rua, principalmente em São Paulo, e este sentimento é muito bom, diz Josefa Iskándara, chilena que compõe o grupo juntamente com Consuelo Fernández, também do Chile, Painé Santamaria, Josefina Siro, Sara Peper, essas da Argentina, e Danielle Vasconcelos, brasileira. Este grupo de artistas de rua formado por seis mulheres malabaristas possuem em seus olhares, seus gestos e seus instrumentos transbordamentos de simpatia, reflexão e emoção que comovem a plateia a partir do riso.

Clownescas criam esquetes com temática feminina, logo o parto dramático toma a conotação das subversões encontradas na comédia. O riso feminino é reelaborado para contestar as relações de poder dados ao pensamento patriarcal. Mulher empoderada pela sua arte. Belas Mambembes e audaciosas artistas das ruas da América Latina provocando no riso reflexão sobre causos corriqueiros da vida. “A vida – conta Josefa Iskándara – com alegria é uma cura”.

Para estas artistas, fazer arte significa a alegria do compartilhamento. É mais que um show: é dividir energia e atenção com aquele que passa pela rua. Surpreender os passantes, a plateia que se forma aos poucos, ver o que acontece no espaço público já faz parte do nosso dia-a-dia, contam.

O fenômeno de festivais de artistas de rua em praças públicas da pauliceia e diversos lugares da periferia revigoram o espaço, porque compõem com os transeuntes histórias de alegria; esta interferência na rua provoca conhecimento em lugares antes relegados à apatia.

A arte de rua não tem edição, corte ou som ajustado. O contato real do artista com seu público, as reações, os olhares trocados entre sorrisos e murmúrios é também orgânico. Em meio a esta organicidade, a arte e a rua se encontram numa relação estável e harmoniosa, pois sim, há harmonia! E não, não há distinção! Trabalhar na rua significa não criar expectativas quanto ao público que lhe prestigia. Significa receber uma dose diária das reações mais inesperadas, cuja sensação, em um teatro, talvez não fosse tão surpreendente. Para estes promotores da alegria, o público não seleto é a maior satisfação e inspiração.

Inspiração encontrada em Emblues Beer Band com suas composições e releituras de músicas que agitam o corpo das pessoas que se aglomeram em torno da banda. A Praça Elis Regina vê-se contagiada pelos improvisos e ensejos musicais. Pernas dançam e sorrisos acompanham as canções que partem do convívio dos próprios integrantes do grupo, entre piadas e sarros, a brincadeira de musicar a vida encontra solfejos pulsantes no trompete de Fábio Aguiar.

Crianças chegam próximas à banda, cantam e acompanham na rua show da banda de jazz mais sarrista; banda que cativa a infância humana com a simplicidade sofisticada de seu som, como um verso de Manuel Bandeira que se entrega à alegria das memórias da infância. Emblues Beer Band parece dar à rua uma união criativa para o sentido do prazer que possibilita viver, plenamente.

O artista plástico Bruno Perê, educador e artista urbano, discute que utilizar este espaço público para fazer arte no espaço da rua possibilita com que ela – arte – vire memória e passe a pertencer ao local. Quando questionado sobre a ideia de pertencimento, Bruno remete à existência na cidade. Quem age, pertence e existe, corre riscos aos quais todos estamos submetidos enquanto agimos, cada um à sua maneira, nos espaços públicos que chamamos de ruas. O artista, quanto intervém, assume os riscos de um pertencimento a estas ruas, nas quais deixará a sua marca, a sua arte e os seus ideais. Bruno assume os riscos do pertencimento ao espaço, os riscos da atuação às escondidas, os riscos da surpresa agradável ou não, por meio dos riscos que permeiam suas obras e saem de suas mãos. Os riscos DE alegria. Os riscos DA alegria.

O território simbólico é o alcançado pelo artista de rua. A organicidade e variedade do público cria um novo território, além das demarcações da rua e da cidade; o público cria um misto composto por engravatados que deixam seus ares-condicionados e o trabalhador da grande empreiteira que acaba de deixar a obra. E este território sem leis e sem rótulos absorve a arte imediatamente produzida, com todos os seus pressupostos e mensagens, e quem sabe, recriando uma terceira obra ao ser incorporada por este público. A obra deixa de lhe pertencer, sendo então propriedade da rua, conversa Bruno Perê. Então, existe abraço em SP.

Ele fala que as sensações e as movimentações pelas ações são representantes da alegria. A arte urbana vira, então, um protesto absorvido pela sociedade. Encontra-se no meio, é parte da paisagem e da vista. Age silenciosamente na mente do garoto que lê, da menina que contempla, do senhor que se reconhece. Age escancaradamente no artista que se liberta, afirmando sua existência.

A alegria está em ir pelas margens desta liberdade. Está no desafio do ato criativo e da vivência às margens. É vivificação. Criar alegria na cidade é o desafio de inovar, e neste jogo de ação e reação, está o risco de existir na alegria.

2 comentários sobre “Alegria e pertencimento: a rua como o palco dos artistas da Pauliceia

  1. Agora, eu entendi! Tradução literária, a partir de sentidos atentos. Nítida a diferença para textos mais corriqueiros. Que, na sua ânsia por nos dar informações supostamente objetivas, não notam os sonhos que emanam de todo lugar. Parabéns pelo projeto!

  2. Agora, entendi! Tradução literária, editada através de sentidos atentos. Diversa dos textos corriqueiros que, na ânsia de nos “informar sobre aspectos objetivos”, atravessam sem captar os sonhos que estão por toda parte. Parabéns pelo trabalho!

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