A escola forma leitores?

Por Reinaldo Dias

Acesso regularmente a minha conta de e-mail, essa é uma prática que carrego há muito tempo, e dentre tantos lixos eletrônicos, um chamou-me a atenção. Nele havia uma menção para o dia 29 de outubro, que eu não sabia, mas nesse dia comemora-se o “dia internacional do livro”; por coincidência, naquela semana o meu livro de cabeceira era “Literatura como Missão”, de Nicolau Sevcenko. O historiador mencionava uma pesquisa feita por José Verissimo realizada em 1900, na qual apresentava uma chaga da cultura brasileira de que cada 100 brasileiros, apenas 16 sabiam ler, e isso me fez lembrar uma pesquisa realizada pelo Instituto Paulo Montenegro em 2003, que apresentava o seguinte índice: 75% das pessoas entre 15 e 64 anos não conseguem ler nem escrever plenamente. Passaram-se cerca de 100 anos e quase nada mudou.leitura1

A não alfabetização completa do cidadão corrobora para a pesquisa feita pela fundação Pró-livro de que houve uma redução no universo de leitores de 9.1% de 2007 para 2011. É irônico comemorar o dia internacional do livro em um país que não lê. Em média, o povo brasileiro lê apenas dois livros por ano. Almeida Mello, doutor em letras pela UNESP, afirma que na Espanha são cerca de 10 livros por habitantes, média considerável, quase um livro por mês, enquanto o Brasil perde até para países vizinhos como Chile e Argentina, os quais têm uma média de quatro a cinco livros por habitante/ano

Paulo Freire dizia que o aluno deveria aprender a ler o mundo, e que a escola deveria despertar no estudante uma curiosidade epistemológica, mas infelizmente a educação pública fracassa nesse aspecto, por motivos estruturais, afinal, basta observar o índice do Saresp, prova que avalia as habilidades e competências dos alunos ao término de um ciclo. Os resultados dessa avaliação externa não são animadores, pois indicam que 85% dos estudantes que concluem o ensino médio não possuem as habilidades e competência adequadas em língua portuguesa, ou seja, o ensino está ruim, e infelizmente fatores exógenos contribuem para esse quadro.

Arte: Bruno Novaes Dois mil e doze, (Pra quando você crescer) 2015, nanquim sobre papel

O hábito da leitura não é inato, mas sim construído socialmente, portanto, a escola tem um papel fundamental na formação de leitor, porque em muitos casos, a criança terá o primeiro contato com o livro somente na escola, logo, a instituição é o meio pelo qual ocorre a confluência educando e livro.

Em um mundo que não existe mais pensamento de coletividade, apenas de indivíduos, a leitura torna-se a ferramenta para resgatar a subjetividade, ou melhor, a humanidade perdida na fluidez narcísica do cotidiano; sei que o livro não muda o mundo, mas muda as pessoas, e quem sabe mude o comportamento social, ou pelo menos, ajude o sujeito a ler melhor o mundo.

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