Quebrando a janela da Casa Grande: o que todo branco deveria saber

Por Mar Andrade Viu e  Julie Douet Zingano

quebrando a janelaSejamos honestos, somos brancos. Nascemos com pele clara, fomos socializados como “brancas”. E por isso, tivemos acesso a uma versão do mundo. Tivemos acesso aos privilégios, a uma bolha dourada, amenizada, protegida. Tudo isso graças à cor de pele. Chegou um momento em nossas vidas que toda essa estrutura confortável na qual nos projetaram desde o dia em que nascemos precisou ser demolida. Decidimos falar sobre racismo. Pois ele sempre nos foi apresentado como um problema de segundo plano, algo do passado que só se manifesta esporadicamente. Sabíamos que isso não era verdade. Mas antes de poder falar sobre esse tema, decidimos ler. E lemos muito. E assim, em duas madrugadas, tudo se esfarelou. Os muros que nos impediam de compreender realmente o que estava acontecendo ao nosso redor se desabaram e vimos. Vimos a falsa abolição, vimos o genocídio da juventude negra pela polícia, vimos a apropriação cultural dominar os videoclipes mais acessados do Youtube, vimos “Quanto vale ou é por quilo?” de Bianchi. O tapa na cara foi doloroso, deixando uma marca avermelhada permanente. E depois de todos esses questionamentos, todas essas reviravoltas, além de nos prometer de – nunca – mais ouvir Taylor Swift e sua ostentação do “White feminism”, que traz toda a pintura de uma África esbranquiçada, uma objetivação dos corpos das mulheres negras e de – sempre – louvar Queen Nicky e todos seus divinos “What’s good?” e Queen Beyoncé (precisamos dizer por quê?!), sentimos a urgência de nos indignar em grupo.

Vivemos cinco dias de longas 7/8 horas dentro de um lugar que chamam de “Lycée Pasteur – escola bilíngue franco-brasileira”. As aspas estão ali, porque esse lugar está parado no tempo e espaço. É um espaço alheio às questões sociais brasileiras tanto quanto francesas, alheio ao momento político em que vivemos no Brasil tanto quanto o que é vivido na França… Leitores, sejam bem-vindos a esse mundinho enclausurado onde o que importa são os babados da festa da última sexta e quem teve a melhor nota na dissertação de filosofia. Mas, para muito mais além dos muros do colégio, percebemos que nosso universo protegido pela pele clara não passava de uma incomensurável ilusão. Afinal, não podemos nos considerar livres até que cada ser humano o seja tanto quanto nós, não podemos acreditar que estamos bem enquanto 84 negros morrem diariamente país afora.

Cansados dessa passividade da maioria dos nossos amigos, colegas e professores perante esse nosso mundo de injustiças e dívidas não pagas, criamos o cineclube, um lugar para estourar a tal bolha. Apresentando filmes que abordam temas político-sociais, buscamos depois levar os alunos presentes a um debate que felizmente costuma ser bem rico. Aproveitamos então esse espaço para trazer à tona a pauta do racismo.

A tela que regurgitou O Ódio, filme de Mathieu Kassovitz, escureceu e de repente estávamos lá, na frente de adolescentes e adultos emudecidos pelo longametragem, com os olhos sobre nós. Nunca nos sentimos tão nus.

Com a ajuda de Emicida e sua “Boa Esperança”, lançamos as questões. Não, não houve real abolição da escravidão, pois nenhum privilégio dos brancos foi abolido e nenhuma política efetiva de integração dos negros à sociedade foi estabelecida. Não, não é certo meninas brancas como a top model Kyllie Jenner ou a cantora Miley Cyrus usarem dread-locks como meros acessórios de beleza apagando assim o símbolo por trás deles, a cultura que eles trazem. E principalmente, sem se interessar pela violência sofrida pelos negros e fazer algo para mudar as coisas. Pegar os lados “bons” da cultura negra para si e deixar o resto de fora, isso se chama apropriação cultural, isso é racismo. Não, não é aceitável Childish Gambino, Kanye West, Jay-Z, Beyoncé, Nicky Minaj terem que aplaudir sorridentes ao verem Taylor Swift ou Eminem levantarem seus Grammys e VMA’s como se fossem leves plumas. Não, inserir uma “Black-face”, máscara que reduz a identidade negra a uma piada, numa peça de teatro na cidade de São Paulo, não é um ato inofensivo. Não, não é tolerável termos uma “história única” da África*, escrita pelo próprio opressor. Não é admissível começarmos a estudar a África a partir da colonização. E no nosso caso, não é justo estudarmos pela primeira vez o continente africano com todas suas diferenças e riquezas, suas capitais e Estados, no final do Terceiro Ano. Não, não é normal ouvirmos na mídia francesa um discurso cada vez mais tolerante com a intolerância. Não é normal darmos lugar a personalidades políticas que falam que a França “é um pais de raça branca” e assim deve permanecer. Nada disso deve ser considerado normal. Pois afinal, o que é ser normal? Segundo a mídia, é ser homem branco, cisgênero, heterossexual e rico.

Só que há negros homossexuais. Há negras feministas. Há o negro que quer ser médico. Há a negra que é fã de heavy metal. É tempo de nós brancos darmos ouvidos ao grito de basta do jovem negro gay Artur Romeo, escutarmos as músicas que pregam a igualdade de gêneros de Luana Hansen, indignarmo-nos com o coro denunciando o racismo da música “Mufete” de Emicida, sorrirmos com a mensagem de aceitação de Rico Dalasam. Chega de acorrentarmos o negro à imagem do pobre sofredor eterno ou à da hipersexualizada Globeleza.

E quando percebemos que todos esses elementos – a apropriação cultural, a “história única”, a negligência do estudo do continente africano no nosso programa escolar – colaboram com a construção de uma verdadeira montanha de injustiças das mais diversas e perversas, um nó no estômago vai crescendo. Um nó de nojo, de incompreensão, de revolta e paralisia. E agora, para onde? “Vocês nos devem até a alma”, disse a estudante negra Poliana Kamalu da USP no final de uma intervenção em resposta à pichações racistas nos banheiros da universidade, outubro passado. Quantos passos ainda precisam ser dados até que nós brancos entendamos que há, sim, uma dívida a ser paga e o que isso significa?

Olhamos para nossos colegas e professores. Alguns estavam no celular, riam no fundo da sala ou só queriam ir embora, talvez por não aguentarem mais o ar pesado que reina do lado de fora da Casa Grande. Outros estavam com os olhos brilhando, sentiam junto o nó crescer lá dentro.

Fazer esse debate dentro do nosso colégio foi uma experiência tão frustrante quanto calorosa. Além de se preocupar em saber se estouramos ou não mais bolhas, se as pessoas entenderam ou não a gravidade e a urgência da questão, tiramos uma lição maior dessa noite: uma hora é muito pouco para séculos de intolerância e violência racial, uma sala é muito pouco para uma questão que deveria ocupar o mundo inteiro.

É tempo de darmos mais espaço para essas questões, é agora ou nunca. E, se esse espaço não está disponível, que juntemos coragem para criá-lo sem nunca esquecermos de que é necessário passar o microfone para quem precisa ser ouvido. Nossa humanidade depende disso.

Mar Andrade Viu e Julie Douet Zingano são alunas do Lycée Pasteur

Fontes:

* Citação de conferência de Chimamanda Ngozi Adichie

** Palavras de Nadine Morano, política de direita francesa

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/09/eurodeputada-diz-que-franca-e-pais-de-raca-branca-e-causa-polemica.html

***http://www.revistaforum.com.br/osentendidos/2015/10/26/voces-nos-devem-ate-a-alma/

Um comentário sobre “Quebrando a janela da Casa Grande: o que todo branco deveria saber

  1. Muito bom poder ouvi-las pela leitura. Um artigo manifesto, eu diria: polêmico e avassalador! Eu sinto no texto de vocês uma força concreta que se manifesta pela ação. É disso que precisamos neste momento, sair dos conceitos e das esperanças longínquas, partir para a ação, para as ruas, junto àqueles que o fazem cotidianamente. Bons ventos! Axé

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