Um pouco de hip hop

Por Flávio da Conceição

A caminhada de muitos artistas e pessoas envolvidas com o Rap exemplifica a relevância do gênero musical, ao ponto do Hip Hop estar materializado em suas trajetórias, como um estilo de vida.

A identificação com o Rap está além das periferias brasileiras, embora ainda haja preconceito. Como forma de libertação dos padrões impostos, o Hip Hop foi se impondo nos centros urbanos e nos bailes com vestuário, dança, linguagem e musicalidade característicos. A vontade de sair dos padrões impostos, e se enveredar por uma estética de rua e de enfrentamento pelas opressões, influenciou muitos jovens.

hip hopAtribuir uma origem ao Hip Hop é também lembrar que ele é produto da cultura africana que tem em sua história, entre outros aspectos culturais, uma mistura de ritmos. São manifestações culturais de segmentos sociais jamaicanos, norte-americanos e brasileiros com tramas em África, continente de saberes milenares. Uma diversidade de tambores e toques com ritmos variados, permitindo improvisações. Essa musicalidade tinha e tem o poder de convocar para a guerra, estimular e estabelecer formas de comunicação com as demais tribos.

Mas como aplacar uma cultura mais antiga que a dos colonizadores? As intenções nos diferentes momentos de barbárie europeia foram (e são) constantes, mas em resistências silenciosas e conflitantes, a cultura africana permanece dinâmica e com grande poder de adaptação ao novo. Em muitos momentos da história seus descendentes eram a carne, hoje são a própria navalha, cantou Edi Rock.

Como seus descendentes africanos, o Hip Hop foi perseguido. Se as portas fecham, as muralhas vamos derrubar, propõe Rincon. Aos abatidos pela exclusão e pelo estigma de favelado, Di Nadi mandou o recado na abertura do CD do grupo RZO: resgatar o orgulho do povo da favela (…) nós vamos resgatar. Nesse sentido, argumenta Criollo: para cada rap escrito, uma alma que se salva.

Porém, nem sempre escapam das truculências e das chacinas policiais comuns nos centros urbanos, que em seus “autos de resistência” forjam cenas de crimes e tornam jovens e trabalhadores criminosos, como mais um morto em troca de tiros com a polícia. Na madrugada pra morrer basta apenas ser preto, assim, tiram nossos direitos de viver em paz, relatou o grupo Consciência Humana.

Esses e outros grupos narram em suas poesias questionadoras um eu lírico real e partilhado por muitos cidadãos brasileiros, cujos direitos básicos são violados diariamente. São relatos cotidianos denunciando arbitrariedades que não passam nas novelas e são ignorados pelo noticiário impresso e televisivo. Por isso, o Rap proporciona um esclarecimento sem o ufanismo do ouviram do Ipiranga que diz existir liberdade.

Os versos do hino nacional passam longe da crueza social das periferias brasileiras. Um hino que ovaciona um imperador aclamado pela elite oligárquica em troca de benefícios. Uma herança do toma lá da cá que arrastou um governo que se propunha de esquerda e representante do povo.

Ordem e progresso tá difícil, argumentam os grupos RAPadura e Inquérito. Assim, é difícil concordar que pertencemos a uma pátria, um hino, afirma Eduardo, quando na prática não nos reconhecemos um no outro. Setembro 7! O que? Vamos Voltar à Realidade…! Questiona o Marechal.

Um 7 de Setembro inventado em benefício de um imperador em crise, como demonstra a pesquisadora Maria de Lourdes Viana Lyra, exige que a história seja reescrita. Questionando esse passado, o Rap vai cumprindo seu papel e propondo outras histórias em letras, métricas, cadências poéticas e improvisadas em versos com efeito de arruda, sugere Tássia Reis.

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