Gramática social

Por Reinaldo Dias

Homem tomando café_Lucas Mucarzel

Homem tomando café – Lucas Mucarzel

Domingo acordei com uma disposição! Final de semana acabando, último dia de descanso, chegando segunda. Olhei lentamente para o pó de café… a água, elementos separados. Como não sou bom na alquimia resolvi colocar uma camiseta e ir até a “padoca” do Portuga, pedir o de sempre! Um chapado e uma média.

Enquanto aguardava o meu pedido no balcão da padaria, um senhor de muitos Janeiros, cujas marcas no seu rosto não negavam a minha dedução, pegara o cardápio do recinto a procura de um prato, mas não o encontrou. Com uma voz altiva, chamou o funcionário da padoca. Era um distinto fidalgo gritando de maneira enfática, solicitando ao jovem rapaz que encontrasse um prato de filé com fritas. O menino ficou assustado com a delicadeza do pedido, e com mãos trêmulas não localizou nem o filé, quanto mais as fritas. O velho burguês, inconformado com a situação, bateu com seu anel de formatura no balcão e exigiu a presença do dono do estabelecimento, pois achava inadmissível que um empregado não conhecesse sua função, afinal, era pago para servir. Ao final da celeuma, o velho aristocrático mandou uma enunciação que estou decodificando até agora: “- eu se irrito com isso!”

Não foi a primeira vez que ouvi aquele tipo de construção gramatical em que o pronome reflexivo de terceira pessoa, ou seja, o “se”, está no lugar do pronome de primeira pessoa “me”. Entre um gole de café e uma mordida no pão fiquei matutando em alguns ensinamentos, de um velho amigo, que sempre comentara que a língua tem uma norma forjada nas manifestações de enunciação popular, gramática tecida na interação social e cultural de uma sociedade, e por isso falamos o latim do vendedor de peixes, dizia. Naquele momento lembrei-me da folheada que fiz em um livro antigo de linguística, o qual mencionava a mudança do “você”, aglutinação de um pronome de tratamento antigo, da época da escravidão do Brasil, “vossa mercê”, logo, concluímos que um simples “vc” carrega em si uma história de 300 anos de escravidão.

Minha média esfriou, mas continuei pensando no maldito “se” no lugar do “me”, ora, se o “eu” sempre é a pessoa que fala, o “tu” aquele que ouve, portanto o “ele” é o assunto da conversa, logo o “se”, seria para referir-se ao objeto, e não à pessoa que fala.

É engraçado como as relações sociais se manifestam na linguagem. Aquele idoso tratou um balconista com tanta arrogância que me lembrou de quando eu era pequeno, e fazia birra quando minha mãe não comprava um brinquedo para mim. Engoli o café frio, e continuei a pensar. Uma criança, quando se olha no espelho, não reconhece o seu reflexo, porque ainda não possui a subjetividade e a consciência de si, pois vive no mundo da objetividade, logo, aquela construção sintática, misturando as pessoas e pronomes, é típica de uma criança que está adquirindo as competências de fala, então estaria eu diante de uma enunciação infantilizada? Ou de um comportamento infantil? Para azedar o feijão, continuei nas indagações. Será que estamos caminhando para uma sociedade materialista, objetiva e infantilizada, e a linguagem só está evidenciando esse processo?

Pedi outro pão e outra média, pois meu estômago estava roncando. Indaguei-me sobre aquela cena narcisista a qual tive o desprazer de acompanhar em meu desjejum: aquilo foi um ato de infantilidade? Ou talvez aquele “se” demonstrasse o quanto nos eximimos da culpa, afinal eu nunca me atraso, o trânsito é que estava travado. Podemos lançar a seguinte desculpa: “eu se perdi”, portanto, a culpa foi do caminho confuso.

Outro velho amigo dizia-me para prestar atenção no não dito, pois é no silêncio que exala o preconceito, porque é de pausa que se faz a música, e é na “padoca” que o “me” torna-se “se”. Nesse caminhar do dito e não dito, do subjetivo e objetivo, em meio a comunicações narcísicas e manifestações infantis, eu termino meu pão e penduro a conta.

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