Ônibus

Por Verônica Kienen Dias

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Arte: Frenchkissedpostcards

Apagou o cigarro contrariada, pois o 1476 acabava de fazer a curva e se aproximava do ponto de ônibus. Mais um dia se foi com o prazer do dever realizado.

Entrou no ônibus, sorriu para o motorista, passou a catraca e observou que todos os assentos do lado da janela estavam ocupados; todas as pessoas dispostas como em uma fila, sozinhas. Será que se atreveriam a sentar uns com os outros, mesmo sabendo que existem lugares vagos? Ela também gostava de sentar à janela, gostava de ver o movimento da cidade, as pessoas, a vida.

O mundo com certeza era bem maior do que a lanchonete em que ela trabalhava.

Pediu licença e sentou ao lado de um jovem que dormia, mas logo se sentiu culpada, pois acordara o cansado rapaz, que logo fechou os olhos novamente e repôs o seu sono.

Então resolveu olhar a sua volta. A mulher à frente olhava de quando em quando para ela, e talvez estranhasse o fato de ela sentar junto com mais um passageiro, sabendo que existiam ainda lugares vagos. O rapaz de verde, do outro lado, na altura do cobrador, lia um livro grosso, totalmente compenetrado. Daria tudo para ver a capa e saber pelo que ele se interessa. Olhou para o cobrador, que também de relance olhou para ela. Ele balançava a cabeça e de vez em quando as mãos. O que estaria dentro do seu fone de ouvido? Talvez uma música de rock. Que banda seria? Olhou para trás e uma senhora de meia idade olhava para fora, para a rua. O que ela pensava? Por acaso estaria só olhando. Do outro lado, um homem escrevia no celular. Para quem? Viu também uma mulher com o semblante cansado. O homem ao seu lado continuava a dormir, cansado de canseiras. Sonhava? Possivelmente desceria no ponto final.

Como poderia ela adivinhar o que se passava. Humanos e Mundos.

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Arte: cam.gulbenkian.pot

A cidade à noite passava. O ônibus levava as pessoas da cidade para as casas, para o descanso. As ruas estavam escuras e vazias, estabelecimentos fechados, os cachorros sem donos não corriam, tudo estava parado. As luminárias das ruas, por alguns momentos, enchiam o ônibus de uma luz amarela, repentina. Predominava o silêncio, exceto na cabeça no cobrador.

Já era quase onze e meia da noite, quando o ônibus parou para que três jovens subissem. Deram o boa noite ao motorista. Uma moça e dois rapazes. Depois deram o boa noite ao cobrador, que respondeu dando risada. A monotonia do ônibus por um instante foi quebrada. O rapaz de verde deixou o seu livro e olhou para os jovens, e depois para fora e para trás. O homem ao seu lado se mexeu e logo se acomodou. O rapaz do celular guardou-o no bolso e cruzou os braços se inclinando para trás. Ela olhou para eles quando estes passaram por ela, estavam alegres, foram sentar no fundo do ônibus. Deviam voltar da escola. Isso mesmo. Do fundo pôde-se ouvir comentários sobre a prova de Física. “Ahhh… na quatro eu coloquei b e não c.” “Ihh já errou! Era resistor e capacitor!” “Acertei!!!”

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Arte: Poppytalk

Gostava de ver gente, falar com gente, de cumprimentar, de fazer visitas, de dar bom dia. Ela era tudo quando não estava sozinha.

Já estava quase chegando ao seu destino. A mãe estaria, como sempre, esperando-a com um copo de chocolate quente e um sanduíche de queijo e presunto. Ninguém a viu levantar. Quando desceu, pôde ainda ver o vazio do ônibus, pessoas de um canto e pessoas no outro canto, e ao fundo, os adolescentes que continuavam animados, esperando ansiosos o resultado da prova de Física.

Verônica K. Dias é beletrista pela Universidade de São Paulo.

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