A arte é a expressão do eu

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Imagem: Robert Crumb

Por Marcos Improta

A arte é a expressão do eu. Como conceito ou forma, para o outro, ela pode se expandir para o popular. A parte isso, é em si, uma confissão de particularidade. Coisa íntima. Há, entre o artista e sua obra, uma profunda ligação, pessoal e peremptória. Por isso, é importante conhecer o artesão por trás da obra.

Willie Dixon nunca foi um grande cantor, nem um contrabaixista que o mundo do blues sonhara no inicio dos anos 40 do século XX. Mas nenhum musico do blues atingiu sua estatura como compositor. Suas musicas revelaram, não apenas o espírito do seu tempo, mas também a alma dos seus interpretes. Dixon olhava fundo para o mundo ao seu redor.

Só para ficar em um exemplo,  Hoochie Coochie Man, escrita por Dixon e interpretada por Muddy Walters, não só é um reflexo no espelho de Walters e sua vaidade arrogante, como também é um anuncio que antecipa o rock and roll em toda sua intensidade e rebeldia. Com Howlin’ Wolf, a mesma coisa, música de lobo para um lobo. É como Kafka interpretando a angustia. Os versos jâmbicos, a cortês despretensão das estrofes e a força vibrante dos refrãos vão ficar para uma posteridade mais interessada em estudar. Enfim, as musicas de Dixon têm a mesma estatura de uma tela como a Guernica, do pintor espanhol Pablo Picasso. Expressa o que quer expressar. Simples e diretamente.

Tenho escutado muitos discos. A maioria deles de novos artistas. Baixo 10, até 50 discos, para sobrar talvez um que tenha realmente o valor necessário para um ser humano despender tempo para escutá-lo. Esses discos que vão parar na lixeira estão sempre fazendo muito barulho sem dizer quase nada. Não que arte precise de explicação ou precise ser engajada. Mas precisa fazer o mínimo de sentido, ou não teria diferença entre Romero Brito e um Velasques ou entre Mister Catra e Bob Dylan.

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Imagem: Joseph Sanchez

Auto explicações, subterfúgios ou a simples rejeição pela crítica especializada (ou não), são estratégias que explicam o sucesso de muitos artistas brasileiros, sustentado apenas pela aceitação de um público que não representa mais que um grupo social dentre centenas em uma sociedade pluralista como a brasileira. Já ai, temos algo que podemos chamar de ditadura cultural. O que torna duvidoso todo esse sucesso. Pois não é escolha do público, é imposição comercial e midiática.

Mas, o problema não está apenas nos estratagemas do ramo musical no Brasil, que, arrogantemente, elege quem é bom ou ruim e exclui quem bem entender se caso esse não gerar lucros. Ao lado de discursos homogêneos, está a impossibilidade do diálogo com o diferente. Tudo porque não fazem mais arte (e arte aqui tem sentido amplo). O “artista” de hoje deixou de lado a arte, abandonou uma estética em nome de uma ética moral, consonante com o mercado e o “público”. Todos querem dizer alguma coisa mesmo sem ter o que falar.

Quando ouvir o Nó na Orelha, do Rapper Crioulo, pela primeira vez, disse comigo mesmo: “meu deus, esse cara mudou o cenário do rap nacional”. Foi a primeira impressão que tive. Não posso negar que a poesia de “Não existe Amor em SP”, o bolero de “O Freguês da meia noite”, o sky de Lion Man me chamaram atenção dentre de um disco de rap, pois nem parecia um. Já não aguentava mais a batida perfeita do Marcelo D2, com seu pop culturismo de menino rebelde da Zona Sul.

Por isso, recomendo aos artistas que estão começando, que fortaleçam sua casca antes de sair do ovo. Não deixem de falar o que tem que ser dito. Mas, como isso vai ser dito, vai fazer toda a diferença. Passar fome, vir de uma favela, crescer no Leblon ou estudar na melhor escola de arte de Paris ou dos Estados Unidos não vão fazer de ninguém um Monet nem um Jimi Page ou um Sabotagem. Shakespeare é um bom mestre, já nos disse o bardo: “O silêncio é o mais perfeito arauto da felicidade. Eu estaria pouco feliz se pudesse dizer o quanto”.

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