A volta ao passado: os embates pela memória em tempos de disputas políticas

Por Thiago Nunes Soares

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Atualmente, vivemos em um momento de grande efervescência política, diante do cenário de recessão econômica, denúncias/combate à corrupção e cortes governamentais em relevantes áreas sociais. O calor dessas disputas político-partidárias foram significativos, principalmente, desde as eleições presidenciais de 2014, com uma vitória apertada dos petistas nas urnas. Nessa arena política, uma série de elementos simbólicos ganhou visibilidade nos veículos de comunicação, com destaque para as redes sociais. Vejamos algumas imagens que foram bastante postadas, compartilhadas e comentadas, em 2015, no facebook.

A imagem 01 é uma junção de fotografias de dois momentos distintos: o golpe civil-militar de 1964 e o ano de 2015. Ao analisá-las, verificamos um processo de permanências e descontinuidades na história do Brasil República. Os governos são diferentes, assim como o próprio contexto e perfis dos movimentos sociais. Mas de forma semelhante, os discursos de combate e temor às práticas dos setores nomeados de comunistas estereotipam, tendo em vista a sua utilização contra pessoas e seguimentos tidos como de esquerda e que luta(ra)m por melhorias sociais.

Isso porque o termo comunista foi utilizado frequentemente de forma genérica para desqualificar e incriminar pessoas, cujas ideias e práticas foram consideradas perigosas ao Estado/sociedade ao longo de diferentes fases do período republicano, mesmo que esses sujeitos não estivessem vinculados a partidos e organizações comunistas. Isso tendo em vista que durante muitos anos, essas instituições atuaram na clandestinidade, por serem proibidas por leis. Vale salientar que esses discursos foram produzidos, apropriados e difundidos antes e durante a ditadura civil-militar, sendo uma das prerrogativas para a ascensão, legitimação e manutenção dos militares ao poder.

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Enquanto na imagem 02, foi registrado um cartaz segurado por uma senhora que lamentou o fato da presidente Dilma (que militou contra a ditadura) não ter sido enforcada pelo DOI-CODI, um dos órgãos mais coercitivos desse período. Neste sentido, para reforçar o anseio de mudança governamental, faz-se uma referência positiva à memória/história da prática da tortura, usada recorrentemente contra os militantes que atuaram em prol do retorno à democracia ao país, com o objetivo de que eles sofressem por expressar os seus ideais políticos e delatassem seus companheiros, tendo muitos deles sido assassinados e mortos. Até hoje, são inúmeros os desaparecidos políticos e os seus familiares não conseguiram encontrar os seus corpos. A tortura foi uma prática bastante aterrorizante e uma violenta suspensão dos direitos humanos.

A imagem 03 faz alusão à memória negativa sobre o período ditatorial, reforçando a importância do ensino de História como um poderoso instrumento de reflexão crítica sobre o passado, presente e futuro. Ou seja, a partir do conhecimento histórico é possível analisar criticamente as ressonâncias do passado no presente, de modo que se tente evitar repetições de atrocidades contra a humanidade.

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Já a imagem 04 satiriza e critica de forma mais incisiva a atuação das pessoas e seguimentos sociais que clamaram a volta dos militares ao poder, mais especificamente, os que participaram das manifestações políticas na Avenida Paulista, em São Paulo, em 2015. A ditadura é simbolizada como morta e os que reivindicavam esse tipo de governo são nomeados pejorativamente de imbecis. É mais um exemplo de batalhas pela memória em tempos de intensas disputas políticas.
Assim, as charges possuem um forte poder comunicativo, tendo em vista a capacidade de sintetizar ideias e discussões do cenário político com discursos que geralmente chegam ao público de forma impactante. A criatividade, a comicidade e o humor também são aspectos marcantes nesse tipo de linguagem, pois o riso muitas vezes é utilizado como arma relevante nas lutas políticas, com o objetivo de enfraquecer os adversários, ao tentar construir uma imagem negativa sobre eles.

Neste sentido, dialogamos com o historiador francês Jaques Le Goff, quando ele destaca que “tornar-se senhores da memória e do esquecimento é uma das grandes preocupações das classes, dos grupos, dos indivíduos que dominaram e dominam sociedades históricas. Os esquecimentos e os silêncios da história são reveladores destes mecanismos de manipulação da memória coletiva”.

Diante disso, pudemos verificar as ressonâncias do passado no presente, daí a relevância do conhecimento histórico para uma maior elucidação desse cenário, de modo em que possamos refletir de forma crítica sobre ele. É importante desnaturalizar os discursos, imagens e práticas políticas, pois eles não são neutros, ao terem objetivos específicos e impactos sociais.

Thiago é Doutorando em História pela UNIRIO e Professor da EAD/UFRPE

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