Aquilo que não se diz

Por Reinaldo Dias

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Ilustração: Renato Alarcão

Algumas experiências são como socos no estômago. Em minha leitura matutina, um “jab” de esquerda foi deferido da notícia, a qual mencionava o ranking das vinte melhores escolas do Brasil, e qual foi o veredito!? Todas são particulares: isso para mim foi um cruzado de esquerda, no meio da lata, embora o resultado fosse previsível.

Eu ainda não entendo porque me impressiono com essa notícia, afinal, isso nada mais é o resultado de políticas públicas que de maneira bem eficientes mantêm o status quo do jeitinho que está. Afinal, a educação nunca foi vista com bons olhos pela elite mesmo. Um exemplo bobo, mas que elucida isso: você já ouviu falar em Protágoras? Não! E em Aristóteles e Platão, já? Pois é, o primeiro filósofo foi um solista grego, esse camarada vendia discursos, ensinava a retórica por uma módica quantia, e esse comportamento não era bem afeito pelos socráticos, como Aristóteles e Platão, porque para um grego é “hybris” misturar razão (pensamento) com técnica. Realmente, eu não deveria estar chateado, afinal, até a palavra pedagogia é oriunda de um ato menor; ela vem do grego, que quer dizer aquele que conduz, trocando em miúdos, Paidagogos é formada pela palavra paidós (criança) e agogos (condutor). Paidagogos eram os escravos que levavam as crianças até as escolas gregas (Paideia), porque o ensino técnico (Paideia) não era valorizado pelo cidadão ateniense, logo, o trabalho de conduzir ficou a cargo do escravo.

Para encurtar a minha frustração, em terras de Pindorama, aquele conceito grego não mudou muito. Claro que sofremos influências da revolução francesa, dos direitos humanos, mas nada muito revolucionário. Depois de 1808, o Brasil não foi mais o mesmo, como você sabe! Ganhou biblioteca, jardim botânico, faculdade de medicina e é claro, uma escola para selecionar quem iria estudar medicina. A mais conhecida foi a escola Dom Pedro II, no Rio de Janeiro, que tinha um ensino preparatório para os exames (vestibular) para faculdade de Medicina baiana, e a grade curricular da época era constituída de retórica, gramática e lógica, conceitos bem distantes do povão. Bom, nem preciso mencionar que os negros estavam excluídos dessa brincadeira.

Aqui na terra de Saci a contradição reina. A época da ditadura militar foi um período de expansão industrial, retardo político e desenvolvimento industrial. O modelo educacional colonial não estava suprindo mão de obra qualificada para o mercado de trabalho. Devido a essa situação, o governo vigente pulverizou a construção de escolas profissionalizantes, e essa ideia não tinha como princípio educar o povo, mas sim instrumentalizar o cidadão para operar máquinas e, assim, motivar o progresso. Esse princípio vigora até os dias atuais, mas vestido com um terno “discursivo” Armani, uma vez que políticos exploram a inocência alheia, dizendo que irão ampliar o ensino técnico de tempo integral, e que essa medida irá beneficiar a população carente, mas o não dito é: que isso apenas irá suprir a necessidade das empresas de mão de obra mais qualificada.

Portanto quando ouço: “Brasil pátria educadora”, “Educação para todos”, penso: “educação para quem”? Para a elite ou para o proletariado? Com um discurso de igualdade de condições para todos e um currículo educacional unificado, o governo mantém o status quo inalterado. Devido a essa “equidade”, os sistemas privados de educação lucram bilhões por ano, enquanto a educação publica é um Boeing Jumbo sem comandante.

O que vejo é um sistema excludente, que extirpa de maneira ideológica as escolhas do “Joãozinho” na pré-escola, mas acho melhor fechar este jornal, afinal, em Pindorama com setenta e cinco por cento de analfabetos funcionais, MC Vilãozinho é rei. Tá ruim? Tá nada…

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