Ideias perigosas

 

homem alone

Imagem: Google Imagens

Por Débora Duarte dos Santos (em Diálogos com “Riocorrente”)

Era preciso decidir o tempo e os caminhos. Escolher um epicentro: nele ficar ou dele fugir. Perto daquele coração, quase selvagem, habitavam as tantas vontades de quem se perde no mundo e se encontra sem bússola…

Certo dia ele amanhecera um dia vazio de gente e de pensamentos, que desenhava uma realidade febril e fugaz. A vida precisava acontecer, embora não existisse ordem, embora algo estranho lhe habitasse, embora sua vida fosse uma espécie de sobrevida humana. Defendia a ideia de que nenhum hábito era capaz de repeti-lo. E foi naquela manhã que se viu refém de questionamentos que o diferenciava da multidão. Afinal de contas: que diferença há naquilo que é diferente, porém sempre igual? Será que o igual não pode ser diferente, menos habitual e automatizado? Será que o diferente não é, em certa medida, igual, idêntico e até mesmo capaz de fazer o homem vassalo de sua própria condição?

O relógio despertava sua consciência inconsciente. Tocou por quase quatro míseros minutos. Ele virou de lado, reolhou os móveis ao seu redor e se deu conta de que tinha que sair à rua, calcular seus passos, medir suas ações, orientar seus olhares, escravizar suas ânsias e, principalmente, não decidir nada. Seguir, seguir, seguir e admirar o adorável mundo novo.

Caminhar pelas ruas e avenidas do centro da cidade era extremamente redundante. A correnteza dos hábitos, tal como nos dias de segunda-feira, não permitia sua chegada às profundezas e aos recônditos mais inóspitos da existência. Ser efêmero, indiferente à força da vida e continuar na incompletude, eram formas de ser “diferente”; assim pensava.

Quando à tarde saiu rumo ao restaurante mais próximo, uma náusea o agrediu vorazmente: se deu conta do quão pouco se dá, do quão pouco se doa e do quão pouco se consome nestes dias de vida moderna… E que não se confundam as coisas: dar, doar e consumir como sinônimos de experiência, de vida e oxigênio. Era exatamente esse cenário que se ausentava da paisagem urbana. Os corpos transitavam raras vezes timidamente. Era bastante comum que todos tivessem seus hífens e travessões muito bem delimitados, sinalizando cartografias urbanas fugitivas e assustadas: impunham-se como autoridades do desejo; comunicavam-se por meio de uma semântica bem mais pragmática que a indiferença. A felicidade clandestina estava contida num cotidiano assassino: isso, aparentemente, lhe fazia feliz, ainda que a pútrida ferida estivesse aberta e que demorasse em cicatrizar.

Não almoçou. Não voltou ao trabalho. Ficou ali parado na rua. Inerte como poça de água paralítica. Procurou por sua carteira e celular, não os encontrou. Era tarde, demasiadamente tarde. Só os ecos do vento se escutavam em seus ruídos derradeiros. Foi até o ponto sul da rua, que dava na direção de seu apartamento. Decidiu ir embora. Sozinho, silente e desperto para outra faceta da paisagem que para ele havia sido tão igual até aquele dia.

Chegando a seu destino, lhe faltavam as chaves. Lembrou-se de que não havia ninguém em seu apartamento, já que decidira a vida dos que sofrem solitariamente. Quis chorar e uma lágrima se insinuou no canto dos seus olhos, mas rapidamente a fez retroceder.

A vida lhe doía profundamente.

Na guarita do prédio não havia ninguém. Ninguém: esse sempre diferente que o rondava e que o fazia cada vez mais igual. Pulou o portão. Pegou o elevador. Arrombou a porta. E antes de cair na cama, encarou o relógio – aquele companheiro de tantos anos-, abriu a janela, jogou-o o mais distante que sua energia, minguante, conseguiu. Fechou a janela num barulho desconcertante que suscitou o grito de um dos vizinhos. Deitou-se na cama malfeita. Adormeceu.

Na manhã seguinte seu despertador interno o convidara a sair do quarto e a viver seus hábitos. Porém, ele resistiu e ali permaneceu. Dois, três, dez dias se passaram nessas circunstâncias. Ninguém lhe ligou, ninguém se deu conta de sua ausência, ninguém se importou. A vida continuou doendo. Mas não por muito tempo: lembrou-se de que há muito suas ideias haviam deixado de ser perigosas. Aquela mente jamais voltaria ao tamanho original. Alhures os ecos de uma explosão. Saiu para a vida. Assassinou seus hábitos. Nenhum momento poderia ser melhor que o agora. Nenhum lugar mais propício que aquele.

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