EMICIDA e as relações INTERRACIAIS em seu videoclipe Boa Esperança

Uma produção que valoriza a negritude

Por Willians Santos

O rapper Emicida lançou um novo videoclipe muito comentado na internet.

Arte: Cristiano Siqueira

Arte: Cristiano Siqueira

A direção desta vez é assinada por Katia Lund – diretora, roteirista já fez parte da equipe do Cidade de Deus e o documentário Notícias de uma Guerra Particular – e, também, por João Weiner (fotógrafo da folha de São Paulo) – produtor junto com Roberto T. Oliveira do excelente documentário Pixo.

A fotografia do filme e o roteiro dispensam comentários. Assistam, coisa de cinema. Se tivesse sido lançado como um longa-metragem certamente viria a complementar a safra contemporânea que vem abordando as relações raciais no Brasil, tal como o recém produzido Branco Sai, Preto Fica dirigido por Adirley Queirós. Neste quesito o filme acerta em apostar em atores negros como protagonistas do enredo. Ainda que os personagens que representam na trama tenham que emergir no retrato já muito criticado da mulher e do homem negros serviçais para depois surgirem enquanto insurgentes, lugar e representação que as novelas da rede globo ou os filmes globais não os põem.

Acho até que o clipe é um bom ponto de partida para um desenvolvimento futuro de uma obra audiovisual genial, alimentando o debate político atual em torno do racismo. Até acho que se os diretores e os produtores acreditarem no material, ele mesmo pode ser um bom ponto de partida para contribuir para a virada de jogo no debate ideológico que o país vivencia, a arte se torna política, congregando discurso estético e político sofisticado, direto e sensível. Que debate? Sobre a violência que se expressa em atos de linchamento, por exemplo, ou em atos de liberdade, bem como, o debate entre desigualdades entre pessoas de cor no Brasil que detém poder político e econômico desiguais.

Racismo em meio a posições sociais distintas.

Para pensar este debate afirmo que vou partir do próprio filme, do que ele nos apresenta visualmente e em forma de narrativa, e não do que os personagens poderiam ou deveriam ser de nosso ponto de vista ético político. Também afirmo que vou fazer um recorte dos aspectos que me interessam. Isto significa que você leitor pode encontrar outros aspectos críticos negativa ou positivamente.

O clipe faz referência a dois grupos políticos da realidade brasileira e que protagonizam diversos conflitos históricos no país. E dentro destes grupos uma diversidade de posições de trabalho e de sexualidade. A atuação dos personagens faz referência a estes grupos, portanto, refere-se à histórica relação de classes, e entre homens e mulheres, se quisermos dizer assim. Relação de pontos de vista, de mundos diversos, de trajetórias e memórias diferentes, e de corporalidades distintas.

O filme, opa, o videoclipe, cria de forma narrativa uma elucubração poética do que deveria ocorrer: a revolta, a liberdade a quebra da norma, dentro da relação entre dois grupos sociais. Dentro deste processo ocorre também um conflito entre gerações e entre corporalidades, dentro de cada grupo há idades e corpos diferentes que protagonizam este conflito.

De um lado há o grupo de empregadas e empregados domésticos – brancas e negras e negros, jovens e não jovens – que se revoltam após constantes humilhações da parte do outro grupo – homens e mulheres brancos e brancas, jovens e não jovens. Este primeiro grupo, no clipe, suporta até um certo limite a violência que sofre e aos poucos cria estratégias de devolver o desprezo, a ojeriza, organizando-se ao final uma revolta. Sabemos que são empregados pelos seus trajes de trabalho e pelo fato de serem as que devem cozinhar ou estacionar o carro dos visitantes da casa.

As roupas e as atitudes presentes no clipe são referência a uma realidade que historicamente modifica-se o lugar de serviço, mas não a posição inferiorizada dentro das relações sociais de trabalho. Esta posição permanece, diversos estudiosos já a criticaram como constitutiva de um apartheid. É a condição da mulher e do homem negros enquanto serviçais da casa grande, do apartamento, dos mercados, etc.

Os outros grupos são os empregadores e seus visitantes. Estes são descritos como um grupo de pessoas homogeneizada pela sua cor da pele, seu perfil semelhante de se vestir, e pelo fato de estarem sendo servidos pelos (as) empregados. Eles e elas praticam atitudes de desprezo e violência física, assédio sexual, provocações. Entendemos que são os empregadores. E que estes empregadores são violentos e racistas.

Conforme a história vai se desenvolvendo percebemos que esta relação se trata de um conflito político racial. Em que sentido? Político por que, embora, tudo se passe em uma casa, ambos, ali, não têm qualquer parentesco, não tem afinidade, não estão ali por amizade, mas por uma finalidade. Estão no mesmo espaço devido às relações entre os servidores e os servidos. Os seus trajes, sua identidade de trabalho e social, por exemplo, referem-se à posição social de cada um – e do grupo como um todo – demarca as relações de trabalho. Esta relação de trabalho se agrava, pois, cada membro de cada grupo tem uma cor de pele – aí está o jogo da escolha de atores para uma ou outra posição social – esta “relação conflituosa” é uma relação de conflito racial imersa nas relações de trabalho.

Emicida Enio Cesar

Foto: Ênio César

Vemos ali relação de contratantes e contratados, profissional, política, racial. Um fato mundialmente conhecido é que raças não existem. Pessoas com certo tom de pele claro ou escuro não se comportam determinadas por esta cor de pele. Mas mundialmente e no Brasil, especialmente, existem relações racializadas como esta relação de trabalho (entre serventes e servidos) na casa. Pessoas são hierarquizadas, excluídas, segregadas ou impedidas de frequentar certos espaços porque sua cor de pele, sua forma de vestir, seus cabelos, enfim, sua corporalidade é estigmatizada e politicamente perseguida. Podemos afirmar, portanto, que o clipe trata do racismo no Brasil.

Estas relações raciais são corporais por que é pelo corpo que um sujeito vai violar o corpo do outro, ou a identidade corporal que o outro possui. E é o corpo também o veículo de definição de identidade: identidade corporal, identidade sociocultural, identidade política. Desta violência, destas ações violentamente racistas é que por fim irá desembocar-se uma quebra de ordem, uma quebra necessária, porque quebra das relações violentas.

Racismo, psiquismo e conflito de geração.

O estopim destas relações raciais, políticas e corporais desiguais e violentas no clipe ocorre, principalmente, após a violência simbólica e física que uma jovem negra sofre da parte de uma mulher, branca adulta. A violência simbólica ocorre quando esta mulher projeta um olhar desaprovador aos cabelos da jovem. Quer dizer, aproveitando-se que tem de seu poder de empregadora lança um olhar reprovador aos cabelos da jovem no ato do trabalho, reprimindo-a e criando a situação para que outra empregada sugira que a jovem deixe de visibilizar o cabelo, utilizando-se de uma touca branca.

Ou seja, a mulher adulta reprime a identidade corporal que a jovem se permitia a si mesma. Uma permissão, podemos agora imaginar, com o poder das palavras e da suposição, de sustento de seu desejo e de sua posição como indivíduo dotado de um corpo, a sua negritude. A jovem autorizava-se ao direito a ser uma pessoa e uma pessoa negra, exercitando a sua posição enquanto ser manifesto no cabelo, porém que fora reprimida pela mulher branca e de mais idade para que não “seja”, que não exista, que invisibilize-se, embranqueça-se com a touca.

A segunda violência não menos pior, esta física, porém, ocorre quando a mulher adulta força a jovem a retirar de sua boca o batom vermelho, esfregando um guardanapo na boca dela, o que a faz chorar. E o choro é a expressão corporal da violação que a mesma é obrigada a suportar.

Cabelo e batom são os símbolos da identidade corporal e geracional da jovem, conforme descreve visualmente o clipe, porém, agora, desautorizado e violentado. Há, a um conflito racial ali, expresso no conflito subjetivo e físico entre gerações e entre empregadores e empregados, aonde a empregadora reprime a manifestação da jovem de sustentar seu desejo, ou seja, seu desejo em ser, e ser uma pessoa que tem negritude, bem como, sua feminilidade como mulher negra, me parece.

Fim do genocídio ou miscigenação como possibilidade de realização da liberdade?

Como dito anteriormente, o clipe busca narrar uma revolta. Esta revolta é planejada e justifica-se pelas constantes violações raciais e classistas que as empregadas e os empregados sofreriam, estando ilustrado pela violação a identidade da jovem.

Algumas pessoas poderiam dizer que se trata de uma condição de ressentimento. O ressentido segundo Maria Rita Kehl seria aquele que se queixa por que se vê vitimado por uma ação de outrem. Sensível o ressentido detém uma constelação de sentimentos como a raiva, a magoa, o desejo de vingança. Narcísico o ressentido se mostra como vítima, injustiçado, mostra-se como alguém que busca vingar-se por este mal que lhe foi cometido. O sentimento ressentimento é uma mágoa que não se supera, que não se esquece e que o ressentido não quer esquecer. No entanto, aquele que se revolta, alerta a psicanalista, contra uma injustiça, contra uma opressão, contra um Estado adverso não pode ser considerado como ressentidos.

Revolta é justamente o desejo de sobrevivência expresso sob a linguagem da violência que busca a sua sobrevivência que está sendo ameaçada. A revolta é vital, é ativa e pretende modificar politicamente a condição de injustiça, opressão, etc., almejando direitos. Enquanto o ressentimento é o avesso, é a-político, passivo, vitimiza-se.

Ressentimento é submissão, revolta é insubmissão, ele permite a injustiça, a ofensa, o abuso, a revolta quebra a injustiça e busca direitos, dignidade e seguridade. Às vezes, a submissão vem devido ao poder de dominação, claro, seja ele militar, ideológico, etc., ainda sim neste caso os grupos insubmissos irão criar novas formas de insubmissões para tentar quebrar estas regras, seja pela via cultural, ideológica, etc., como me parece ser o caso das empregadas quando estas cospem no alimento que irá ser servido, após a violência da mulher branca contra a jovem negra violentando sua identidade sociocultural manifesta com o cabelo.

Durante a revolta descrita no clipe, articuladamente este grupo inicia sua ação política devolvendo na moeda política o desprezo, a violência, a restrição à identidade (bem ilustrado pela jovem negra cortando o cabelo da empregadora branca com uma tesoura), ateiam fogo as roupas, a casa, etc., estabelecendo posteriormente o Quilombo (forma histórica de revolta e insubmissão dos negros escravizados contra o regime escravocrata), onde as regras são ditadas pelos violentados agora insurretos.

 

O quilombo das domésticas gera outros quilombos em todo país. O clipe monta que este processo de libertação não é só de negros e negras e mulheres brancas pobres de outros indivíduos encaixados no mesmo círculo de violência. Uma delas é uma jovem branca “liberta” da imposição do casamento forçado, motivo da reunião dos empregadores, parece-me.

Sua liberdade, porém, é estranhada. Sua libertação é exercida quando da possibilidade de violência de seu corpo por parte do jovem, também, doméstico contra ela, na eminência de um possível assassinato dela com o uso de uma garrafa quebrada. Ele não o faz. Ele a beija. E este beijo, segundo o clipe, é libertador a ela. Vemos o casal beijando-se e depois ambos queimando o vestido de casamento.

Não vou cair no senso comum de o clipe peca. Creio que o audiovisual tem destas coisas. Nós nos empolgamos com a imagem e a sonoridade, com o que está ocorrendo, e ao nos envolver, criamos expectativas, mas nem sempre nossas expectativas são atendidas. Particularmente esperava outra coisa. Minha questão é. Será mesmo que a libertação do homem negro em seu processo de revolta ocorrerá com uma relação inter-racial? Será mesmo que o homem negro tem o poder (ou dever) de “libertar” a mulher branca da opressão do patriarcado e da repressão sexual? Aliás, será que qualquer mulher negra e a mulher branca (esta rica ou não) dependem deste homem negro para alcançar sua própria liberdade? E por fim, por que esta escolha dos diretores, referendado pelo rapper, que inclusive aparece no clipe, em construir um final épico de romeu e julieta negro e branca, visualmente descrito na relação inter-racial entre o jovem trabalhador e a jovem rica, e, por exemplo, não deste jovem negro com a empregada doméstica negra de mesma origem social, de mesma coporalidade?, mais ao estilo Jango Livre (2012) de Quentin Tarantino.

Quero pensar em que não se trata de um “fatalismo”, ou seja, de que existem relações e sujeitos que “devem” casar porque tem alguma forma de semelhança: cor da pele, origem social, etc. É a violência das relações que determina a segregação que o clipe parece questionar. Porém, buscar uma narrativa em que este personagem vá se relacionar com a mulher branca jovem e rica, e não com a mulher branca que trabalha, bem menos, com a mulher jovem negra, é o problema, parece-me. E um problema no nível ideológico-visual. Ideológico por que político, embora se pretenda contra hegemônica partilha do modo de pensar hegemônico que reproduz as próprias relações raciais no Brasil, ou pelo menos sob o sentido da utopia do Brasil mestiço. E visual por que se trata de um audiovisual cuja narrativa busca questionar este aspecto ideológico.

Caberia um esforço de olharmos para as relações raciais presentes neste videoclipe e traze-las as relações em nossa realidade vivida. Caso façamos, lembraremos de dados e reflexões de o racismo no Brasil ser estrutural, institucionalizado e cotidianamente negado mas pode ser visto publicamente expresso tanto nas políticas de segurança pública quanto de distribuição de renda, por exemplo. É a população negra a que mais tem seus pares assassinados e encarcerados proporcionalmente ao desenvolvimento das estratégias de segurança baseadas em rondas ostensivas, o apelo à capacidade de punição e a vingança do encarceramento como saída para resolver conflitos. Isto junta-se a proporcionalidade com que muitos estão em postos de trabalho precarizados. A perseguição às religiões de matriz africana.

Esta condição de genocídio da população preta no Brasil tem sua faceta ideológica apresentada também nos discursos políticos, por exemplo, de sermos nação miscigenada, ainda que haja na prática uma constante censura à manifestação cultural cuja referência é africana e\ou negra brasileira tal como mostra o clipe com a repreensão da jovem mostrar seus cabelos. O apelo à brasilidade do discurso oficial das instituições do Estado (e que o próprio RAP questionou desde o seu surgimento) é utilizada em sua maior parte do tempo como forma de tornar invisível a população negra brasileira, quando as próprias instituições não criam políticas de extermínio físico, como vemos atualmente na chamada “guerra as drogas”. O discurso da miscigenação é a estratégia ideológica para embranquecer a sociedade ele diz que não somos um território negro, mas um território “misturado”, ainda que a base material e simbólica do próprio Estado, de sua riqueza e da cultura seja ela mesma hegemonicamente produzida por negras e negros ou tenham estes referenciais como suporte básico.

E é aí que o clipe trava, a meu ver. Se ele avança e demonstra a violência do racismo nas relações de trabalho e o quilombismo como meio de revolta política. O seu final, porém, partilha do ideal da miscigenação representado pela relação entre o jovem negro e a jovem branca. Em outros termos, não se trata de idealizar uma sociedade livre e monocromático, mas de problematizar que a visualidade do clipe apela para o imaginário da miscigenação como saída para negros e brancos no Brasil violentados pela elite (que não é em nada miscigenada) alimentada e alimentadora do sentimento escravocrata.

O próprio clipe partilha e verbaliza visualmente este ideal do racismo brasileiro, neste ponto específico da relação entre o casal inter-racial. O discurso ideológico da miscigenação é quem diz que há casais “mistos” como fundamento do parentesco nacional quando na verdade os negros e as negras continuam excluídos e partilhando do desprezo da elite. O filme poderia valorizar formas de parentesco que é diversificada entre pobres não apelando para a miscigenação que, na prática, não ocorre, ou ocorre pouquíssimo. E elite brasileira efetivamente não se mistura este é o seu ideal de família tradicional brasileira, uma família racista e que almeja o embranquecimento do país.

Homens e mulheres negros continuam relacionando-se entre si majoritariamente e são ao mesmo tempo forçados a ocupar os postos de trabalho inferiores e as moradias precárias, tais como as favelas, as quais, como afirma o filme é uma bomba relógio a explodir. O que brancos pobres e negros tem em comum e é aí que eu vejo a unidade política de ambos, trata-se do desprezo que a elite (não negra) tem em relação ao negro e ao pobre (negro ou não).

A meu ver não a revolta dos que sustentam o país, majoritariamente negros, não depende em nada de uma “miscigenação” para a construção de sua revolta, de sua liberdade ou de seu discurso ideológico de pertencimento, direitos, etc. O clipe poderia ter ido por este caminho, como estava, da liberdade política por meio da solidariedade entre mulheres inter-raciais, ou intergênero do homem com as mulheres contra homens e mulheres racistas e violentos, e, por fim, do homem – ou poderia ser mulher – negro (a) e da mulher – ou poderia ser homem – branco (a) – ou de casais homossexuais, trans, etc., solidários entre para a supressão de relações forçadas como o casamento agendado. E não do apelo a liberdade sexual pela miscigenação, vulgo embranquecimento do negro, como se isto fosse resolver o problema, inclusive, da própria repressão sexual, seja de quem for.

Willians Santos é mestre em Sociologia pela Unicamp.

Um comentário sobre “EMICIDA e as relações INTERRACIAIS em seu videoclipe Boa Esperança

  1. Pingback: Race, revolution and interracial relations: Revisiting rapper Emicida’s video ‘Boa Esperança’, the most courageous video of 2015 | Black Women of Brazil

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s