O submundo da Virada Cultural: o Okupalco e a Virada Ilegal

Por Priscila Silva

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Foto: Priscila Silva

Começa a Virada Cultural: São Paulo fica imersa em meio à atmosfera de música, pintura, teatro e orquestras. A caminho das atrações, os passantes falam sobre música, e famílias transitam juntas em busca da melhor opção para começarem a noite. Consome-se e respira-se cultura.

No Vale do Anhangabaú, em frente ao jardim do Teatro Municipal, uma movimentação acontece, e um aglomerado de pessoas surge em torno da antiga fonte desativada. Logo aparecem caixas de som, baterias e guitarras. Surgem moicanos e cabelos coloridos, vindos de todas as direções. É o Okupalco começando a ocupação do jardim para dar início à Virada Ilegal.

Em entrevista à Revista Escrita Pulsante, o organizador e idealizador da intervenção, Fernando Abreu, fala um pouco sobre o evento que contou com a participação de inúmeras bandas, garantindo 24 horas de shows.

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Foto: Priscila Silva

Fernando é o idealizador do movimento que teve como inspiração o Palco Test, que já tinha iniciativas de ocupação de espaços públicos para promover eventos culturais alternativos e independentes, promovendo cultura nas regiões mais afastadas da periferia. Com baixo orçamento recolhido e muita vontade, com o apoio dos “coletivos” (este ano participaram os coletivos Roque Subleste, Projeto Shadowplay, Desobediência Sonora, Okupalco e Open Underground), grupos de pessoas atuantes na organização de eventos nas periferias de São Paulo, bandas de punk rock e outros estilos “ocupam” espaço num grandioso evento que marginaliza determinados tipos de música, dando preferência a estilos clássicos e público seleto, estilo este que não os representa. “A prefeitura, este ano, tirou do centro o funk e outros tipos de músicas da periferia. Eu não curto funk, mas o funk faz parte da cultura desta região da cidade, e não deveria ser ignorado. Espalharam estes eventos pela própria periferia, para perder força”, diz Fernando. Ainda para o idealizador do Okupalco, “a Virada Cultural já é o evento mais esperado pela população da periferia de São Paulo”. Neste grandioso acontecimento, a população consegue ter acesso à cultura erudita, e abrem-se possibilidades de conhecimento sobre um mundo que lhes é, muitas vezes, estranho e inacessível.

Estaria, então, a Virada Cultural construída sob os moldes de um conceito de cultura que visa segregar, e não formar o cidadão que dela participa? Em princípio, a Virada Cultural permite o acesso à formação e aperfeiçoamento do cidadão no quesito cultura erudita. Porém, em relação à abrangência da escolha dos eventos, cabe perfeitamente a citação de um dos maiores sociólogos de nosso tempo, Sygmunt Bauman, que diz que “a cultura hoje se assemelha a uma das seções de um mundo moldado como uma gigantesca loja de departamentos em que vivem, acima de tudo, pessoas transformadas em consumidores”. Bauman cita, ainda, as grandes megastores e suas prateleiras, nas quais são apresentados os “produtos culturais” para atrair e seduzir consumidores. A escolha de uma programação requintada, portanto, atrai um determinado tipo de público consumidor de cultura, e, ao mesmo tempo, permite à parcela mais carente da população, que normalmente não possui acesso a tais eventos, que também se tornem consumidores dos produtos culturais mais atrativos às classes sociais superiores.

O Okupalco e a Virada Ilegal inserem, na programação, a identidade de uma região de peso significativo na formação cultural de grande parte da população, rompendo com moldes e padrões estéticos impostos a tal evento.

Foto: Rubens Müller

Foto: Rubens Müller

Quando questionado sobre uma possível “legalização” do Okupalco, Fernando deixa claro sua indiferença, uma vez que a intervenção é móvel e realizada em várias partes de São Paulo, através da organização dos coletivos. “Este ano a prefeitura tentou nos intimidar colocando um evento aqui ao lado [referindo-se ao Museu do Teatro Municipal], mas é um evento insignificante. A prefeitura gasta muito dinheiro com estes espaços inertes, que poderiam estar sendo ocupados para disseminar cultura, mas prefere deixá-los abandonados”, ressalta Fernando.

Em frente ao Okupalco, outro aglomerado, munidos de caixas de som, o Sound System aproveita a Virada Ilegal ao som de reggae. A periferia de São Paulo mostra sua força às autoridades, e impõe-se, ainda que sorrateiramente, pelas margens, como produtores e consumidores de cultura.

Na Rua Barão de Itapetininga, Elvis Presley toca e dança seu rock’n’roll empolgante, em sua roupa branca e cabelo impecáveis. Frente à Estação República do metrô, um artista pinta azulejos com destreza e precisão: artistas participantes de uma Virada Ilegal, mostrando sua arte e encantando o público que passeia pelas ruas do centro da cidade. A Virada Cultural erudita encontra a Virada Ilegal marginal, mas aqui, ambas dão-se as mãos e seguem juntas, noite adentro.

*Citação de Sygmunt Bauman retirada de “A cultura no mundo líquido moderno”.

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