O medo das raízes

Por Robinson Alvez

Preciso ser um outro

para ser eu mesmo

(Mia Couto, Identidade)

As raízes andam sufocadas em São Paulo. Cercadas de pedra, poeira, asfalto e cinza, não encontram no grito das cores o respiro que as flores têm. Não são levadas, arrastadas, embaraçadas, sacudidas, sustentadas, despidas, sequer tocadas, como são as folhas e os galhos ao vento; quando muito, são culpadas por não sustentarem mais o peso do tronco, quando vai ao chão a árvore. “Saudável”, dirá um pedestre, “mas de raízes fracas”.

E a raiz, o que ela procura? Terra. Não “uma” terra, não qualquer terra, mas “A” terra, apenas. No caminho que faz, a raiz não se constrange mais com a pedra, com o cinza, e brutalmente abre espaço até alcançar seu objetivo, a vermelhidão marrom da terra. Feia como a brutalidade sabe ser, a raiz impõe-se à ordem e cria em si e por si um novo sentido à palavra medo: quanto mais fundo consegue ir rumo ao coração da terra, mais visível e menos vista se torna.

Aline Magnos apresenta suas raízes na exposição “Deidade-Gente”, em cartaz na Passagem Literária da Avenida Paulista até 27/6.  As obras materializam basicamente temas arquetípicos – aquelas imagens que beiram o onírico e que pertencem ao caldo que dava liga à existência na Pangeia, quando ainda não sabia a Terra os filhos que teria. Nas obras, o Animus e a Anima, porções do inconsciente que buscam a totalidade em sua incompletude, manifestam-se pelo jogo estabelecido pelas raízes: as figuras femininas diferenciam-se das figuras masculinas pela presença de raízes em vez de tronco – o masculino busca uma solidez sem saber que o segredo está em entranhar-se, não em estabelecer-se?

A melancolia de Ceres, a deusa-mãe romana que luta para reaver o bendito fruto de seu ventre, Prosérpina, ainda que para isso tenha que condenar a existência humana ao perecimento, está marcada nas cores fortes e no traço carregado. Como sabiam os romanos, a existência tem um termo, e a finitude obriga a uma postura diante da vida: é preciso lembrar, é preciso construir uma memória que se torne permanente, ainda que pereça o corpo. Por isso elegeram Ceres como a mãe de seu povo – as raízes, elas que garantem o contato entre os tempos.

A porção deidade encontra a porção gente em Medeia, a absoluta mulher que age com o que há de mais masculino (e não estamos falando de sexismo, mas sim de arquétipos, sim? Obrigado.) para levar a cabo sua vingança, matando os filhos que teve com Jasão. Conta a mitologia – ou seria a teologia? – que Medeia foge para Atenas e leva consigo seu filho, Medo, e dele faz rei.

Como não pensar no medo que a boca escancarada em labirinto infinito demonstra na obra de Aline?  Esse medo-rei retoma seu lugar a cada pincelada (e a cada costura, uma vez que há espaço para experimentação que remete aos Parangolés de Oiticica), e é a “feiticeira das encruzilhadas, padroeira da magia, “deusa-demônia”, como Chico Buarque desenha sua Medeia em Gota d’Água, que faz do medo o rei.

Num mundo desencantado, somente a anormalidade – a queda da árvore sem aviso prévio – pode dar a conhecer a força da raiz, revirando o calçamento das sensações.

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