Amostras do machismo cotidiano

Por Fernanda Fernandes

“Querer ser livre é também querer livre o outro”

Simone de Beauvoir

machismoMais um dia amanhece e elas pegam o metrô ou ligam seus carros. Bem vestidas, seguem para os seus respectivos trabalhos de cabeça cheia e coração preocupado. Estas mulheres vão em busca do pão de cada dia e do crescimento pessoal.

No metrô, de pé, embaladas em seus próprios devaneios, ainda meio dormindo por causa do cansaço das aventuras do final de semana, elas são surpreendidas por um homem que as devora grotescamente com os olhos. Elas, forçosamente, acostumadas com os olhares despudorados, encaram aquele ser e lançam um olhar de menosprezo, ignoram-no após esse ato.

Isso quase sempre dá certo com essas mulheres fortes, só que desta vez o homem continua comendo com o olhar. Mais uma vez, elas fazem o mesmo e encarando com raiva o ser patético, elas cruzam os braços como querendo chutá-lo para fora do vagão.

Para não bastar os olhares maliciosos e insistentes, o homem manda um beijo para algumas moças. Elas, já exaustas, respondem algo grosseiro tentando mostrar suas indignações, os homens que viram a cena permanecem intactos e as olham como se fossem loucas ou exageradas.

O tolo ser não se abala com os gestos de repúdio das moças e ainda dá um sorriso hipócrita. Raiva nos olhos e raiva em suas bocas. Sem mais nada a fazer, descem na próxima estação indignadas e no fundo com certo medo dele vir atrás delas.

Chegam ao serviço abaladas e oprimidas por tamanha falta de respeito, lá lembram que ainda existem homens no mesmo cargo que ganham mais. Na hora do almoço, escutam suas amigas se lamentando, porque brigaram com seus maridos, pois estes querem que elas parem de trabalhar para cuidar do filho pequeno.

Aquelas que saíram com seus carros para irem trabalhar, embora possam estar sozinhas em seus automóveis, se encontram aborrecidas por ouvirem sempre: “tinha que ser mulher”, “mulher no volante, perigo constante”.

Após estacionarem seus carros e saírem deles são abordadas por algum desocupado na rua: “Que delícia”, “Gostosa”. Elas ignoram e chegam ao trabalho sentindo-se igualmente impotentes diante de tais comentários grosseiros. E mesmo assim seguem, mesmo assim produzem, mesmo assim enfrentam o machismo ousado e criminoso que não se envergonha que não diminui, que não finda.

Quando ainda eram crianças ouviam que seus irmãos não podiam brincar de boneca porque era brincadeira de menina, e que elas, meninas, não podiam brincar com eles de queda de braço, pois isso era brincadeira de menino. Uma vez, uma delas ouviu de sua mãe a pergunta: “Por que você não arrumou a cama de seu irmão?” e ela, adolescente, respondeu: “Porque a cama é dele, é ele quem tem que arrumar”, a mãe insiste: “Mas ele é homem.”. Felizmente, ela não cedeu, não arrumou a cama que permaneceu sempre desarrumada até seu irmão sair de casa.

Algumas amostras simples, só amostras.

Até quando a mulher ainda terá medo de passar naquela rua sozinha no período da noite? Até quando os homens sentarão nos bancos dos metrôs ou ônibus de pernas absurdamente abertas ignorando a presença de outro ser humano ali?

Não ao corpo que nos dizem pra ter, não ao padrão de beleza clássico, não à perfeição, não ao silêncio, não ao sexo sem vontade, não ao orgasmo fingido, não à fragilidade, não a toda forma de manipulação e exclusão femininas!

Que sigamos unidas de mãos e corações dados contra toda essa violência enrustida de atos simplórios.

Avante!

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