Um certo homem da América

Por Débora Duarte

Campo de Trigos com Corvos - Van Gogh

Campo de Trigos com Corvos – Van Gogh

Era final de fevereiro, num destes dias em que se caminha nobremente com perspicácia e provido de doces doses de intenção. O ouvido envolto por ruídos desconhecidos intentava, de forma insistente, desbravar os sons que se coadunavam ao sorrateiro anoitecer, buscando perfurar os sintagmas do devir. Sobressaltada, ouvia estridente a poluição que escorria de dentro de si. Almejava dar forma e sentido a tudo aquilo que lhe habitava, mas sem êxitos regressava ao ponto de partida. Insucessos se somavam à sua penosa e amarga existência, contudo um feixe de luz assoprava e se abria efervescente ante sua desesperança.

Naquela noite tivera a ficção de bailar suas mazelas diante da grande plateia, gritar em silêncio sua falta de fé, subtrair-se de todo e qualquer desassossego. E assim caminhou rumo à persecução de seus sonhos, sempre ignóbeis e paupérrimos. Ninguém dava conta de sua humilde presença, afinal: o mundo é um moinho e nada pararia para aplaudir suas desavenças e infortúnios.

Saindo no horário que marcara consigo mesma, trafegou em direção ao inesperado e, antes de dar o sétimo passo, sentiu-se olhada, enxergada por um Outro que, ademais de silente e estrangeiro, traduzia-lhe uma atmosfera perigosa ainda que envolvente e intrigante. Ela o leu; ele interpretou-a minuciosamente, na tentativa de compreender a anatomia daquela aparição irreversível.

A jovem parou um instante e de forma suave retrocedeu, umedecendo de cálculos seus movimentos. Relutante, voltou ao caminho outrora designado. Caminhou com parcimônia e, desconfiada, parou: apegando-se uma vez mais aos seus medos. Intacta e congelada não agiu. Entretanto, sabia que o contexto a convocava e frente ao movimento embriagante do mar, olhou para trás com certo resfôlego, para em seguida entregar-se de corpo com algumas doses de alma.

Sentado sobre a areia lá estava ele: era um homem de um metro e noventa, na altura de seus trinta e três para trinta e quatro anos, madeixas desbotadas e mirradas, de pele tanto opaca quanto dourada, de olhar atento, de riso pérfido e colossal. Ela sentia que ele estava pronto para algo, mas assim como ele, não sabia o quê. Ela tinha cautela, espécie de defesa que carregava na bagagem dissimulando parte de sua inocência. De forte intuição, desejou prosseguir. Não hesitou e, sem muita prosa, se foi.

Dois dias se passaram sem qualquer reencontro. Aquela cena havia quedado impregnada nos vãos de sua memória, que aos poucos começavam a se preencher de espaços em branco, vazios e movediços. Diante daquele ritmo, o esquecimento seria inevitável. Cada vez que se sentia inquieta e desejosa de reacender as chamas do casual contato, atirava-se ao mar e morria para suas lembranças. Cada gota d’água pincelava refrescante as tantas ebulições mentais que a atormentavam, fazendo-a esvair fortemente do presente.

Às vésperas de seu retorno, enquanto arrumava as malas, tratando de realocar a vida ao seu hábitat natural, percebeu-se cansada e, ao longe, ouviu algo que lhe movia. Mal podia esperar! Decidiu parar de dar ordens às coisas. Foi para o banho, botou cheiro e linda ficou para o que, passadas algumas horas, seria o reencontro final.

Foi a uma destas festas desinteressantes, procurando entender como funcionava a vida da gente de escola, cinema, clube e televisão. Invariavelmente sentiu-se estrangeira: ia, ficava, voltava, fugia, porém nada lhe contentava. Passou quase toda uma noite em devaneios. Quando preparava-se para bater em debandada, olhou para o horizonte e o avistou. Seus olhares se chocaram e em bem menos de um minuto ela se encontrava ao lado daquele sujeito tão adventício quanto ela. Falaram sobre os despropósitos de toda uma vida, confessaram medos inconfessáveis, mentiram, iludiram, digladiaram forças e juraram um tal de amor eterno enquanto dure. Ela falava de Mutantes, de Caetano e de Rimbaud; ele de Nietzsche, Charles Baudelaire, Grotowski e Janô.

Aparentemente completos se desejavam e demoravam um na presença do outro. Sem dor nem pudor usavam um conta gotas para relatarem suas narrativas. O tempo era ingrato. Ele queria ver a bola de fogo nascer com toda sua imponência, ela queria o ‘adeus’, talvez um ‘até logo’ prolongado. Todavia, algo a prendia. Agora era ela quem não sabia o quê, muito embora aquela trama em muito se assemelhasse a roteiros conhecidos em outros carnavais. Olhou-o e, devorada pelo medo, disse-lhe um áspero ‘adeus’. O dia que começava a esconder a noite, a lua e a colcha de retalhos reluzentes, a fazia desaparecer. E ela se foi de modo tão fugaz quanto a explosão de uma sublime estrela-cadente, como estas que desejamos encontrar, amar e fazer pedidos inconfessáveis, mas que impiedosas irrompem no breu do mundo, fazendo de nossos sonhos as cinzas de uma quarta-feira qualquer.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s