Vozes da Cidade: os murais da crítica em Recife

Por Thiago Nunes Soares

Em fevereiro de 1980, o Prefeito Gustavo Krause inaugurou no Recife os primeiros Murais da Crítica, espaços públicos construídos para que a população pudesse se expressar e se comunicar com o governo através da realização de pichações e grafites. O discurso da prefeitura era que os murais poderiam concentrar essas inscrições urbanas em locais estratégicos “e canalizar a crítica dentro do processo de abertura política, na tentativa de deixar mais limpos os muros da cidade”, conforme a propaganda veiculada nos jornais da época.

Essa proposta pode ser interpretada e analisada de diversas perspectivas. Como a prática política de um prefeito que se posicionou, em parte, favorável à mudança do cenário político-social, diante do crescente desgaste da ditadura civil-militar e da intensa atuação de diversos segmentos da sociedade que reivindicaram liberdade de expressão e melhores condições de vida naquele momento. Foi uma boa oportunidade de Gustavo Krause tentar construir a imagem de um político democrático e tentar angariar a confiança e simpatia do eleitor.

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Imagem 01 – Mural da Crítica, Recife, 06/10/1980. Acervo Iconográfico – Museu da Cidade de Recife. Tombo nº 18. Referência nº 14529

Além disso, essa ação pode ser entendida como mais um mecanismo de combate às pichações e grafites na cidade. Durante o período ditatorial essas escritas foram proibidas por leis e muitas vezes causaram prejuízos financeiros aos cofres públicos e a alguns proprietários de imóveis, sendo recorrente nos jornais a produção, apropriação e difusão de discursos que associaram essas produções gráficas a atos de vandalismo, incivilidade e poluição visual urbana.

Dessa forma, os murais constituíram-se como uma forma de disciplina, na medida em que algumas pichações e grafites passaram ao controle, enquadramento e disciplinamento do poder público. Isso porque essas expressões gráficas são intervenções transgressoras, ou seja, manifestações não autorizadas.

Esses espaços também se tornaram um instrumento de comunicação e expressão de diversas pessoas e segmentos sociais que possuíram posicionamentos políticos bastante variados. Lançaram mão de seu uso: cidadãos para denunciar problemas urbanos, estudantes, anticomunistas, poetas, candidatos políticos, propagandistas, entre outros.

Durante a gestão de Krause, os murais foram construídos em espaços de grande visibilidade. Uma escolha proposital, ao ser levado em consideração o fluxo de transeuntes que poderiam visualizar as pichações. Neles, qualquer pessoa poderia pichar e/ou grafitar sem nenhuma penalidade, num momento de ilegalidade e menor repressão policial a essas escritas. Além disso, esse político encaminhou fotógrafos para registrar constantemente as reivindicações da população nos murais, com a argumentação de que iria ler e atender os anseios sociais. Pelo o que pudemos verificar na pesquisa, pouco ou quase nada foi feito pela prefeitura a partir das reivindicações dos murais. Como essas escritas continuaram sendo realizadas em outros espaços da cidade, elas ainda foram combatidas pela polícia e consideradas como um problema urbano pela prefeitura.

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Imagem 02 – Pichação “BASEADO MEU AMOR”, 1980 Acervo Iconográfico – Museu da Cidade de Recife. Tombo nº 18. Referência nº 14507.

As temáticas registradas nos murais foram bastante diversificas. A pichação “ESTA CIDADE FEDE” (fotografia 01) traz à tona uma crítica ao problema do fedor da cidade, questão recorrente nos jornais da época e ainda um problema atual na capital pernambucana. Conforme é possível visualizar na imagem 02, os murais foram utilizados também como instrumento de propaganda, com a colagem de um cartaz; e como expressão de liberdade, ironia e sensibilidade, com a frase: “BASEADO MEU AMOR”. Essa pichação possui um sentido polissêmico: uso de drogas (o cigarro da maconha é conhecido popularmente como baseado), em que o cigarro de maconha é o amor da pessoa que pichou ou mesmo o oferecimento de um “baseado” a alguém.

Ainda no que tange à discussão da diversidade das temáticas presentes nos Murais da Crítica, destacaremos agora as pichações com discursos anticomunistas (imagem 03). As frases “MORTE AOS COMUNISTAS” e “ABAIXO OS PADRES VERMELHOS” expressam a intolerância e a propagação da violência contra os comunistas e contra os padres cujas práticas são associadas ao comunismo durante o período da Guerra Fria.

Imagem 03 - Pichações anticomunistas, 1981. Acervo Iconográfico - Museu da Cidade de Recife. Tombo nº 21. Referência nº 25681.

Imagem 03 – Pichações anticomunistas, 1981.
Acervo Iconográfico – Museu da Cidade de Recife. Tombo nº 21. Referência nº 25681.

Com o tempo os Murais da Crítica passaram a ser menos utilizados. Pelo o que pudemos verificar na pesquisa, isso se deveu principalmente pela colagem de cartazes propagandísticos e pelo crescente desinteresse da população em usá-los, possivelmente pelo fato de muitas reivindicações não terem sido contempladas pela prefeitura do Recife. Além disso, uma pichação em espaço público proibido tendia a ter mais força que em um mural autorizado e institucionalizado pelo prefeito, pelo maior grau de transgressão.

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Thiago Nunes é Doutorando em História pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e Professor da UVA/PE e da FEPAM.

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