Desabafo ou qualquer outro título piegas. Estrangeira de minha terra

Por Fernanda Fernandes

Imagem: "his body 1" - Julianne Wallace Sterling

Imagem: “his body 1” – Julianne Wallace Sterling

Aconteceu um fato semana passada que me preocupou e tocou tão intimamente quanto o feminismo me atrai e me provoca.

Falo do estupro cometido na estação República no dia 2 de abril, que só veio a público dia 6, pois empregados do metrô o denunciaram. Se fosse pela empresa, não estaríamos sabendo de nada e continuaríamos a reclamar somente do caos que é o transporte “público” sempre absurdamente cheio e desumano, fora o preço abusivo da passagem, e, claro, o ar condicionado, que muitas vezes faz-nos sentir no inverno europeu.

Eu me senti, por incrível que pareça, segura dentro do metrô de São Paulo, tendo por medida seus funcionários sempre tão presentes e responsáveis. Mas após saber de um fato desses, me questiono: Quais outras atrocidades já aconteceram e foram encobertas por essa empresa e pela política?

Estou na França há 7 meses e começo a ter medo de voltar para o Brasil, não por um pensamento “coxinha” de não querer morar no Brasil, pois sou a favor da volta da Ditadura ou porque meu partido favorito não ganhou e blá blá blá! É justamente pela falta de segurança, de confiança na nossa polícia, de humanidade e de qualidade de vida.

Sim, aqui existem problemas, preconceitos, desigualdade social, transporte público que não é público e tão caro quanto o nosso também, cheio dependendo do horário. Mas, aqui você pode andar nas ruas tarde da noite com a certeza de que não será assaltado à mão-armada, ou estuprada: uma das manifestações de machismo e poder mais fortes, mais desumanas da face da Terra. Existe um inverno pesado e também um povo frio, que quando não é frio é morno.

Par contre, aqui tem segurança que o dinheiro dos ricos e da classe média alta do Brasil não compram, porque isso Master Card não consegue cobrir.

Não me julguem achando que sou uma “burguesinha” que vive nos arredores de Paris com o dinheiro dos pais. Claro que algumas raras vezes eu preciso de alguma pequena ajuda, pois minha ocupação aqui como Au Pair me paga em espécie pouco por mês e é bem difícil viver com isso em uma das cidades mais caras do mundo. Mas não, não sou o que possa parecer, que vive criticando o Brasil porque o PT está há tantos anos no poder. Sou uma artista e um ser- humano que busca conhecimento para trabalhar melhor na sua área de interesse e paixão. O que eu quero? Paz e dignidade como todo ser humano.

Volto para o Brasil no meio do ano, com saudade e com amor, mas com receio e tristeza, e não sei se mais por essa parcela da população que pede intervenção militar e que defende e apoia os políticos homofóbicos, ou pelo nível de criminalidade e a falta de segurança sobre as quais já me manifestei nessas linhas.

Gostaria mesmo de finalizar esse texto

com uma mensagem otimista, mas nesse momento sinto meu estômago embrulhado. Que possamos seguir fazendo nossa parte, mesmo enjoados ou indignados.

Vai Brasil!

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