Saliva, confetes e sangue na caneta cortante de Carolina Maria de Jesus

Por Raffaella Fernandez

Carolina de Jesus Da publicação de seu primeiro livro “Quarto de despejo: diário de uma favelada” publicado em 1960 com o apoio do jornalista Audálio Dantas, devemos dizer que a tiragem inicial, que seria de três mil exemplares, foi de trinta mil, que se esgotaram em apenas três dias na cidade de São Paulo. No Brasil só em 1960 foi reimpresso sete vezes. Foi traduzido em 14 línguas, publicado em 20 países e circulou 40 países, cuja venda alcançou a marca de um milhão de exemplares. Foram produzidas edições na Dinamarca, Holanda e Argentina. Em 1961 na França, Alemanha (Ocidental), Suécia, Itália, Checoslováquia, Romênia, Inglaterra, Estados Unidos e Japão, em 1962; Polônia, em 1963; Hungria, em 1964; Cuba, em 1965 e, entre 1962 e 1963, na União Soviética, chegou inclusive a ser proibido na Portugal de Salazar. Portanto, falamos de um best seller que definiu a favela como o “quarto de despejo” da sociedade em contraposição a “sala de estar”.

           Mas a criatividade e sabedoria de Carolina de Jesus não se encerram nessa impactante obra. A autora possui mais de 5 mil páginas manuscritas, totalizando 58 cadernos que contém 7 romances, mais de 60 textos com características de crônicas, fábulas, autobiografia e contos, mais de 100 poemas, 4 peças de teatro e 12 marchinhas de carnaval, até o momento mapeados na pesquisa de doutorado “Processo criativo das narrativas esparsas no espólio Carolina Maria de Jesus” desenvolvida junto ao IEL- Unicamp.

Carolina de Jesus2A obra literária de Carolina de Jesus ainda não foi totalmente publicada tão pouco do modo como ela definiu ou sinalizou em seu processo criativo. As editoras interessam-se apenas pelo caráter testemunhal da obra de “uma escritora favelada” a mantendo nesse estereótipo. Recheando com coloridos confetes de sangue, a saliva e a caneta cortante da autora. No entanto, a potência da escrita Carolina de Jesus pulsa nos fólios manuscritos, como podemos ler em novas publicações que trazem outros prismas da autora, seja na recente publicação da narrativa “O escravo” e o poema “Os feijões” na Revista O Menelick- Ato 2 e na publicação da crônica autobiográfica “Favela” e de um de seus contos inédito “Onde estais felicidade?” homônimo do livro publicado em ocasião do centenário celebrado em 2014. Certamente estas mostras invocarão novas possibilidades de publicação da obra dessa importante autora da história da cultura brasileira, sobretudo, porque as transcrições procuraram atender aos projetos de escrita da autora cultivando a linguagem “oculta” da língua portuguesa que ela carrega como marca estilística.

           Além disso,vale dizer que poucas pessoas conhecem as excentricidades de Carolina de Jesus, atitudes próprias de alguém que vivenciava um devir artista em seus gestos quixotescos, forma de ser que foram julgadas por seus contemporâneos como “loucura” proveniente das condições de marginalidade insana em que sobrevivia. A escritora usava apenas sapatos de homens, escrevia a noite sob luz de velas ou debaixo de árvores quando foi morar no sítio ou sobre o corpo de Vera Eunice adormecida. Confeccionou três fantasias de carnaval, uma de paetês, outra com diversas lâmpadas amarradas num lençol que chamava de luz do universo e a primeira com penas de galinha da angola, em contraposição às plumas das grandes vedetes, que foi recosturada a cada carnaval no período em que viveu a beira do rio Tietê.

Passados cerca de cem anos de sua existência ainda nos perguntamos junto com Carolina Maria de Jesus “onde estaes felicidade?” E oferecemos um pouco mais de sua literatura tão atual e interditada que aos poucos se aproxima do público. Segue a transcrição de uma das versões dos poemas “Negros” e outra do poema “Rebotalho”, que curiosamente não fazem parte da “Antologia pessoal”, cujos versos foram publicados em 1996, e demonstram, junto com o poema “O feijões” que a temática da negritude perpassa as “escrevivências” do corpo-texto de Carolina de Jesus.

Negros

Negro tem todos defeitos
Sofre sempre humilhação
Se reclama o seu direito
Nunca o negro tem razão.

O negro não tem defeito
Tem qualidade e valor
O Judas não era prêto
E vendeu Nósso Senhór.

Tua existência é Um estertor
Seu sofrimento é profundo
Por causa de sua côr
És infeliz neste mundo.

Sufocando os nossos clamores
Quando somos perseguidos
Só Jesus Nosso Senhor
É quem ouve os nossos gemidos

Jesus nosso senhor
Não implantou a desigualdade
Não condenou o homem de côr
Não lhe baniu da comunidade.

(Carolina Maria de Jesus)

negros1

Museu de Sacramento II 3026

negros2

O mesmo poema em outro caderno intitulado 8 diário e história de Carolina, por desconhecido

Rebotalho

Quando eu morrer!
Não diga que fui todo
rebotalho
Que vivia a margem da vida

Digam que eu procurava
trabalho
E fui sempre preteria

Diga ao povo brasileiro
O meu sonho era ser escritora
Mas eu não tinha dinheiro
Para pagar uma editora

Digam que eu tinha bôa vontade
E demonstrava a minha
aptidão
E que vivia na degringolada
Sempre de rastro no chão

Digam que na multidão sorria
Recluída sempre eu chorava
Que em todos os lugares que eu ia
O povo desprezava

Digam que foi agro o meu viver
Que ninguém deu-me valor
Não sei se foi pôr eu ser,
De côr.

Muitas fugiam ao me ver
Pensando eu eu não percebia
Outras pedia para ler
Os versos que eu escrevia

Era papel que eu catava
Para custear o meu viver
E no lixo eu encontrava _
Livros para eu lêr

Quantas coisas eu quis fazer
Fui tolhida pelo precoonçêito
Se eu extinguir quero renascêr
Num país em que predomina
o preto

Adeus! Adeus, eu vou partir!
morrer!
E dêixo esses versos ao meu país
Se e que temos o direito de renascer
Quero um lugar, onde o preto é feliz

Ano Centenário Carolina Maria de Jesus

 

Em vida, Carolina Maria de Jesus publicou:

JESUS, Carolina Maria de. A favela como quarto de Despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Francisco Alves, 1960.

______. Casa de alvenaria: diário de uma ex-favelada. São Paulo: Editora Paulo de Azevedo LTDA, 1961.

______. Pedaços da Fome. São Paulo: Editora Áquila, 1963.

______. Provérbios. São Paulo: S/N, 1965.

Outros livros póstumos:

______. Journal de Bitita. Paris: A.M. Métailié, 1982. Traduzido do francês para o português somente em 1984 (ainda não temos uma edição mais genuína desse livro) em ______. Diário de Bitita. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

______. Meu estranho diário. Meihy e Levine (Orgs.). São Paulo: Xamã, 1996.

______. Antologia pessoal. Meihy e Levine (Org.). Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996.

______. Onde estaes felicidade? São Paulo: Me Parió Revolução, 2014.

 

3 comentários sobre “Saliva, confetes e sangue na caneta cortante de Carolina Maria de Jesus

  1. Republicou isso em Mamapresse comentado:
    Da publicação de seu primeiro livro “Quarto de despejo: diário de uma favelada” publicado em 1960 com o apoio do jornalista Audálio Dantas, devemos dizer que a tiragem inicial, que seria de três mil exemplares, foi de trinta mil, que se esgotaram em apenas três dias na cidade de São Paulo. No Brasil só em 1960 foi reimpresso sete vezes. Foi traduzido em 14 línguas, publicado em 20 países e circulou 40 países, cuja venda alcançou a marca de um milhão de exemplares. Foram produzidas edições na Dinamarca, Holanda e Argentina. Em 1961 na França, Alemanha (Ocidental), Suécia, Itália, Checoslováquia, Romênia, Inglaterra, Estados Unidos e Japão, em 1962; Polônia, em 1963; Hungria, em 1964; Cuba, em 1965 e, entre 1962 e 1963, na União Soviética, chegou inclusive a ser proibido na Portugal de Salazar. Portanto, falamos de um best seller que definiu a favela com o “quarto de despejo” da sociedade em contraposição a “sala de estar” .

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