A França pós-Charlie Hebdo

Por Natássia Massote

Os ataques em Paris, no começo de janeiro, suscitaram a extrema-direita, liderada por Marine Le Pen, da Frente Nacional. Já fortalecida pela crise e a defesa de políticas anti-imigratórias, muitos acreditaram que os atentados impulsionariam a consagração da filha de Jean-Marie Le Pen.10934065_4936132377334_1741900619937244878_n

Logo na semana dos atentados à revista Charlie Hebdo e a um mercado judaico, pesquisas mostravam que Marine sairia na frente em uma eventual disputa à presidência. Oportunamente, a líder da Frente Nacional usou o momento para defender sua agenda conservadora e bradou pela volta da pena de morte e declarou guerra ao extremismo islâmico – ou seria ao Islã?

Após um mês dos ataques e com as emoções mais acalmadas, a conclusão é de que, embora Marine tenha se fortalecido, o grande beneficiado foi o atual presidente, François Hollande, do Partido Socialista. Logo ele que há pouco amargava o título de presidente mais impopular da história, subiu uma aprovação de 19% para 40%.

Ontem, dia 8 de fevereiro, veio o primeiro resultado concreto. O Partido Socialista venceu uma eleição local no distrito de Doubs, em uma votação apertada contra a Frente Nacional. Obteve 51,3% contra o partido de extrema-direita. Se o governo de Hollande deu uma respirada, a Frente Nacional avança de forma perigosa.

Em 2014, o partido de Len Pen venceu as eleições para o Parlamento Europeu na França, conseguiu significativo avanço nos pleitos municipais e prospera em intenções de voto, com cerca de 28% da preferência para as eleições departamentais em 2015.

União Europeia

Não só na França, a extrema-direita cresce em alguns países europeus como Reino Unido e Alemanha. A crise econômica serviu de estopim. A postura radical contra imigrantes, o islamismo e os benefícios sociais ganharam adeptos.

Mas de contraponto, vem o crescimento de partidos tidos de “extrema-esquerda”, como o Syriza na Grécia ou o Podemos, na Espanha. São considerados extremistas pela oposição às políticas de austeridade, cortes de direitos trabalhistas e recusa de pagamento de dívidas – contra o arrocho e ajuste fiscal para os mais pobres.

Interessante pensar que a esquerda cresceu em países que sofreram profundamente com a crise, prejudicando diretamente os trabalhadores. Já a extrema-direita cresceu em países que, embora sentiram a recessão, são os responsáveis pela disseminação da cartilha troika, os porta-vozes de Angela Merkel.

Hollande e a esquerda

Hollande assumiu a presidência em 2012 com um discurso progressista, contra a austeridade e a favor de medidas de estímulo ao crescimento, consumo e poder de compra. Venceu, em parte, por causa do impopular governo conservador de Nicolas Sarkozy.

Mas quando o Partido Socialista assumiu o poder, Hollande não se destacou com uma agenda diferente. Continuou os cortes trabalhistas, acenou às medidas de arrocho e prosseguiu com as ações intervencionistas no Oriente Médio e na África, prosseguindo com um governo bem diferente ao desejo da esquerda francesa.

O presidente da França virou um centro da conciliação. O pouco que acenou à esquerda foi com a inclusão de minorias sociais em seu governo como a nomeação da ministra da Justiça da França, Christiane Taubira, negra nascida na Guiana Francesa e a ministra da Educação, Najat Vallaud-Belkacem, marroquina de 37 anos, que obteve cidadania somente aos 18.

Após os atentados, o governo empenhou um discurso pela união do país, destacando que o terrorismo não tem a ver com religião e imigração. Embora seja uma conclusão acertada, essa unificação social soa hipócrita já que há um sentimento de exclusão por parte da população mais pobre, sobretudo imigrantes árabes e africanos.

Não é à toa que muitos extremistas são recrutados em prisões. Não se difere muito do aliciamento de jovens pelo crime em muitos países. A desigualdade social gera a discriminação e, com ela, o sentimento de não pertencimento, a humilhação em um ambiente desequilibrado.

Mais do que vigiar jovens os jovens “predispostos” ao terrorismo, é preciso que a França procure atenuar as desigualdades camufladas e que acerte suas diferenças internas. A integração do país também vem com a aceitação de quem vive nas regiões periféricas e com a aceitação do multiculturalismo como parte da sociedade.

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