Menina mulher, ou mulher menina?

Por Reinaldo Dias

– O senhor já pegou a senha?

Arte: Raquel Gomes

Arte: Raquel Gomes

– Tem senha? Moça, eu estou com o ombro doendo…

– Sim, tem! Senhor, cuidado para não escorregar no vômito, uma criança acabou de deixar o café da manhã.

Naquele momento, eu pensei o que uma dor não faz com um ser humano, lá estava eu com a senha de número 360, recostei-me no banco, apoie a minha mão na parede, buscando uma posição mais favorável ao meu ombro, afinal, três horas do dia seria, naquele ambiente salutar com cheiro de comida, crianças gritando e pessoas enfurecidas com o tratamento em um ambulatório público.

Sabe aquele momento em que o mestre dos sonhos vem trocar uma ideia? Pois é, não aconteceu comigo, porque as crianças ocupavam o corredor disputando um lugar com a maca ocupada por uma senhora em uma situação embaraçosa. Percebi que a minha moral era antiga, pois eu havia aprendido que em hospital era lugar de fazer silêncio para se respeitar os doentes, crenças antigas, ensinamentos retrógados.

As crianças continuavam a correr, seus progenitores não estavam preocupados, mas eu sabia que a lei da gravidade uma hora tinha que agir, puxar algumas delas para o chão, só assim iria deixar a mulher que estava convalescendo na maca em paz. Finalmente ela agiu, duas baixas, que buscaram no desprezo da mãe um alívio para a dor.

Naquele túnel em que eu estava não tinha luz, na minha frente ainda tinha umas vinte pessoas, dentre elas, observei uma menina, por volta de seus 14 anos, na fila de pediatria, com fortes dores abdominais, sua mãe relatava que ela não estava bem, já há algumas semanas, apresentava quadros de enjoo, dores de barriga e que nada parava no estômago. Percebi um certo sorriso na enfermeira ao afirmar para mãe que sua rebenta não precisaria de um pediatra, mas sim de um ginecologista.

Aquela mãe não entendera a piada, pois sua filha, que era uma menina, não precisaria passar em um médico de mulher. Olhei no painel, agora só faltam dez, em meio a tanto desespero e tristeza, a dor do meu ombro já estava até melhor. Acompanhei a história da menina mulher. De longe a vi entrando no consultório acompanhada de sua mãe. Depois de alguns minutos, vejo a porta da sala abrindo, com um olhar cabisbaixo, a mãe sai da sala, expressões de sofrimento e desilusão permeavam as rugas ao redor do olho: a suspeita da enfermeira se confirmava, a menina tornou-se mulher, a flor desabrochou antes do tempo.

Minha mãe dizia, “meu filho, a tecnologia chega, mas o homem ainda está na idade média”. Ouço um bip, finalmente 360!

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